'Bolsonaro vai perder noites de sono com relatório da CPI', afirma Humberto Costa

São Paulo – Os senadores da CPI da Covid-19 ouviram hoje (14) o empresário Marcos Tolentino, apontado como “sócio oculto” do FIB Bank. A empresa, que não tem registro como banco, atuou como fidejussória – ou seja, deu a “garantia” para o negócio – em contratos suspeitos entre a Precisa Medicamentos e o Ministério da Saúde. Apesar das evidências, Tolentino negou ter relações com o FIB Bank e se manteve em silêncio durante a maior parte da oitiva, respaldado por um habeas corpus obtido pela sua defesa junto ao STF. Entretanto, o também advogado contou que conhece o presidente Jair Bolsonaro pessoalmente. Além disso relatou que Karina Kufa, advogada do presidente, já atuou em sua defesa.

O comportamento de Tolentino, que tentou várias manobras para fugir da CPI e chegou a ter sua condução coercitiva autorizada pela Justiça Federal, além de hoje recusar-se a responder à maioria dos questionamentos da comissão, irritou os senadores. “Essa CPI tem que ir até as últimas consequências. Dizem que o presidente perdeu duas noites de sono na semana passada (em razão dos atos antidemocráticos de 7 de setembro e seus desdobramentos). Acho que, quando esse relatório sair, ele vai perder um pouco mais. Isso aqui não vai dar em pizza”, garantiu o senador Humberto Costa (PT-CE). “Talvez seus advogados estejam achando que a situação ficou boa para o senhor aqui. Que pegou um bando de bobos e de otários, negou mil coisas e não vai dar em nada. Vai dar! Esse FIB Bank não pode mais transacionar com o setor público, dando esses avais que não poderiam ter sido dados. Vai dar! Pode ter certeza”, completou.

Documentos e registros do FIB Bank, bem como do próprio Tolentino são repletos de inconsistências. Em seu nome há quatro CPFs cancelados pela Receita Federal e dois, ativos. A apuração foi feita pelo vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Por sua vez, a empresa não possui lastro para dar garantias milionárias em contratos de empresas privadas com o poder público, o que levanta suspeitas de lavagem de dinheiro. “Usa escritório de advocacia, faz garantias financeiras simuladas com imóveis não localizados. O imóvel que o FIB Bank diz ser proprietário tem o mesmo valor do Palácio de Buckingham, 7 bilhões”, relatou o parlamentar Rogério Carvalho (PT-DF), citando a sede oficial da monarquia do Reino Unido, na Inglaterra .

Carvalho lembrou que a “parceria” do FIB Bank com a Precisa Medicamentos, envolvida na denúncia de compra de vacinas superfaturadas da Covaxin para o governo federal, não é o único. Em outros contratos garantidos pela empresa, o Ministério da Saúde adquiriu testes de covid-19 e de preservativos, tendo a Precisa como intermediária, encarecendo os preços, pagos pelo contribuinte. “Cria uma instituição fidejussória para enganar, cometer delito, maracutaia. O governo Bolsonaro se utilizou de um esquema para superfaturar vacinas. Enquanto brasileiros estavam morrendo, (o presidente) aceitou as garantias do ‘Lorota Bank’”, completou Costa.

Tolentino também confirmou amizade com o deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, suspeito de favorecer a Precisa Medicamentos em contratos com o Ministério da Saúde. Diante do cerco cada vez mais se fechando em torno do Planalto, o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), ironizou Bolsonaro. “Só espero que o presidente não chame o Temer para fazer uma nota para pedir desculpas por causa do Ricardo Barros”, disse, em referência ao recuo do discurso golpista e contra o STF que marcou as manifestações de apoio ao presidente no 7 de Setembro.

O senador Rogério Carvalho, diante do esquema revelado, apresentou requerimento, aprovado pela CPI, para suspender, junto à Procuradoria-Geral da República (PGR), todos as negociações envolvendo o FIB Bank com a União. Também caberá ao Tribunal de Contas da União (TCU) realizar uma investigação sobre estes contratos. “Esses órgãos podem agir de ofício. Esse sistema está operando neste momento. O silêncio não impede isso. Tem um esquema claro de venda de garantias falsas, de recebimento de propinas, com uso de laranjas”, disse o senador Jean-Paul Prates (PT-RN).

Fonte: www.redebrasilatual.com.br/politica/2021/09/bolsonaro-vai-perder-noites-de-sono-com-relatorio-da-cpi-da-covid-afirma-humberto-costa