Um Natal diferente e cheio de apreensões

Deonísio da Silva

Será que Jair Bolsonaro, parlamentar por tanto tempo, acalentava desde os verdes anos o projeto de ser presidente da República?

Por enquanto, os indícios são de que o projeto surgiu de supetão, foi construído às pressas e o presidente agora eleito, mas ainda sem ter tomado posse, viu-se ocupando um lugar vazio que ninguém queria ou não podia ocupar como alternativa aos sucessores do mesmo por outro muito parecido com o anterior, como tem acontecido desde que os militares deixaram o poder no já longínquo 1985, ao final de um ciclo de vinte anos, iniciados com a deposição do vice-presidente João Goulart, então presidente da República porque o titular, Jânio Quadros, renunciara.

Depois deste período caudaloso, que jovens acostumados a teclar monossílabos e ainda assim abreviados, terão dificuldade de entender, perguntemos: o que Bolsonaro, presos, traidores e delatores têm a ver com o Natal? Muito mais do que Papai Noel, como já começamos a ver.

O Natal é apresentado num cenário bonito com trilhas sonoras inesquecíveis, como o Adeste Fideles (Venham, fiéis), gravado por famosos cantores internacionais como Luciano Pavarotti, Laura Pausini e Andrea Bocelli, entre outros.

A canção, cuja autoria é atribuída ao rei português Dom João IV, era tradicionalmente executada na Embaixada de Portugal em Londres, desde o século XVII.

João IV era trineto de Dom Manuel, o venturoso governante sob cujo reinado foi descoberto o Brasil, mas não queria ser rei e por isso foi apelidado também de O Afortunado, no sentido de sorte que tem a palavra Fortuna, uma deusa romana importante, uma vez que presidia às mudanças na vida de uma pessoa. Seu significado mais próximo é destino, por vezes encontrado naqueles caminhos que a pessoa toma para evitá-lo.

Em meio a frases memoráveis como Gloria in excelsis Deo et in terra pax hominibus bonae voluntatis (Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade), cantadas na Missa do Galo, esta uma tradição que vem desde o século IV, por ser o galo um bom anunciante (ou por ter sido, porque também os galos hoje são raros) aos abraços, beijos e congratulações da Noite Feliz da Ceia de Natal, não nos esqueçamos de que este Natal é absolutamente singular na vida brasileira.

Vamos celebrar o Natal com novas e enormes afluências de desempregados e endividados, com um ex-presidente da República na cadeia, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, outros ameaçados de fazer-lhe companhia no cárcere com já ocorre no Rio de Janeiro, onde todos os ex-governadores nos últimos vinte anos estão presos ou já foram presos.

Neste Natal, vive seus últimos dias na Presidência da República outro vice que assumiu. Pois é, outra apreensão: no Brasil, vice assume com mais frequência do que é esperado. E isso sempre causa algumas desarrumações adicionais. O presidente Michel Temer deixa o poder com o coração atordoado por intrigas, mágoas e acusações ainda não resolvidas de todo, embora ele tenha frustrado, por vezes sozinho, as gigantescas tentativas de derrubá-lo.

Vários escritores, entre os quais alguns que são notórias referências nas literaturas de todo o mundo, viram no Natal mais do que as alegrias da celebração do nascimento do Menino Jesus, o homem que marcaria a nossa época com a.C. e d.C., antes e depois de Cristo.

Cristo, do Grego khristós tem o significado de ungido, e esta palavra serviu para traduzir o Hebraico Messiah, que junta os significados de ungir, isto é, passar o óleo em quem é consagrado para alguma missão, como foi feito com os primeiros reis. O óleo é ainda muito usado em celebrações religiosas e administrado no batismo. Jesus passou, então, a ser conhecido por Cristo, uma vez que sua biografia foi narrada e consolidada em Grego e não em Hebraico, língua utilizada para ler e rezar no templo, nem em Aramaico, língua que ele usou para fazer sua pregação, nem em Latim, língua na qual ele foi processado, interrogado, preso e executado pelo procurador romano na Palestina então sob domínio imperial.

Além do russo Dostoiévski e do inglês Charles Dickens, tão amargos nas narrativas de Natal, temos o polonês Wladyslaw Stanislaw Reymont, Prêmio Nobel de Literatura em 1924, que nos conta no seguinte em Uma lenda de Natal.

Jesus, Judas e Pedro chegam esfomeados a uma estalagem. Eles não têm o que comer. A dona da pousada pergunta se não querem comprar um ganso.

Judas sopra as penas da barriga da ave e pechincha no preço, dizendo que o ganso é muito magro. Jesus propõe que os três vão dormir, enquanto a ave é preparada, e como a comida não é suficiente para todos, diz que quem tiver o sonho mais bonito comerá o ganso.

No conto de Reymont, Judas, que é ruivo, come a ave enquanto Pedro e Jesus dormem. Quando o mestre pergunta qual foi seu sonho, responde com cinismo: ‘sonhei que me levantava e que em sonhos comia o ganso’.

O escritor conclui que esta é a razão de o povo da Polônia guardar vigília na noite de Natal.

Mas, nós, brasileiros, certamente teremos neste Natal motivos adicionais para ficar vigilantes. Já houve a facada para afastar Jair Bolsonaro da disputa presidencial, uma vez que a intenção era assassiná-lo, e surgem indícios de que há projeto clandestino de impedir que assuma e, se assumir, não deixá-lo governar.

Estas são algumas apreensões deste escritor e professor neste Natal. Resolvi compartilhar com os leitores nos espaços onde sou lido.

Machado de Assis, concluindo famoso soneto de natal em que conta as reflexões de um ancião que faz brotar no Natal recordações dos verdes anos, conclui assim:

E, em vão lutando contra o metro adverso/ Só lhe saiu este pequeno verso:/ Mudaria o Natal ou mudei eu?”.

*Deonísio da SilvaDiretor do Instituto da Palavra & ProfessorTitular Visitante da Universidade Estácio de Sáhttp://portal.estacio.br/instituto-da-palavra