Xadrez

A Morte e o Cavaleiro de ‘O Sétimo Selo’ estão disputando muito mais do que a sobrevida de um mortal, mas sua possibilidade de fuga, e portanto de vulnerabilidade da morte.

Representações humanas da morte são reincidentes na arte ocidental. A Magra aparece mal disfarçada ou explícita, com ou sem foice, assustadora ou sedutora em toda a pintura desde Giotto. Seu disfarce toma várias formas, e sua principal característica é ser irrecorrível. Ninguém a resiste, quando chega a hora da morte. Mas também se repetem na arte ocidental imagens da morte barganhando uma vida, supostamente dando ao condenado uma chance de escapá-la. Nunca acontece, mas a possibilidade de fuga fica implícita até o inevitável fim do jogo. No seu filme O Sétimo Selo, o diretor Ingmar Bergman mostra uma partida de xadrez entre a Morte e o Cavaleiro, valendo a vida deste. Alguém já disse que todo jogo de xadrez é pela vida, mesmo que seja num torneio infantojuvenil e os jogadores não saibam. Mas a Morte e o Cavaleiro do Bergman sabem que estão disputando muito mais do que a sobrevida de um mortal, mas sua possibilidade de fuga, e portanto de vulnerabilidade da morte. Do mesmo filme do Bergman é a imagem inesquecível da morte filmada de longe contra um céu cinzento, puxando um cordão de pecadores, supõe-se, na direção do Inferno.

No filme, a morte ganha o jogo, mas a simples sugestão de que o Cavaleiro poderia ter ganho cria um precedente: e se a morte vence sempre não porque seja irrecorrível, mas porque jogou mal? Para derrotar a sua morte basta identificá-la entre os seus muitos disfarces, e desafiá-la. Aquele senhor que sentou ao seu lado (no ônibus, no cinema, no bar) ou cruzou com você como um vulto esquivo na entrada do hospital, será Ela? Só há uma maneira de saber.

– É você?

– Sou.

– Como será?

– Haverá um acidente, daqui a pouco. Você morrerá na hora.

– Não há nada a fazer?

– Nada.

– Eu não posso pedir uma chance? Desafiá-la para um jogo, valendo a minha vida?

– Jogo?

– Como no filme O Sétimo Selo. A morte e um cavaleiro jogam pela vida dele e…

– Maldito Ingmar Bergman… Se você soubesse o número de vezes que me pedem para imitar o filme. 

– Me parece justo. Se eu vencer o jogo, continuo vivo. Talvez ferido, mas sem gravidade. Se você vencer, me leva.

– Está bem. Vamos lá. Vamos ao xadrez.

– Só tem uma coisa. Eu não sei jogar xadrez.

– O quê?! Não sabe jogar xadrez?! O jogo de reis e filósofos? A única forma inteligente de destruir um inimigo sem sair da cadeira? O que você sugere em lugar do xadrez?

– Pingue-pongue. Sou bom em pingue-pongue.

– Eu não sei jogar pingue-pongue! 

– Azar.

Por Luis Fernando Veríssimo, O Estado de S. Paulo