Empreendedorismo feminino: uma perspectiva do Grande ABC

As constantes mudanças na estrutura econômica, o avanço da tecnologia e as transformações no mundo do trabalho (entre elas a precarização e a escassez da mão de obra) têm proporcionado o aumento expressivo do empreendedorismo. Especialmente no que diz respeito aos negócios de pequeno porte, como é o caso dos microempreendedores individuais (MEIs).

De acordo com o especialista em gestão de pessoas Idalberto Chiavanenato, pesquisas mais recentes pontuam algumas características dos empreendedores como: necessidade de realização, autoconfiança e necessidade de assumir riscos. Entretanto, é possível afirmar que nem todos iniciam o empreendedorismo pautados nessas motivações pessoais, e sim “para escapar ou fugir de algum fator ambiental, limitativo ou negativo”.

Os pesquisadores Gláucia Vale, Victor Corrêa e Renato Reis Vale analisam a distinção entre o empreendedorismo por oportunidade e por necessidade. Estudos específicos sobre o tema, especialmente pesquisas do Monitor Global de Empreendedorismo (GEM, na sigla em inglês) afirmam que o empreendedorismo por necessidade surge da falta de oportunidades no mercado de trabalho, ou porque as oportunidades existentes são insatisfatórias. Entretanto, os autores apontam para múltiplos motivos na hora de empreender. A rigidez em determinar apenas duas variantes (oportunidade e necessidade) como determinam as pesquisas da GEM, já está sendo questionada, embora o órgão seja de grande relevância e essa seja considerada a maior pesquisa em âmbito mundial no tema. 

Além disso, há evidências de que o empreendedorismo feminino permite que as mulheres adequem sua posição no mercado de trabalho de acordo com suas necessidades e expectativas, no que diz respeito à vida pessoal e à ascensão na carreira, diferentemente dos modelos tradicionais do mercado.

De acordo com a especialista em empreendedorismo feminino Daise Natividade, a participação das mulheres no cenário empreendedor tem aumentado significativamente nos últimos anos, infelizmente motivadas por sobrevivência e negócios iniciais, em sua maioria. Ressalta-se ainda, o duplo esforço na jornada de trabalho, sendo parte em seu empreendimento e parte nos afazeres domésticos, assim como nos cuidados com os filhos quando os têm. Ainda se evidencia a transformação do lar em local de trabalho, a fim de associar o negócio com as obrigações domésticas. Desta forma, assim que possível, ao adquirir nova oportunidade no mercado de trabalho convencional, desistem do seu negócio. 

Em concordância, estudo recente do Sebrae Minas apontou algumas fragilidades do empreendedorismo feminino. De acordo com o órgão, a pandemia impactou diretamente as mulheres e mães empreendedoras. Aquelas que reduziram o tempo dedicado ao negócio para cuidar dos filhos correspondem a 33%, esse impacto é maior para aquelas que possuem filhos menores de 10 anos. A flexibilidade de horário e a possibilidade de melhoria na renda para proporcionar mais qualidade de vida para a família foram apontados como fatores determinantes (33% e 31% respectivamente). 

Apesar desses apontamentos, a pesquisa da Rede Mulher Empreendedora afirma que 29% das empreendedoras das médias e pequenas empresas também são motivadas pelo sucesso e 21%, entre as informais, empreendem para ter mais qualidade de vida.

Para obter uma perspectiva do empreendedorismo feminino no Grande ABC foi realizado um questionário para empreendedoras dos sete municípios (77 empreendedoras responderam). O mesmo foi baseado em pesquisas sobre o tema como GEM 2019, Sebrae e Rede Mulher Empreendedora.

Uma das perguntas para as empreendedoras foi sobre quem seria o principal responsável pela renda da família. E foi observado que: 53,25% declaram que o parceiro(a) ainda é o principal responsável pela renda da casa. Entretanto, 32,5% se declararam responsáveis pela renda familiar.

Pela pesquisa da RMA, 44% das mulheres questionadas são chefes de família. Pela pesquisa do Sebrae (2019), baseada em dados da PNAD (2018) este número demonstra um avanço no decorrer dos anos pesquisados: em 2015, 38% das mulheres empreendedoras (empregadores + conta própria) se declaravam chefe do domicilio em contrapartida de 49% sendo o cônjuge o responsável pela renda; em 2016 este comparativo aparece 42% a mulher e 43% o cônjuge; já a partir do segundo trimestre de 2017 as mulheres já superam o percentual , sendo 44% a mulher e 41% o homem. No primeiro trimestre de 2018 esta realidade permanece, sendo 45% as mulheres e 41% os homens.

Quanto à motivação para empreender, a pesquisa GEM (2019) aponta que 88,4% dos empreendedores em geral (sem estratificação por sexo), iniciaram seus negócios “para ganhar a vida porque os empregos são escassos”. Para a RMA (2017), as mulheres empreendem para: “trabalhar com o que gostam, alcançar sucesso e obter lucro, para ter qualidade de vida e para conciliar as atividades da casa e demandas da família com o trabalho”. Já no estudo apresentado pelo Sebrae (2019), 40,1% das empreendedoras precisavam de uma fonte de renda e 33,6% queria ser independente.

No questionário realizado com as empreendedoras do ABC, encontrou-se as seguintes respostas : 33,8% sonho (sempre quis ter um negócio); 19,50% necessidade (diminuição da renda ou desemprego); 29,9% desejo de independência (não queria mais depender de renda de outras pessoas); 37,7% queriam mudar de carreira ; 24,7% oportunidade; 29,9% completar renda existente; 1,3% não conseguiu conciliar a maternidade; 1,3% dificuldade para voltar ao trabalho após ter filhos; 3,9% outros.

Quanto ao perfil geral dos negócios observou-se que das respondentes do ABC 41,6% se declaram não formalizadas. Outras 39% se declaram MEI e 11,7% Simples Nacional. Apenas 5,2% são pequenas empresas. O relatório do Sebrae (2019) apontou que apenas 30% das empreendedoras são formalizadas, ou seja, o índice do ABC é maior; 81% declararam não possuir sócios e 86,5% não possuem empregados, ou seja trabalham sozinhas. Podemos afirmar que esses dados são semelhantes aos encontrados pelas respondentes do ABC.

Quanto às ferramentas para manutenção e sobrevivência dos negócios, o presidente do Sebrae, Carlos Melles, em entrevista para a Agência Brasil, afirmou que uma boa gestão financeira, maior facilidade na obtenção de crédito e cursos de formação podem garantir maior estabilidade das empresas, especialmente as pequenas.

Assim, verificou-se que quanto à tentativa de empréstimos 88,3% disseram que nunca tentaram e, entre as que tentaram, 83,1% disseram que não conseguiram. Sobre a divulgação do seu negócio foi perguntado qual era o principal meio de divulgação utilizado. Obtivemos as seguintes respostas (as respondentes podiam selecionar mais de uma resposta): Facebook (53,2%); Instagram (74%); sites: (9,1%); WhatsApp (66,2%); boca a boca (76,6%); outros (5,2%).

Quanto ao controle financeiro, 44,2% afirmam utilizar planilha de Excel. Outras 39% utilizam caderno de anotações, 7,8% afirmam utilizar um software específico e 9,1% diz não realizar controle financeiro específico.

Pelos dados apresentados podemos evidenciar que o perfil das empreendedoras no ABC segue os parâmetros demonstrados em pesquisas nacionais, por importantes órgãos de pesquisa. Infelizmente, as dificuldades observadas nesses estudos também se perpetuam na região, considerada de alto poder de investimentos e negócios, e berço de políticas públicas.

Alessandra Santos Rosa é mestra em Administração pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (Uscs) e graduada em Economia. Atuou nas áreas de Desenvolvimento Econômico nos municípios de São Bernardo do Campo, São Paulo e Hortolândia. Atualmente, é assessora da Reitoria da Uscs

Fonte: www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2021/10/empreendedorismo-feminino-uma-perspectiva-do-grande-abc