Aroeira: "Os oprimidos têm superioridade moral em relação a esses canalhas fascistas"

Na última semana, uma avalanche de solidariedade se multiplicou entre os chargistas, após o ataque sofrido por Renato Aroeira. Diante da declaração de Jair Bolsonaro para que seus apoiadores invadissem os hospitais, o chargista criticou a atitude, por meio de uma ilustração que associava o presidente a uma suástica nazista.

A obra foi alvo de retaliações de Bolsonaro, que acionou diversos órgãos federais para intimidar o artista. No último dia 15, a Polícia Federal abriu um inquérito contra Aroeira, com o objetivo de enquadrá-lo na Lei de Segurança Nacional.

:: “Com tantos absurdos, fazer charge ficou mais fácil e arriscado”, diz cartunista ::

Depois disso, 150 chargistas publicaram versões da charge, em solidariedade. Nesta entrevista, Aroeira comenta o episódio e defende o papel crítico da arte. "Os oprimidos têm superioridade moral em relação a esses cabras, esses canalhas fascistas", afirmou Aroeira em entrevista ao Brasil de Fato. O chargista considera que a cultura é a inimiga de primeira hora do fascismo e ressalta que o governo Bolsonaro, " que é um governo de características fascistas, a única coisa que eles detestam é ser chamados pelo que são".

Pra mudar o mundo, e isso significa mudar o contexto social político e econômico – porque o capitalismo não deu certo, claramente, obviamente não deu certo – a arte é uma das coisas fundamentais

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Nesta semana, a peça de humor de Aroeira foi reproduzida em dezenas de veículos do Brasil e do exterior, além de releituras feitas por outros cartunistas / Vitor Teixeira

Confira a entrevista completa

Brasil de Fato – Recentemente você foi vítima da perseguição do governo após publicar uma charge criticando a atuação do Bolsonaro diante da pandemia. Como você avalia essa atitude? Pra você isso era algo inesperado?  O que esse episódio reflete da sua produção e também do perfil do governo?

Foi um equívoco, um erro, um tiro no pé. Perseguir um cartoon, uma charge, sempre é contraproducente, não dá certo. O que é inesperado é que o governo acionou a sua máquina para fazer a perseguição. Porque geralmente os processos se dão pelo indivíduo. 

Mas Bolsonaro acionou Secretaria de Comunicação, o Ministério da Justiça, a Procuradoria Geral e a Polícia Federal para me enquadrar na Lei de Segurança Nacional. Uma reação completamente desproporcional. Eu sou um chargista crítico, mas, como eu, milhares são críticos e fazem charge com o mesmo tipo de violência e agressividade ao governo, porque essa é a função do chargista.

Esse governo, que é um governo de características fascistas, a única coisa que eles detestam é ser chamados pelo que são. Eu sou um chargista que tem um alcance médio da sua produção e essa perseguição do governo acabou levando a minha produção para lugares que eu nunca imaginei que fosse chegar.

A gente está certo e nós somos maioria. Então a importância é compreender, saber usar a articulação que já temos.

Após o ataque a sua obra, uma grande rede de apoio de outros chargistas se formou em todo o Brasil. Como você vê esse apoio e a importância de os artistas estarem articulados?

A rede de apoio aconteceu inicialmente e imediatamente em grupos de Whatsapp [de chargistas e de escritores]. Hoje em dia a gente já está compreendendo melhor as redes, e por isso as articulações são muito facilitadas. E aí a iniciativa nasceu da cabeça do Duke. Eu fiz a charge chamada “Crime continuado” e ele propôs nesses grupos a ideia da charge continuada, todo mundo topou na mesma hora! E aí foi uma solidariedade monumental.

Já no grupo de escritores imediatamente o pessoal propôs um abaixo-assinado que atingiu imediatamente 50, 70, sei lá mil assinaturas, foi uma repercussão muito grande. Isso mostra a importância de a gente aprender a usar as articulações que já temos.

O Steve Bannon [marqueteiro de Trump] usou isso contra nós em vários lugares do mundo e agora é hora da gente dar o troco. Conseguir utilizar essas redes. Não com fake news, mas com verdade, criatividade, humor, superioridade ética e moral porque os oprimidos têm superioridade moral em relação a esses cabras, esses canalhas fascistas. A gente está certo e nós somos maioria. Então a importância é compreender, saber usar a articulação que já temos.

Quem faz a revolução é gente, gente sabendo o que está acontecendo, gente organizada, com liderança, com confiança no que está fazendo

Desde o golpe de 2016 o setor cultural vem sofrendo um forte ataque no país, culminando em situações catastróficas como a extinção do Ministério e a nomeação da Regina Duarte como secretária. Qual sua avaliação dessa escalada de desmonte e ataques ao setor?

A cultura não é um inimigo de última hora dos fascistas. Ela é uma inimiga de primeira hora. E também uma das primeiras a sofrer ataques. A gente pode observar na história, governos autoritários vão logo tentando controlar a cultura, especialmente o fascismo, que quer não somente controlar, proibir, impedir e censurar, mas também criar os modelos do que seriam as culturas aceitáveis. E isso foi uma tentativa. Logo antes da Regina Duarte, o secretário que estava na pasta [Roberto Alvim] era assumidamente um fascista.

O fascismo é incompatível com a liberdade de expressão, que é a única exigência real da arte

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Centenas de chargistas reproduziram a arte de Aroeira em repúdio à perseguição de Bolsonaro / André Fidusi

A arte ilustra, explica, entende, fotografa, pinta, conta e faz a trilha sonora das revoluções

Você acredita que esses ataques à classe artística tendem a aumentar no próximo período?

Sim. Eles tendem a aumentar enquanto esse governo ou esse pensamento estiver por aí. Porque o fascismo é incompatível com a liberdade de expressão, que é a única exigência real da arte.

Então, a classe artística, o que ela precisa mesmo, além de poder viver, é de liberdade de expressão. A arte é feita disso. Então eu acredito que sim, enquanto essas pessoas tiverem com algum poder, elas vão aumentar os seus ataques, de todos os tipos, qualquer coisa que possam fazer. Eles odeiam a arte e a cultura porque elas são fundamentais para combatê-los. 

Qual papel da arte diante de um contexto social, político e econômico como o do Brasil?

A arte não está aqui para fazer as revoluções. A arte ilustra, explica, entende, fotografa, pinta, conta e faz a trilha sonora das revoluções, porque a arte de uma forma ou de outra reflete o seu tempo. Mesmo quando o artista quer parar o tempo, ou quando escolhe não ser a favor da humanidade, mesmo assim ele está refletindo o horror daquele tempo. Mas o artista, quase sempre, mesmo quando não quer, acaba na sua obra estando do lado certo.

A arte conta o que está acontecendo. Conta via uma peça de teatro, via uma charge, via quadros, via música. Poxa, as músicas! Ouça As Caravanas, do Chico Buarque, e pimba! Tá tudo explicado.

Pra mudar o mundo, e isso significa mudar o contexto social político e econômico – porque o capitalismo não deu certo, claramente, obviamente não deu certo – a arte é uma das coisas fundamentais. Não é ela quem faz a revolução, quem faz a revolução é gente, gente sabendo o que está acontecendo, gente organizada, com liderança, com confiança no que está fazendo. Gente que entenda o que está acontecendo, é isso.

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Joana Tavares e Leandro Melito

Fonte: www.brasildefato.com.br/2020/06/25/aroeira-os-oprimidos-tem-superioridade-moral-em-relacao-a-esses-canalhas-fascistas

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