Opinião | Rede de Espiões, o filme

Com a fama de inspirado no ótimo livro Os últimos soldados da Guerra Fria, de Fernando Moraes, o filme Rede de Espiões estreou e segue em cartaz na plataforma Netflix. A história real que mobilizou muitos em todo mundo, representada na tela por elenco espetacular, de Penélope Cruz, Édgar Ramirez, Wagner Moura, a Gael Bernal, tinha tudo para dar certo, mas deu ruim.

O roteiro sobre a missão dos cinco agentes da inteligência cubana deslocados para Miami para espionar e desmontar as ações terroristas praticadas por cidadãos cubanos que deixaram a ilha porque contrários à revolução, esvazia a intensidade da tarefa ao optar por fragmentos de emoções em modo barato, suspenses e confrontos de vídeo game. E tolice maior: igualou as redes de espionagem na linha Haddad e Bolsonaro são a mesma coisa.

Nos anos de 1990, os agentes foram descobertos e presos. Ao mesmo tempo, o episódio revelou a atuação das milícias formadas por cubanos que vivem nos Estados Unidos e de onde partiam os ataques a Cuba, um dos quais responsável pela morte do turista italiano Fabio di Celmo, em consequência da explosão de uma das bombas espalhadas em série em diversos hotéis de Havana, a capital, com o objetivo de destruir a indústria do turismo,  principal fonte de recursos da ilha que sofre do bloqueio econômico imposto e mantido pelos governos estadunidenses há cerca de 60 anos.

Carmen Diniz, representante do Capítulo Brasil do Comitê Internacional Paz, Justiça e Dignidade, de Cuba, lamenta que esse e outros acontecimentos relevantes para a compreensão da história tenham sido desconsiderados pelos realizadores. Mas ressalta que seja qual for a avaliação sobre o filme dirigido pelo francês Olivier Assayas, isso jamais significará censura à sua exibição.

No depoimento em que faz a crítica do filme, dado ao 247, Carmen destaca a relação do pai do jovem di Celmo com Cuba. Segue o depoimento:

 “Expectativa a gente sempre tem em relação a filmes. Mesmo sabendo que se trata de uma obra cinematográfica e não de uma aula ou curso, a tendência é querer ver representada na telinha mágica a história como a conhecemos de perto. A história dos cinco contada por Fernando Morais, é, na opinião de muita gente, uma história em si mesma cinematográfica. Talvez daí tenha gerado uma expectativa. Não precisava de muita coisa para virar filme. O roteiro da vida real já contribuía com a realização sem muito esforço. Aí, ficamos sabendo do elenco, nossa! Uma produção esmerada, um diretor francês…, não vai ter como ser ruim.

Chegou o filme. Sabe anticlímax? Pois é.  Começa mal, não porque é claramente contra a Revolução cubana. Isso já estamos acostumados, todos, por causa de Hollywood, estão no papel deles ,sem trocadilho, mas não se esperava esse velho, antigo molde para contar essa história. Não fica sequer muito claro o papel da Rede Avispa – nome da operação que traduzindo significa Rede Vespa – no desmonte das ações terroristas da máfia de Miami.

Na verdade, mostra com certa rapidez um mercenário salvadorenho colocando bombas nos hotéis. Preso, mostram-no de cuecas induzindo o espectador a pensar em tortura. Demora muito mais tempo mostrando caças cubanos explodindo aviões mercenários sobrevoando ilegalmente o espaço aéreo cubano.  Mostra um tal de Concílio, nunca ouvi falar, que seria um grupo de oposição cubano sendo reprimido duramente por “forças policiais da ditadura cubana”. Dá a impressão que o Bope vai entrar a qualquer momento.

Mostra um ataque da máfia cubana a um hotel de praia em Cuba, mas só atiram para cima…sei.  Não se fala de um avião de passageiros que o mafioso-mor Posada Carriles derruba matando 73 jovens e ainda se gabando do fato, dizendo que estava “matando cachorros”. Esse é Posada. Um monstro, mas mostra-o até como pintor. Por uma questão moral não se pode deixar de abordar o atentado perpetrado por Posada Carriles mostrado no filme de forma fugaz.

Em um dos atentados contra hotéis comandado por ele a cargo de um mercenário, com a finalidade de destruir o turismo em Cuba, uma das bombas explodiu em um cinzeiro no saguão do Hotel Copacabana em Havana em 4 de setembro de 1997. Ali morre, em virtude desta bomba atingido por estilhaços, o turista italiano Fabio Di Celmo, de 32 anos. Ao contrário do que se esperava como consequência do atentado, seu pai, Giustino Di Celmo, um bem sucedido empresário italiano, se une à causa cubana, inclusive burlando o bloqueio e comercializando com a Ilha. Em todos os atos realizados em Cuba pela liberdade dos Cinco Cubanos, ali estava Giustino, que encontrávamos sempre com muita admiração e respeito. Giustino defendeu Cuba e justiça para o assassinato do seu filho até o fim dos seus dias, em 2015.

Mas voltando, não era para ser a história dos cinco heróis? Ao menos era o que dizia a sinopse. Deve ter sido propaganda enganosa. E porque será que assim ficaram conhecidos em seu país? Os cubanos seriam ingênuos nesse nível? Alguém é condenado a duas ( duas!) prisões perpétuas e mais 16 anos sem ter cometido nem ser acusado de homicídio ?

A propósito, foi o julgamento mais prolongado dos EUA. A pergunta que não quer calar: onde estavam os outros três? O personagem de Wagner Moura não teve importância na vida real, até porque os homens se tornam mais humanos quando demonstram sua coerência, como os 5 sempre falam: “o que nos manteve firmes foi a ideologia da Revolução”. Quando podiam, escutavam no rádio o Comandante Fidel falando que eles eram heróis e iriam “Volver”.  Enfim, passaram por várias penitenciárias de segurança máxima, muitas vezes mais de um ano em solitárias – sempre separados entre si.

Durante 16 anos. Não foi fácil. E tudo por quê? Seria muito difícil mostrar no filme que a ideologia dos 5 venceu o suplício que passaram?  Ah, sr. diretor, que desperdício! Com um time desses, uma história espetacular e o senhor não aproveita?  Quis ficar neutro ? Não percebeu ainda que isso de neutralidade é invenção “pra inglês ver”? Que pena, sinceramente. Porque nem precisava “bater” no governo norte-americano e seu sistema penal e carcerário, mas ao menos mostrar OS CINCO e o que os movia. O que os moveu a missões tão arriscadas não poderia passar em branco. É o cerne da história.

Respeito o lugar de fala de quem realizou o filme, mas acho que um pouco de amor à verdade seria bom. É para ser neutro?  Tente ser. Tem vídeos do Comandante tão melhores, falando sobre sentimentos e emoções. Coisas, aliás, que se fossem contadas no filme teriam prendido muita mais a atenção.

Mas, vamos lá, tudo tem um lado positivo na vida.  Ao menos, minimamente, o filme divulga um pouco a história dos Cinco, caso a pessoa se interessar em pesquisar. Touché para a cena da filha do René com a foto do Fidel marcando o livro e dizendo, “se você fosse traidor, pai, não guardava a foto na gaveta, rasgava”.  Ainda bem que o diretor sabe disso e que existe um ódio constante desses fascistas que se dizem democratas. Aliás, aqui no Brasil a gente tem sido apresentada a muitos.

Pois é, o filme desperdiçou uma oportunidade de mostrar valores que ainda existem no mundo, princípios irrevogáveis, amor acima de tudo”.

*Maria Luiza Franco Busse é jornalista, semióloga e professora universitária aposentada. Graduada em História, mestre e doutora em Semiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Edição: Rodrigo Durão Coelho

Fonte: www.brasildefato.com.br/2020/07/02/opiniao-rede-de-espioes-o-filme

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