Varada Cultural

‘Não preciso seguir estereótipos para ser punk’, diz líder do Bad Religion

O Bad Religion se apresentou no Brasil pela primeira vez em 1996. De lá para cá, o grupo de punk rock californiano já voltou ao país mais de dez vezes. A mais recente delas aconteceu no último domingo, 3, no festival Primavera Sound, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Greg Graffin, vocalista e líder da banda desde sua fundação, em 1979, no entanto, já havia visitado o Brasil bem antes de virar figurinha fácil por aqui como roqueiro. Doutor em Zoologia e professor universitário da Universidade de Cornell, ele esteve na Amazônia em 1987 para estudar os rios do Brasil e da Bolívia. Como punk e pesquisador, temas urgentes como aquecimento global e as desigualdades sociais sempre estiveram presentes nas letras da banda.

O músico recebeu a reportagem de VEJA em seu camarim pouco antes do show em São Paulo, e refletiu sobre o significado de ser punk hoje em dia, além de lembrar de suas passagens pelo Brasil no passado. No show compacto, acelerado e barulhento (como todo punk gosta), Graffin tocou os principais sucessos da banda, como Sorrow, Anesthesia, Infected, Do What You Want, American Jesus, Los Angeles Is Burning, I Want To Conquer The World e 21st Century (Digital Boy).

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Confira a seguir os principais trechos: 

O clima em São Paulo está mais quente que o normal, e o Bad Religion sempre foi uma banda que denunciou em suas letras as alterações climáticas. Chegamos a um ponto em que não há mais volta? Há quase trinta anos, escrevi Modern Day Catastrophists. É uma canção que alerta as pessoas de que existe uma intelectualidade científica que reconhece as alterações climáticas há muito tempo, mas não revela ao público e usa isso como barreira política. Há uma elite política que não ouve o bom senso ou a ciência. Apenas encaram isso como uma batalha política. Mas a verdade é que a catástrofe sempre fez parte do clima. O clima nunca é estável. Então, como educador, eu coloco um pouco disso nas minhas músicas. Acho que é minha responsabilidade apenas relatar os fatos. E os fatos são que as alterações climáticas estão acontecendo. Muitas pessoas temem que não consigamos nos adaptar com rapidez suficiente. Mas outros usam isso como desculpa para poluir mais. Temos sido bastante consistentes por trinta anos escrevendo sobre isso.

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Vemos uma ascensão da extrema-direita no mundo e Donald Trump liderando as pesquisas nos Estados Unidos. O extremismo também é um tema que interessa ao Bad Religion? O punk sempre foi contra qualquer visão política defendida atualmente. Portando, o mainstream é sempre algo contra o qual escreverei. Às vezes, o mainstream é de direita. Às vezes, é de esquerda. Se você for o suficiente para a direita ou o suficiente para a esquerda, é praticamente a mesma coisa. É extremismo. Existem bandas punk que são extremistas. Não acho que o Bad Religion seja uma banda extremista. Sempre fomos muito moderados. Novamente, se você está interessado em fatos sobre o mundo em que vive, não precisa ser um extremista. Basta aceitar os fatos. Somos uma banda punk porque criticamos independentemente da visão atualmente defendida. Fazemos mais perguntas do que apresentamos soluções.

Ainda é possível ser punk rocker aos 59 anos? Tenho essa infelicidade de ter que ser considerado punk aos 59 anos. Não preciso seguir estereótipos para ser punk. Acho que essa é a diferença entre mim e muitas outras pessoas de 59 anos que pensam que têm de ser punks.

Qual é o segredo para o punk continuar relevante ainda hoje? Boa parte é nostalgia. Foi um conjunto de circunstâncias únicas e interessantes que trouxe o punk para a proeminência e criou um interesse mundial pelo punk rock. Parte disso aconteceu há trinta ou quarenta anos. Então, agora as pessoas estão redescobrindo essas circunstâncias únicas. E eles estão revisitando como foi legal isso ter acontecido. Mas o que o torna relevante é que as pessoas estão sempre dispostas a desafiar o mainstream. Então, enquanto houver algo a ser contestado, o punk sempre será um movimento musical viável.

O Bad Religion já veio ao Brasil mais de dez vezes desde 1996. Como é sua relação com o país e os brasileiros? Eu já tinha vindo no Brasil antes disso. Eu era um naturalista estudando a Floresta Amazônica. Vim em 1987 e vi muitas mudanças. Naquela época eu também fui ao rio Madre de Deus e ao rio Beni, ambos na Bolívia. Por lá, onde antes havia floresta, há uma super rodovia. Quando a banda veio ao Brasil pela primeira vez, em 1996, também vimos mudanças. Desta vez no interesse das bandas de punk rock pelo Brasil. Antes de nós, vieram os Ramones. Viemos depois e o Brasil jamais saiu da nossa agenda de turnês. Há um relacionamento especial com o público brasileiro. Sempre teremos um lugar para o Brasil nas nossas turnês e nos nossos corações. Amamos esse país.

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O senhor é doutor em zoologia e professor universitário. Como conciliar duas profissões tão diferentes? Nunca acreditei realmente que eu deveria abandonar os estudos. Minha família é acadêmica. Faz parte da minha natureza ser acadêmico. Tive oportunidades de ensinar e de estudar. A música sempre foi também uma grande parte de mim. Tive de fazer alguns malabarismos para dar conta dos dois. Ainda hoje, eu faço um pouco dos dois e é muito gratificante. Mas, eu não uso as minhas aulas para falar dos shows e acho que os alunos nem sabem quem eu sou.

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Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/o-som-e-a-furia/nao-preciso-seguir-estereotipos-para-ser-punk-diz-lider-do-bad-religion/