Varada Cultural

Geddy Lee, baixista do Rush: “Fomos criados em uma cultura de drogas”

Aos 70 anos, o baixista Geddy Lee tem seu nome garantido no hall dos grandes roqueiros da história. Vocalista do Rush, trio canadense de rock progressivo, ele usou o período da pandemia para relembrar os mais de 40 anos de estrada na saborosa Geddy Lee – A Autobiografia (My Effin’ Life), da editora Belas Letras, cuja tradução para português chega às lojas em 30 de novembro. Filho de pais poloneses que sobreviveram aos campos de concetração nazista, Geddy conta na obra que os horrores da guerra sempre estiveram presentes na família e para entender suas músicas, é preciso também entender seu passado. O avô materno, por exemplo, foi uma das vítimas do holocausto, exterminado em um campo de concentração.

Em 2020, outra tragédia se abateu sobre Geddy. Um de seus melhores amigos e profícuo baterista do Rush, Neil Peart, morreu de câncer no cérebro. No livro, Geddy conta que a pedido de Peart, precisou esconder dos fãs a doença do amigo. E, após a morte de Peart, Geddy diz que perdeu toda a vontade de tocar qualquer instrumento. Só muito recentemente, em um show tributo ao baterista Taylor Hawkins, que ele voltou a tocar ao lado do amigo e guitarrista Alex Lifeson, acendendo a esperança nos fãs de que a dupla pudesse voltar a tocar juntas, mesmo sem Peart na bateria.

Geddy Lee conversou com a reportagem de VEJA em uma entrevista exclusiva para o Brasil. Falando de sua casa no Canadá, o músico destacou a importância de relembrar o passado familiar, sobre a morte de Peart, relembrou aos risos que a canção Tom Sawyer ficou conhecida no Brasil por causa da série do MacGyver, falou sobre sua nova série de TV, na Paramount+, intitulada Geddy Lee Pergunta: Baixistas Também São Humanos?, e não descartou um retorno aos palcos ao lado de Lifeson. Leia e assista a seguir os principais trechos:

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Antes de morrer, sua mãe enfrentou um longo período de demência e a doença fez você perceber o quão frágil é a nossa memória. Esta foi uma das razões que te levaram a registrar sua história em um livro? Sim, esta foi uma das razões. Foi também muito divertido o processo de escrever o livro e desafiar meus bancos de memória. Gostei muito de relembrar dos anos 1960, quando eu ainda era uma criança e também dos primeiros anos de turnê pelos Estados Unidos e Europa. São histórias divertidas. Juntar essas peças foi como um jogo de detetive. Obviamente, conforme a história avançava, tive de lidar com momentos de profunda tristeza que me exigiram um gram maior de sensibilidade.

Imagino que algumas dessas tristezas passem pela morte de seu avô no Holocausto e o sofrimento que seu pai e sua mãe enfrentaram em campos de concentração nazista. Com a recente guerra em Israel, você teme atos antissemitas? A história dos meus pais e dos meus avós é uma questão complicada. Para mim, foi importante recontar essa história porque se estou pensando em um livro de memórias, a pessoa que vai ler precisa aprender algo sobre você para saber porque eu sou o que sou. Sou o resultado de várias experiências da minha vida, incluindo a atmosfera em minha casa e as histórias que ouvíamos quando eu era criança, como o sofrimento de meus pais durante guerra e a sorte que eles tiveram em sobreviver. Se eles não tivessem sobrevivido, eu não estaria aqui falando com você, então, tenho que prestar homenagem à força e a capacidade que eles tiveram de se preservar nas piores circunstâncias possíveis. Para mim, é uma homenagem à eles, mas também ajuda ao leitor a entender porque marchei junto com esta banda maluca no qual eu fiquei 45 anos da minha vida. Sobre o que está acontecendo hoje, quero dizer que vivemos num mundo muito fodido. Há muitas pessoas por aí que odeiam o meu povo. Não posso controlar isso. Eu espero e rezo para que o bom senso prevaleça e que não tenhamos que passar por um período de ódio semelhante aos que meus pais passaram durante a Segunda Guerra Mundial.

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Um fato curioso do livro é que, devido sua mãe ser imigrante, ela registrou seu nome do meio errado e depois esqueceu qual nome tinha te dado. Fiquei com a sensação que você só descobriu sua verdadeira identidade quando se tornou músico e assumiu o nome Geddy Lee. É isso mesmo? Acho que é verdade. Eu tenho feito jus a esse nome há quase 70 anos. Identidade é um conceito muito interessante. Meus pais tiveram vários nomes diferentes. Por exemplo, quando eles moravam na Polônia, eles tinham um nome judeu e um nome polonês. De certa forma, isso me preparou para a minha “dupla personalidade”. A ideia de personalidade é fluída. Quando eu era criança, eu era muito tímido e, no entanto, hoje estou aqui, relembrando minha vida e as coisas que fiz. Eu sempre me questiono: como uma pessoa tímida poderia fazer todas essas coisas? Não faz sentido. Eu acho que eu não era tão tímido assim na infância. Talvez fosse uma falsa percepção que eu tinha de mim.

Há também uma falsa percepção que os três integrantes do Rush sempre foram muito certinhos, que não usavam drogas e se comportavam bem. No entanto, no livro, você fala do uso de drogas e álcool entre vocês. Por que você acha que ganharam essa fama? Nós fomos crianças dos anos 1960 e fomos criados em uma cultura de drogas. A Passage To Bangkok fala claramente sobre fumar maconha. Não sei porque as pessoas ficam surpresas com isso. Quando jovens experimentamos todos os tipos de coisas, fazia parte de ser jovem. Eu penso que a diferença é que não nos permitimos ser vítimas dessas experiências. Amávamos ser músicos e não permitimos que essas festas ou experimentos, ou como quiser chamá-los, interferisse em nosso desempenho. Exceto pelo álbum Caress of Steel. Aprendemos uma lição: não ficar muito doidão quando estiver gravando um disco ou ele pode sair muito estranho. Tivemos a presença de espírito de controlar essas substâncias como algo puramente recreativo.

Outro momento dramático da sua biografia, claro, é a morte de Neil Peart. Quando o Rush fez o último show, vocês ainda não sabiam da doença. O que lembra daquele show? Sim, só descobrimos a doença quase um ano depois do nosso último show. O pensamento que eu tive no nosso último show foi de decepção. Eu estava muito animado com aquela turnê. Estava muito orgulhoso dela, especialmente da maneira como estávamos tocando. Adorei o design e as ideias que tivemos. Estava simplesmente lindo. Eu queria tocar em todos os lugares do mundo. Mas Neil queria parar. Eu tinha a esperança de que o Neil mudasse de ideia e voltasse a tocar na banda depois de algumas semanas de folga. Quando ele disse que queria se aposentar, foi muito difícil para mim e eu fiquei ressentido porque a decisão de outra pessoa afetava o que eu queria fazer. Eu entendi. Eu não tinha escolha e só me restava respeitar a decisão dele. Sempre fomos uma democracia e dissemos que se os três não quisessem fazer algo, não faríamos. Você tem que aceitar o bom e o ruim. Quando a turnê terminou eu fiquei triste, fiquei frustrado. Infelizmente, depois de um ano, soubemos da doença e, naquele momento, nada mais importava. O momento, agora, era estar ao lado dele e tentar ajudar a família de qualquer maneira. Foi muito difícil.

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Já se passaram quase quatro anos da morte dele. Como lida com o luto? É dificil acreditar que ele morreu em 2020 e já estamos quase em 2024. Faz parte da vida. Eu penso muito nele, obviamente. É claro que sinto muita falta dele. Ele foi um amigo e um colega de banda muito importante. Gostaria que ele ainda estivesse aqui. Ele não está e eu aceitei. Agora penso nele com carinho. Muitas vezes penso que ele aprovaria o que quer eu e Alex estejamos fazendo.

Você acredita em vida pós-morte e que ele pode estar olhando por você lá do outro lado? Na verdade, não acredito, não. Mas é uma coisa boa de se imaginar.

No livro, você diz que, finalmente, após muito tempo, conseguiu falar a palavra com A (aposentadoria). Pensa, de fato, em parar ou ainda é cedo? Após a morte de Neil, eu tive um conjunto complexo de sentimentos. Não foi porque ele havia falecido. Foi porque durante três anos e meio lidamos com a sua doença e coisas como essas realmente nos aproximam e pesam muito no coração. Então, quando ele faleceu, foi difícil para mim pensar em apenas pegar um instrumento e começar a cantar. Não parecia certo para mim. Eu realmente não tinha coração para a música. Felizmente, encontrei algo para fazer durante a pandemia, que foi escrever. E isso preencheu uma lacuna muito grande para mim. Foi um desafio. Eu estava desafiando minha memória e testando minhas habilidades como escritor. Qualquer coisa relacionada à música era a coisa mais distante da minha mente naquela época. Mas, desde que Alex e eu nos reunimos no ano passado, para os shows tributos a Taylor Hawkins, percebi que a música ainda faz parte de mim. Eu não tenho problemas em tocar essas músicas novamente. Mas tenho que encontrar o lugar e a hora certa para que isso aconteça. Gostaria de voltar à estrada e tocar ao vivo novamente, em algum momento, mas não tenho certeza se isso será com Alex ou sozinho. Essas são coisas que ainda estou pensando neste momento.

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Você pretende vir ao Brasil para o lançamento da biografia? Não tenho certeza neste momento, ainda estamos conversando sobre isso com a editora brasileira e estamos tentando ver se consigo fazer isso funcionar ou não.

Ainda sobre o Brasil, no livro há uma passagem curiosa em que você diz que descobriu que Tom Sawyer ficou famosa no Brasil nos anos 80 devido à série Profissão: Perigo, do MacGyver. Como foi isso? Foi muito engraçado porque eu não tinha ideia na época que a minha música estava sendo tocada para isso. Foi uma grande surpresa. Faz sentindo, afinal, ele também é um tipo diferente de guerreiro da época moderna (trocadilho com a letra da música), certo? Obrigado MacGyver.

Com o recente lançamento de uma música dos Beatles restaurada por meio da inteligência artificial, você também pensa em usar a tecnologia em canções do Rush? É inevitável que coisas como essas aconteçam cada vez mais. Mas isso não tem a ver comigo. Eu prefiro fazer música com humanos porque esse é o ponto principal. Eu e Alex ainda somos muito próximos, acabei de vê-lo esta manhã e converso com ele toda semana. Mas ele gosta de ficar sentado em sua casa, receber as músicas pela internet e trabalhar nisso sozinho, tocando guitarra e produzindo. Eu entendo isso. Mas, para mim, não é sobre isso que se trata a música. Gosto de estar em uma sala com alguém e fazer música junto. Acho isso poderoso. Encontrar uma conexão com outro músico é muito poderoso. Ás vezes, Alex me pergunta se eu simplesmente não quero enviar algumas ideias para ele. Eu digo que não, quero que ele venha na minha casa para tocarmos algo juntos e fazer acontecer. Eu sou assim.

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Você é considerado um dos melhores baixistas do rock. Na sua opinião, quem você considera como os melhores baixistas da história? Acho que não dá para fazer uma escolha generalizada, porque tem a ver com estilo. Em jazz progressivo não há ninguém melhor que Jaco Pastorius. Chris Squire foi o maior baixista de blues rock. Jack Bruce também é um dos melhores. Para mim há tantos músicos bons por aí. Eu olho na internet e penso, meu Deus, jovens de todos os gêneros praticando técnicas incríveis. Vejo mulheres também tocando contrabaixo de cinco cordas. Há muitos músicos japoneses também. John Paul Jones me enviou esses dias um vídeo do YouTube só com baixistas japoneses, todos espetaculares.

Isso me leva a outra pergunta: baixistas também são humanos? (Risos) É o que eu estou tentando descobrir.

Como foi fazer esse programa de TV onde você acompanha a rotina fora dos palcos de baixistas famosos? O que aconteceu foi que durante a pandemia, enquanto eu escrevia minhas memórias, Sam Dunn me procurou. Ele é antropólogo e baixista. Ele disse que havia adorado meu outro livro sobre baixo e perguntou se poderíamos fazer um documentário. Conversei com meu co-escritor Daniel Richler, que trabalhou comigo no livro sobre baixo e também no livro de memórias, e como meu irmão, que é cineasta, e nos lembramos do caso do Bill Wyman. Entrevistei Wyman para o meu livro e ele é uma pessoa muito interessante. Quer dizer, ele fez tantas coisas que não tinham nada a ver com música, como ser fotógrafo de borboletas, escreveu nove livros, é arqueólogo amador e inventou a própria máquina detectora de metais. E, você sabe, também foi baixista dos Rolling Stones. Eu pensei que ele era um ser humano muito interessante. Quando o vemos nos Stones, parece que ele está apenas tentando conquistar as garotas e aí você descobre uma pessoa completamente diferente e fascinante. Outros baixistas também são assim. Eu sei disso porque sou fotógrafo de pássaros, colecionador de vinhos e louco por beisebol. Foi isso que nos deu a ideia. Procuramos a Paramount+ e eles ficaram bastante entusiasmados. Eu tive que aprender a ser apresentador de TV. Acho que, depois de 45 anos tocando em uma banda, é muito saudável fazer outras coisas e descobrir mais sobre mim. Será que vou fazer mais programas na TV no futuro e escrever mais livros? Não sei. Mas foi uma forma de expandir minha criatividade.

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Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/o-som-e-a-furia/geddy-lee-baixista-do-rush-fomos-criados-em-uma-cultura-de-drogas/