‘A mentira, a manipulação, a compra de votos tiveram mais alcance do que a gente esperava’, diz Janine Ribeiro

São Paulo – A constatação de que o bolsonarismo é maior do que se calculava é o aspecto que mais chama a atenção após as votações do primeiro turno das eleições gerais no Brasil, no domingo (2). A avaliação é do ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, em entrevista à RBA. “A gente imaginava que, com o desastre que foi esse governo, ele teria uma votação na faixa que as pesquisas mostravam”, diz o filósofo, professor da USP e atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve 57.259.504 votos (48,43% dos votos válidos), contra 51.072.345 (43,20%) de Jair Bolsonaro.

Ele destaca também o fato extremamente negativo de que a disseminação de informações falsas e um comportamento ético antes inaceitável parecem ter se normalizado na sociedade brasileira. “A mentira, a manipulação, a compra de votos, tudo o que é eticamente errado e foi usado pelo bolsonarismo teve mais alcance do que a gente imaginava que teria.”

Apesar das dificuldades serem maiores do que o previsto, Janine Ribeiro afirma acreditar na vitória de Lula neste processo processo eleitoral. “Afinal, Lula teve 6 milhões de votos a mais. Então, a primeira coisa é consolidar esses votos; a segunda, pegar as plataformas dos outros candidatos e trazê-las para o PT, sobretudo a do Ciro, que é o mais próximo em termos de esquerda”, defende. “E, depois de ganhar as eleições, fazer um governo includente.”

Porém, como o próprio Lula já disse mais de uma vez em seus comícios, Janine Ribeiro alerta que as pessoas precisam entender que não será fácil governar o Brasil a partir de 2023. “O atual governo destruiu o país. Vai ser muito difícil governar nessa situação. Vai ser muito trabalhoso”, afirma. “São anos de destruição da economia, da sociedade, dos valores éticos. Você não consegue fazer as coisas do dia para a noite.”

Confira a entrevista de Renato Janine Ribeiro:

A votação de Bolsonaro foi muito maior do que se esperava. O que chama sua atenção nesse início de campanha para o segundo turno?

O que me chama mais atenção é que o bolsonarismo é maior do que a gente imaginava. A gente imaginava que, com o desastre que foi esse governo, ele teria uma votação na faixa que as pesquisas mostravam. Os resultados das urnas foram assustadores, embora uma parte disso se deva ao fato de que se começou apurando pelas regiões mais conservadoras.

Se tivesse começado pela Bahia e pelo Nordeste, em vez de começar com 47% a 39% para Bolsonaro, começaria 55% para Lula e depois iria caindo. Então, as pessoas ficaram muito chocadas com esse início. No segundo turno, não é uma situação de desespero, mas é uma situação complicada, sim. Porque a mentira, a manipulação, a compra de votos, tudo o que é eticamente errado e foi usado pelo bolsonarismo teve mais alcance do que a gente imaginava que teria.

A Constituição diz que o Estado é laico, mas a invasão da discussão religiosa dentro da eleição mostra que o Estado parece cada vez menos laico, não?

É, mas a questão religiosa é apenas um aspecto disso tudo, porque outro aspecto esquisito é que não existe um “anticorpo” poderoso contra a mentira, a manipulação e tudo isso. Usa-se a religião como se usa a questão econômica. O que é espantoso é que isso tudo passa impune.

A sociedade brasileira não se preparou para resistir a esse fluxo de mentiras. Isso é que é incômodo. Não sei se é por falha da escola, mas há pessoas que não conseguem lidar com a realidade. Isso é preocupante.

Essas pessoas que não conseguem lidar com a realidade estão mais em uma classe social específica ou isso é generalizado?

Olha, é generalizado. A gente teria que fazer uma pesquisa, e não se sabe se a pesquisa refletiria a verdade. Estamos chocados com o fato de as pesquisas de opinião pública terem dado um desenho errado do país. Não sabemos se foi um fluxo de voto útil em Bolsonaro de última hora, se os bolsonaristas “boicotaram” as enquetes de opinião. A gente não sabe o que foi e talvez nunca venha a saber.

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Mas o fato é que existe um número muito grande de pessoas nas cidades brasileiras que aceitam a mentira como sendo normal, acreditam na mentira. Isso é muito preocupante. Agora, isso tem também na esquerda. A esquerda também tem pessoas dispostas a acreditar em fatos falsos desde que correspondam às suas intenções políticas. Não deveríamos ter isso, mas temos.

A estratégia do  PT no segundo turno no momento é negociar com as cúpulas partidárias, enquanto Bolsonaro negocia com os governadores. Qual a estratégia mais interessante?

O que estou vendo é outra diferença. Toda vez que a gente tem uma disputa eleitoral forte, uma parte da esquerda defende que tem que se aproximar do centro, até da direita não fascista, abrir o leque de apoios. Outra parte diz que tem de radicalizar na esquerda, apresentar projetos emancipadores, porque a esquerda não pode deixar de ser esquerda. Tem um pessoal, por exemplo, que achou ótimo trazer Alckmin para a chapa de Lula, e tem gente que odiou.

Minha hipótese é que as pessoas têm sempre a mesma posição. Quem defende uma posição mais radical de esquerda, sempre vai defender, em qualquer circunstância. E quem defende ampliar para o centro vai defender isso em qualquer circunstância. E não é correto.

Tem que ser de acordo com a situação. Na situação atual do Brasil, em que a direita cresceu muito – não só a direita, mas a própria extrema direita –, acho que (nas frentes de esquerda) tem de ter gente da direita também. Teria que ser uma discussão mais abrangente. Isso significa, por exemplo, em hipótese alguma atacar Ciro ou atacar Tebet. Em hipótese alguma atacar quem votou neles. Se a gente quer o voto dessas pessoas não pode falar mal delas. É a minha opinião, pelo menos.

Eu acredito que seja possível ganhar essa eleição. Afinal, Lula teve 6 milhões de votos a mais. Então, a primeira coisa é consolidar esses votos e a segunda, pegar as plataformas dos outros candidatos e trazê-las para o PT. Sobretudo a do Ciro, que é o mais próximo em termos de esquerda. Apesar de tudo que ele atacou, ele é o mais próximo em termos de projetos, propostas. E, depois de ganhar as eleições, fazer um governo includente.

As eleições estão mais difíceis do que se supunha. Na sua opinião, vai ser mais difícil governar do que se eleger?

Vai ser, porque o atual governo destruiu o país. Vai ser muito difícil governar nessa situação. Vai ser muito trabalhoso.

Fora o Congresso Nacional que saiu da eleição…

Sim, sim. E sem contar que uma parte das pessoas que estão votando no Lula acreditam que no dia 1° de janeiro vai estar tudo uma maravilha, e não vai estar. São anos de destruição da economia, da sociedade, dos valores éticos. Você não consegue fazer as coisas do dia para a noite. As pessoas não podem ter a ilusão de que vai ser tudo maravilhoso.

Eu fui ministro em uma fase muito difícil. E o que aconteceu no início de 2015? Dilma tinha sido eleita prometendo uma série de coisas que não pôde fazer. Eu lembro de receber no MEC pessoas que a única coisa que diziam era que queriam dinheiro e achavam que tinha dinheiro sobrando no governo, e não tinha. É muito complicado.

Como a gente vai fazer? O orçamento no ano que vem está totalmente quebrado. Como vai aumentar salários, recompor laboratórios, bibliotecas, vencer a fome, sem dinheiro? Não é para a gente esmorecer, mas para entender que vai ser trabalhoso.

E a gente vê alguns nomes eleitos para o Senado, como Damares, Mourão, Sergio Moro… Dá até desânimo, não?

Terrível.


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