Diretor de filme sobre legado de Chico Mendes: "Ele ainda é onipresente na floresta"

A vida de ribeirinhos, extrativistas e indígenas que habitam a Reserva Extrativista Chico Mendes e seus arredores, na Amazônia acreana, está retratada no filme Povos da Floresta, que faz sua estreia mundial nesta quarta-feira (16).

O local de onde a ecoou para o mundo é revisitado pelo documentário, mais de 30 anos após o assassinato do líder extrativista, para mostrar de que forma seu legado segue vivo na região.

“Eu tinha a vontade de falar muito do hoje, sobre quem está lá, vive lá, quais são os conflitos que existem lá. E obviamente eu não podia descartar o contexto histórico disso, principalmente naquela região onde viveu Chico Mendes. Procuramos dentro do filme mostrar como o Chico ainda é onipresente lá dentro da floresta”, explica o diretor Rafa Calil, em entrevista ao Brasil de Fato.

Calil trabalha com produção audiovisual desde 2003, faz viagens frequentes à Amazônia desde 2005 e buscou neste projeto aproximar a realidade dos povos da floresta das pessoas que vivem nas cidades.

“A Amazônia, para quem não vai até lá, está num imaginário muito distante. Parece que ela sempre vai estar lá, que ela é imortal, infinita, porque você olha e parece tão vasta. Mas quando você vai para lá percebe um monte de conflitos que só reduzem a floresta.

Povos da Floresta faz parte da programação do Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra Catarinense e está até a meia-noite desta quarta-feira (16). O documentário também fará estreia com exibições presenciais na Ilha São Miguel, no arquipélago dos Açores, em Portugal, e em Lume, capital do Togo.

Confira a entrevista completa com Rafa Calil:

Brasil de Fato: O lançamento do Povos da Floresta remete à importância do cinema ambiental, do jornalismo para mostrar para as pessoas que moram em cidades a realidade da Amazônia. Acreditas que o filme pode aproximar a realidade da floresta dos brasileiros?

Rafa Calil: Eu sempre falo que a floresta é quase uma abstração para quem não vai até lá. Tem um imaginário da floresta que é muito difícil de ser quebrado.

A motivação para fazer o documentário tem a ver com essa vontade de trazer um referencial real da floresta, mostrar que tem gente lá, que a derrubada da floresta acaba com a vida dessas pessoas, mas também influencia na vida de quem está na cidade.

Como surgiu a ideia do filme e como foi a trajetória até realizar o documentário?

Em 2009, conheci por acaso o Nilson Mendes, um dos personagens do Povo da Floresta, quando fui visitar a cidade onde nasceu Chico Mendes. Eu nem pensava em fazer um filme, mas, como documentarista, comecei a perguntar por lá e me disseram que a família dele ainda morava no seringal Cachoeira. Peguei o carro, fui para lá e conheci o Nilson.

Eu fiquei fascinado e passei a voltar todo ano para lá. E ia para bater papo com o Nilson, porque gostava daquela energia. Em 2012 eu falei ‘seu Nilson, posso tentar fazer um filme disso aqui?’. Aí ele falou ‘fazer um filme? Mas vai falar do que?’. E eu respondi ‘de tudo isso, do jeito que vocês estão vivendo aqui, o Chico morreu há mais de 20 anos e vocês estão preservando a mentalidade que ele tinha’. Foi quando eu comecei a estruturar um documentário. 

Chico Mendes conseguiu manter esse ideal, essa chama acesa, e ao mesmo tempo os conflitos são os mesmos que ele lutava.

Então eu escrevi o que eu queria, que era essa vontade de mostrar a Amazônia hoje, porque a Amazônia, para quem não vai até lá, está num imaginário muito distante. Parece que ela sempre vai estar lá, que ela é imortal, infinita, porque você olha e parece tão vasta. Mas quando você vai para lá percebe um monte de conflitos que só reduzem a floresta. 

Então eu tinha essa vontade de falar muito do hoje, sobre quem está lá, vive lá, quais são os conflitos que existem lá. E obviamente eu não podia descartar o contexto histórico disso, principalmente naquela região onde viveu Chico Mendes. Procuramos dentro do filme mostrar como o Chico ainda é onipresente lá dentro da floresta, não só no seringal Cachoeira.

Ele conseguiu manter esse ideal, essa chama acesa, e ao mesmo tempo os conflitos são os mesmos que ele lutava. A Amazônia passa por ciclos de exploração em que só mudam os atores, mas os ciclos de destruição e de exploração estão sempre lá. 

depois do assassinato dele, as coisas não mudaram muito, mudam os nomes, as ordens de grandeza, mas o ciclo está posto. Os extrativistas, os indígenas, eles são resistentes, eles são os guardiões, até por que sem a floresta a vida deles praticamente acaba. Pra gente, isso não está tão claro, mas a nossa também vai caminhar para acabar.

Esses caras, sem querer, ou até por uma questão de sobrevivência, acabam cuidando das condições favoráveis para a nossa espécie se manter viva no planeta. Alguns talvez tenham essa consciência lá, outros não, mas de fato isso acontece. Por outro lado, a gente aqui na cidade vai acabando com as condições necessárias para que a nossa espécie se mantenha viva no planeta. 

Trinta anos depois do assassinato dele, as coisas não mudaram muito, mudam os nomes, as ordens de grandeza, mas o ciclo está posto.

Num objetivo romântico do filme, por assim dizer, eu gostaria que as pessoas entendessem o valor disso, dessa galera que está lá na floresta, e talvez tentassem aplicar na sua realidade ações práticas que ajudem a manter a roda que roda lá girando. E não a roda que roda aqui, porque essa roda vai atropelar a gente.

Como foi o processo de gravação do filme? Quanto tempo vocês ficaram na floresta? como foi a vivência?

Com o orçamento disponível, metade do que a gente considerava ideal, a gente tinha o dilema de seguir um formato mais clássico de estrutura de produção – e ter no máximo 40 diárias na Amazônia –, ou ir por um formato mais enxuto e com mais tempo 

Eu vou pra Amazônia desde 2005, então entendia a questão tempo. Aqui, em três dias você grava x coisas. Lá, esses três dias podem virar dez. Por n motivos. Seja por chuva, por deslocamento, porque às vezes só pra chegar em um tal lugar se precisa de dois dias. 

Para tentar mostrar a vida como ela ocorre atualmente na Amazônia, a gente precisaria filmar os ciclos da seca e o ciclo da chuva. Por exemplo, castanha só tem na época da chuva e a castanha é o motor da lógica extrativista. Açaí, você só tem na seca.

Então, pensando 15 dias em cada ciclo de natureza, seria pouco, pensando em tudo o que queríamos registrar: a , da natureza preservada, da Amazônia idílica, linda; a , que escancara a destruição da floresta e as ameaças que as reservas sofrem; e o eixo dos indígenas, que era um eixo que pro Chico Mendes era muito importante.

Ele articulou a . Ele entendia que o seringueiro, o extrativista, o ribeirinho sozinho, ele seria engolido. E o indígena, por outro lado, sozinho, também seriam engolidos. Mas eles juntos eram mais fortes.

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No eixo extrativista também tem a luta política, que era a luta que o Chico construiu. Então a gente tinha quatro eixos de narrativa para retratar, que, em 30 dias, dentro da Amazônia, claramente era pouco. Então, a gente optou por um formato de produção muito enxuto, com um set de duas a três pessoas.

Com essa lógica reduzida a gente acabou ficando 115 diárias no Acre, espalhadas ao longo de um período de 18 meses. 

Eu estabeleci relações lá que são relações de vida. Tanto nos indígenas e tanto nos extrativistas, eu tenho grandes amigos que hoje transpassam a relação do filme. Eu continuo falando com boa parte da galera que aparece no filme, voltei pras aldeias que eu visitei. 

Se bem a lógica de sobre a floresta já existia e nunca cessou, a ideia do filme surgiu quando essa lógica não era um como se tornou com Bolsonaro e . De lá pra cá esse cenário mudou e a disputa pela preservação da Amazônia acontece também no campo das ideias, dentro e fora da floresta. Qual a tua percepção sobre esse tema?

Eu acho que tem três grandes pilares de visão de mundo na Amazônia. Tem um primeiro que é de um agro mal intencionado, de uma lógica de latifúndio que gera muita concentração de renda nas mãos de pouca gente.

Poucos fazendeiros dominam tudo. São pessoas mal intencionadas mesmo, conhecem a lei, às vezes estão dentro do poder público e invadindo a floresta e derrubando a mata. 

Tem um segundo grupo de pequenos produtores que, viciados pela lógica desses grandes latifundiários – uma lógica mais imediatista –, às vezes estão só sobrevivendo mas estão derrubando a mata e colocando boi. 

O boi é dinheiro rápido. Se ele tem um garrote no pasto, ele vende, na hora que ele precisar, por R$ 800, R$ 1 mil. É quase como uma poupança que ele tem ali pastando, que ele pode resgatar rapidinho. 

A lógica extrativista tem outro tempo. A castanha dá uma vez por ano na época da chuva e ponto. Aí é que está a grande diferença. Esses pequenos produtores entrando nessa lógica da pecuária é algo super preocupante, porque também vão derrubando a floresta. Mas eles ainda têm uma vida que não é fartura, é uma vida de luta também, em que o boi aparece como uma boa opção. 

Se você coloca na ponta do lápis, e com paciência, a Amazônia em pé é muito mais rentável.

Os extrativistas, eu conheci gente lá que preserva boa parte da sua colocação como floresta, entende os ciclos da natureza e que isso dá dinheiro pra eles sim. A longo prazo, é melhor ainda. Mas que também lida com sistema agroflorestal.

Na colocação – que é como eles chamam as áreas que podem ocupar –, eles podem desmatar no máximo 15 hectares. Nesse sistema agroflorestal, tem umas 15 cabeças de gado que dão leite e ainda serve como uma reserva de liquidez.

Então ele tem mais de 100 hectares de floresta preservada, de onde tira algum sustento, mas dentro do que a natureza oferece. No verão, entra e extrai um açaí, uma copaíba, alguma coisa assim. E na época da chuva, pega principalmente a castanha, que é o maior ativo dessa lógica florestal.

Essa lógica acaba prezando pela conservação ao respeitar o tempo da natureza, por não ter um senso de urgência para acumular capital.

Dentro da Amazônia, a lógica extrativista me parece ser a mais sustentável. O pasto, quando se coloca na floresta, em alguns anos a terra não presta para nada. É uma terra que não é boa para isso.

O solo da Amazônia precisa da decomposição da floresta para manter a floresta em pé, aquele monte de folhagens, as árvores que caem e morrem, tudo isso mantém o solo rico. Sem isso, o solo fica pobre para qualquer cultura.

Se você coloca na ponta do lápis, e com paciência, a Amazônia em pé é muito mais rentável. Essa lógica me parece muito mais consciente, preservar algo que, no longo prazo, ainda vai garantir uma renda para a região.

Fora tudo o que não conhecemos da Amazônia ainda, porque os cientistas acham que a gente conhece 30% do bioma amazônico. Então por que destruir se a gente ainda nem entendeu todo o potencial disso? 

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Qual impacto tu esperas a partir da circulação do filme, em especial nesse contexto em que política antiambiental do governo é tão evidente que o MPF chegou a pedir por agir de forma proposital para desmontar mecanismos de fiscalização?  

É lamentável o que estamos passando, no sentido dessa lógica de governo que é um desmonte formalizado. Os caras realmente estão levantando a bandeira de enfraquecer qualquer lógica de preservação da floresta.

Mas isso talvez traga uma relevância ainda maior para o filme. E espero que potencializar o filme signifique também uma possível mudança de pensamento. Tem um cara que fala que os filmes não transformam o mundo, mas transformam as pessoas e as pessoas transformam o mundo.

Então acho que, dentro desse momento crítico que a gente vive, superssensível em relação a Amazônia, o filme seja mais visto, receba mais atenção para que de fato as pessoas reflitam e talvez ajam de forma diferente. Porque enquanto a gente não agir diferente as coisas não mudam. A transformação, no fim das contas, está nas pessoas.

O maior aprendizado que eu tive ao longo de todos os anos de vivências na Amazônia é essa lógica solidária, que é o que garante qualquer lógica sustentável para o futuro.

A gente tentou fazer uma história mais poética. O filme é sim político, tem um discurso conservacionista, mas de uma forma menos jornalística e menos com uma bandeira militante escancarada, que poderia talvez gerar rejeição. Eu tinha essa preocupação na cabeça e tentei criar um filme que é uma história. 

Espero que qualquer pessoa possa assistir, desde um militante, pessoas que se identifiquem com a causa, conheçam e valorizem o Chico Mendes, até pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar de nada disso. 

Eu saí muito transformado desse filme. Teve momentos superemocionantes, algumas vivências. Todas essas passavam por uma lógica mais comunitária, mais solidária. Eles cuidam deles mesmos porque eles olham para o lado. A lógica da cidade te coloca muito no teu próprio umbigo.

Acho que o maior aprendizado que eu tive ao longo de todos os anos de vivências na Amazônia é essa lógica solidária, que é o que garante qualquer lógica sustentável para o futuro. Então eu gostaria que as pessoas olhassem para os outros, para o lado, que dessem um tempo de entender essas coisas sem ficar só no automático da vida.

Edição: Rodrigo Durão Coelho

Fonte: www.brasildefato.com.br/2020/09/16/diretor-de-filme-sobre-legado-de-chico-mendes-ele-ainda-e-onipresente-na-floresta

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