Artigo | Nada a Celebrar

Cem mil perdas humanas.

Cem mil famílias enlutadas.

Mesmo com a pandemia, com outra estratégia de enfrentamento da crise sanitária, talvez mais de 70% destas mortes seriam evitáveis. Três milhões de pessoas infectadas, de acordo com estatísticas oficiais. Provavelmente, muitas mais.

Não números, vidas, gente, pessoas, emoções, histórias, relações. 8 de agosto. Um dia de luto, de revolta e de luta. Luto e dor por tantas mortes.

Revolta e indignação, porque a principal causa destas mortes não é a pandemia, mas a forma como um governo federal genocida agiu em relação a ela.

Indignação com a desinformação e a mentira que confunde e divide. Indignação é o primeiro passo da mudança. É o início da vontade de transformação.

Somos chamados à luta. E para a luta ter resultados, necessários organizar-se, reconstruir-se como movimentos sociais e políticos, como classes oprimidas, debater alternativas, contraditar o fascismo e sua visão de mundo, compreender e dialogar, às vezes convencer, com dimensão ética e com projeto de futuro.

É preciso reagir e, com coragem, desafiar a banalidade do mal e a banalidade da morte. E fazer futuro com dignidade, direitos e respeito. Entre tantas mortes diante das quais perguntamos – qual o sentido? – uma, porém, que nos enche de esperança e sentido.

A Páscoa de Pedro Casaldáliga, que lutou pela vida de tantos, pela vida digna dos pobres, dos índios, dos machucados pelo latifúndio e pelo capitalismo, nos deixa o exemplo de lutar pela vida até o último fio.

E, finalmente, passar à outra forma de viver, com o tempo realmente vencido, sem antecipação por desgraça evitável.  Pedro, de onde estiveres, console nosso luto, alimente nossa indignação e alimente nossa luta com este raio de sentido e amor que tua vida nos inspira.

Sérgio Antônio Görgen é Frei Franciscano, militante do MPA, autor de “Em Prece com os Evangelhos”.  

Edição: Michele Carvalho

Fonte: www.brasildefato.com.br/2020/08/09/artigo-nada-a-celebrar

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