Whitesnake e Scorpions: dois tiozinhos que ainda funcionam

Quando se apresentaram no primeiro Rock in Rio, em 1985, Scorpions e Whitesnake passavam por um momento semelhante em suas carreiras: ambos queriam conquistar o mercado americano. O quinteto alemão tinha uma larga vantagem. Discos como Animal Magnetism (1980), Blackout (1982) e Love at First Sting (1984) tinham tido bons resultados nas paradas dos Estados Unidos. Os Scorpions ainda vinham de uma consagradora apresentação no U.S. Festival, em 1983, evento no qual o Van Halen recebeu a quantia astronômica de 1 milhão de dólares para fechar a noite. O Whitesnake, por seu turno, iniciava as mudanças que iriam desencadear no disco Whitesnake (1987), obra-prima do chamado rock farofa. Os guitarristas Bernie Marsden e Micky Moody, tinham sido substituídos por Mel Galley, dono de solos mais rápidos e agressivos. Posteriormente, Galley daria a vez para John Sykes, ex-Thin Lizzy, que deu uma liga e tanto com o vocalista Dave Coverdale, o baterista Cozy Powell e o baixista Neil Murray.

Os caminhos de Whitesnake e Scorpions voltam a se cruzar por aqui, 34 anos após suas consagradoras apresentações no país. Os ingleses e os alemães fazem parte da oitava edição do Rock in Rio, ambos como shows principais do festival. O grupo liderado por Coverdale se apresenta no dia 28 de setembro no Palco Sunset, fechando uma noite que tem ainda Titãs e o grupo brasileiro Ego Kill Talent. Os Scorpions, que tem como ponto alto as guitarras de Rudolf Schenker e Matthias Jabs, além dos vocais agudos – hoje, nem tão agudos – de Klaus Meine fecham a noite do dia 04 de outubro no Mundo, o principal palco do evento. Mas antes de se bandearem para as terras cariocas, Scorpions e Whitesnake invadem o Allianz Park, em São Paulo, neste sábado. A dupla participa do Rockfest, que traz ainda Armored Dawn, Helloween e Europe (ainda há ingressos disponíveis há disposição no site site.ingressorapido.com.br/rockfest).

As apresentações nos grupos no Rock in Rio foram consagradoras e certamente os credenciaram para voos maiores. Principalmente os ingleses, que vieram no vácuo do cancelamento do Def Leppard – cujo baterista, Rick Allen, tinha perdido o braço num acidente automobilístico. O grupo inglês foi a primeira atração internacional a se apresentar na festa, após Ney Matogrosso, Erasmo Carlos (que acabou sendo expulso do palco por uma horda de headbangers loucos pelo Iron Maiden), Pepeu Gomes e Baby Consuelo (hoje Baby do Brasil). O Whitesnake era então uma incógnita. Não se sabe qual formação iria pisar no palco – vivíamos num período pré-internet – nem que tipo de performance eles fariam. Mais blues? Mais rock? Mais puxado para o heavy metal. A resposta seria: nenhuma das três. Ou melhor: as três, dependendo de cada canção. A presença de Sykes, um músico que acelerou o hard rock do Thin Lizzy nos anos 80 (recomenda-se muito escutar o Thunder & Lightning, disco de estúdio em que ele tocou) envenenou as canções com solos rápidos; Cozy Powell, famoso por “descer” a mão em discos do Jeff Beck Group e do Rainbow, deu a elas o peso necessário. Mas a essência de Coverdale, que entrou garoto no Deep Purple, ainda era o blues – depois ele iria descolorir as madeixas e se tornaria um ícone de um hard rock mais radiofônico. O lado bluesístico iria aflorar em canções como Crying in the Rain e Here I Go Again. Um show inesquecível e que rendeu a Coverdale até uma música de comercial de cigarros. A partir do Rock in Rio, o Whitesnake finalmente decolou.

 

 

Quando pisaram no palco do Rock in Rio, os Scorpions já eram uma banda de alta patente. As duas performances do grupo alemão faziam parte da turnê que gerou o álbum ao vivo World Wide Love, lançado naquele mesmo ano de 1985 O quinteto tinha mudado sua sonoridade algumas vezes. Começaram com um híbrido de hard rock e psicodelia e foram moldando sua sonoridade para o chamado “rock de estádio”, que fazia sucesso nos Estados Unidos por causa de bandas como Journey e REO Speedwagon (embora o quinteto alemão fosse um pouquinho mais pesado). O show deles foi uma espetáculo para grandes massas, com o grupo saindo de uma jaula de acrílico e movimentos de guitarra coreografados. Os Scorpions tinham como hábito homenagear o país em que se apresentavam com uma música local – que possui o disco Tokyo Tapes deve se lembrar de Kojo no Tsuki. O Rio ganhou uma atrapalhada, mas bela versão da marchinha Cidade Maravilhosa.

Whitesnake e Scorpions, claro, estão longe de seus dias de glória. Mas a exemplo daquele jogador veterano que pode fazer um golaço a qualquer, as apresentações desses dois grupos rendem momentos para se guardar na memória. O Whitesnake chega com o baterista Tommy Aldridge, que no Rock in Rio 85 tocou na banda de Ozzy Osbourne, e é um monstro das baquetas. Os guitarristas Reb Beach e Joel Hoekstra seguram bem o posto que um dia foi de Mel Galley e John Sykes, ainda que não repitam o brilho dos solos de seus antecessores. Os Scorpions ganharam uma vida extra com o baterista Mikkey Dee, ex-Motörhead, e sempre são uma garantia de performances arrebatadores. Além disso, ambos os grupos são um caminhão de hits. Sim, é um show de tiozinhos. Mas mesmo os tiozinhos têm direito a seus momentos de brilho.

Fonte: veja.abril.com.br/blog/veja-musica/whitesnake-e-scorpions-dois-tiozinhos-que-ainda-podem-funcionar-no-palco