Seychelles: o modo de usar das ilhas Mahé, Praslin e La Digue

Era uma vez um príncipe e uma princesa que se casaram sob os olhares do mundo e viajaram para uma terra distante, onde passaram dez dias em uma praia deserta, mimados por nativos que trabalhavam de chinelo e bermuda. O refúgio idílico deveria ser um segredo monárquico, mas voyeurs de todo o planeta logo descobriram: William e Kate Middleton, da família real britânica, passaram a lua de mel em Seychelles. Desde esse conto de fadas tropical, em 2011, a ilha-resort no Oceano Índico virou destino-fetiche global.

Ex-colônia da França e da Inglaterra, Seychelles, na verdade, é formada por um conjunto de 115 ilhonas e ilhotas espalhadas numa imensidão de mar entre a África e a Índia. O casal real  britânico escolheu a North Island, onde as diárias dos hotéis podem ser exorbitantes. Felizmente, o país também possui caminhos para quem não tem sangue azul. Especialmente a Ilha de Mahé, a principal, onde está a capital Victoria e 90% dos pouco menos de 100 mil habitantes do país. Ou por outras duas ilhas, Praslin e La Digue.

A trinca forma o “combo básico” do turista em uma viagem de dez dias – o ideal é ficar três em cada uma. Elas colecionam praias perfeitinhas para virar imagens de fundo de tela, cercadas de rochas de granito enormes e um mar de águas mornas (dá-lhe 27ºC) que faz a alegria de qualquer plebeu. E exibem um verde tão denso que é impossível esquecer de que estamos mesmo no meio do nada, a milhas e milhas da terra continental mais próxima.

De todas as 115 ilhas, muitas são visitáveis em passeios de barco, mas poucas possuem acomodações. É o que garante o efeito mágico de ilha deserta, com rusticidade e pé na areia misturados a luxo – o que é notável nas três ilhas principais. E, apesar de ser inegável que o arquipélago honre os atributos de uma lua de mel clichê, ele vai muito além de uma metáfora para dois, ao ponto de encontrarmos mais famílias em busca de sombra e água morna do que pombinhos.

Terra a vista!

O primeiro registro das Ilhas Seychelles foi feito por Vasco da Gama, que por lá passou em 1502. Deixadas de lado pelos patrícios, as ilhotas se transformaram em refúgio de piratas até a França controlar a região, em 1756. Foram eles que batizaram o arquipélago: Séchelles. Um século depois, foi a vez do: ingleses, que, fincando sua bandeira no local, anglicizaram a grafia para… Seychelles. A independência do país só ocorreu em 1976.

Nove entre dez turistas desembarcam no Aeroporto Internacional de Mahé. Quem não quiser ficar pulando de hotel de ilha em ilha pode até elegê-la como base, mas será refém de bate e voltas – ficar só em Mahé é como ir a Roma e não ver o papa. Mas a maior e mais urbana das ilhas do país compensa uma estadia prolongada: abriga 16 praias (a maioria de mar azul-piscina), ótimos pontos para snorkelling (inclusive com tubarões-baleia) e o Parque Nacional Morne Seychellois, que reúne trilhas lindas e o pico mais alto do arquipélago, com 905 metros de altura.

Mahé é a casa da pequena capital do país, Victoria, talvez o único lugar com alguma vida noturna. O centrinho histórico, com ruas arborizadas e edifícios coloniais, convida para um city tour de meia hora – tempo suficiente para ver a Clock Tower, réplica de 1903 de uma torre-relógio de Londres; o colorido templo hindu; e o movimentado Mercado Central, com seus estandes de peixes frescos e temperos. A dez minutos dali está o Jardim Botânico, uma amostra da natureza esplendorosa que dá uma ideia do que o viajante encontrará à frente.

Outra boa dica da ilha-mãe é aproveitar seus hotelzões: por causa das íngremes encostas que contornam as praias, a maioria foi erguida no alto dos morros, garantindo vistas arrebatadoras. É o caso do ultraluxuoso Anantara Maia Seychelles Villas, onde só ficam os vips dos vips na ilha; e do Four Seasons, que revela piscinas com borda infinita em todos os aposentos e serve um café da manhã dos deuses. 

Quem não puder bancar um hotelzão deve seguir feliz para a praia mais famosa da ilha, Beau Vallon, a nordeste, onde estão alguns restaurantes charmosos, como o La Plage, de um chef belga que mistura ingredientes locais com receitas clássicas de outras regiões do mundo. E pronto. Se já tiver conhecido a pequena Victoria e o parque nacional, só saia dali se for para ir… a outra ilha, claro.

Mix Africano

Apesar de a cultura africana estar em todo lugar nos eventos ao som de tambores e na recepção calorosa, a atmosfera é mais miscegenada que a maior parte da África. Há muitos imigrantes indianos e europeus que, encantados, resolveram não voltar das férias. Por conta da dupla colonização, fala-se inglês, francês e local creolo, distribuídos em uma população católica – embora se trombe nas ruas com hindus e muçulmanas de burca. A mistureba se reflete na culinária, mais apimentada pelo excesso de curry da Índia do que pelas especiarias africanas, que condimentam peixes e polvos com gengibre e leite de coco.

 

A nordeste, distante 45 quilômetros de Mahé, a segunda ilha mais visitada de Seychelles está no meio do caminho entre o leve agito da ilha-mãe e o clima slow motion de La Digue. Praslin deixa a desejar no quesito resorts de luxo, mas ainda guarda uma estrutura turística bastante razoável, com boas pousadas, lojinhas (a maioria de imigrantes indianos) e restaurantes creoles. E é aqui que o turista tem contatos imediatos com o que a natureza esculpiu de mais exclusivo no país. Como o inusitado (e afrodisíaco) coco-de-mer, o maior coco do mundo, que é endêmico da ilha.

Além dele, Praslin é a casa dos quase extintos papagaios-pretos, dos morcegos frutíferos (minibatmans que começam a voar loucamente às 17h) e das tartarugas gigantes – uma instituição de Seychelles -, que vivem até 250 anos e pesam centenas de quilos (essas também estão em outras ilhas do país). Elas são demais: ao serem acariciadas no pescoço, erguem todas as partes possíveis do corpo para fora do casco.

Praslin é especialmente famosa por abrigar um parque nacional reverenciado como se fosse uma visão do Jardim do Éden. Trata-se do Vallée de Mai, uma floresta lisérgica com mais de 50 espécies de palmeira, onde estão boas amostras do coco-de-mer. Mas a ilha também tem sua praia obrigatória: a estonteante Anse Lazio. A praia foi notícia em 2011, quando dois surfistas sofreram ataques de tubarões. Antes disso, o único registro havia sido em 1963. O episódio é raro o suficiente para não comprometer o sossego geral. A paisagem tem cara de cartão-postal em qualquer canto da baía, que possui laterais tomadas de árvores takamakas, espécie nativa que produz folhas rígidas de um verde muito vivo. E o melhor: parece estar sempre vazia, com muitos metros quadrados de areia branca e fofa para se estender a canga. Entre os poucos seres humanos, francesas de topless e famílias alemãs com câmeras de lentes de zoom infinito. 

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Mergulhem!

Os mares de Seychelles, que estão entre os dez melhores pontos de mergulho do mundo, são repletos de recifes e abrigam mais de 800 espécies de peixes. O mergulho é facilitado pelas águas quentes – sofre-se bem menos para cair nelas à noite. Abril, maio, outubro e novembro são os melhores meses para fazer cursos e passeios subaquáticos. Essas são as épocas do “30-30” quando a temperatura da água pode chegar a 30°C, e a visibilidade 30 metros.

Se ainda restar algum resíduo urbano, o mar vai levar embora quando você chegar a La Digue. A oeste de Praslin, bem pertinho, a ilha oferece um lugar ao sol para mochileiros e turistas mais desencanados. O clima bom, sem comércio barulhento e trânsito de carros, faz com que todos os dias pareçam feriado; e a quantidade de bicicletas de cesto de vime e de casinhas fofas com cobogós, janelas com grades e cadeiras de balanço na porta, nos faz voltar direto aos anos 1950. Não há bangalôs na areia ou qualquer estrutura mais profissional de ecoturismo. Aqui você é o explorador – você e a sua bike.

La Digue abriga a garota-propaganda de Seychelles, a Praia Anse Source d’Argent, que figura em 90% das fotos e dos anúncios publicitários do país. O cenário, com blocos enormes de pedra de granito e um mar degradê ora azul, ora verde-claro, é surreal, assim como as deliciosas faixas de areia das vizinhas Grand Anse e Anse Marron, que disputam, entre elas, o título de segunda praia mais bonita da ilha.

La Digue tem poucos hotéis, e o mais refinado é o La Domaine L’Orangerie, que possui um spa com hammam turco e uma bela piscina, enquanto seu restaurante Combava é uma opção para um jantar à luz de velas com vinho.

O Cemitério de Bel Air também vale a visita: são túmulos dos primeiros tempos da colonização, como o de Jean François Hodoul, um pirata francês que perseguia barcos britânicos no fim do século 18, e de um tal “gigante de Seychelles”, que, segundo a lenda, media três metros de altura. A receita para compreender melhor o espírito local é pegar a bike e sair contornando a ilha (reserve um dia inteiro para isso), encantando-se com o azul do mar que brota das frestas das árvores, com as pequenas praias que vão aparecendo pouco a pouco, com uma ou outra barraca de frutas pelo caminho. A ilha também é o melhor lugar do país para conversar com os locais, que parecem não se incomodar com a recente invasão turística. A noite é devagar, e é provável que o maior movimento seja o do restaurante do seu hotel (se houver um…). Mas tudo bem: você irá dormir sob um céu tingido por incontáveis estrelas. La Digue, um microcosmos de toda Seychelles, é assim mesmo: feita para aproveitar os dias. E que dias. 

Os hotéis mais luxuosos ficam em Mahé, entre eles o Anantara Maia Seychelles Villa e o Four Seasons, que tem piscina com borda infinita nos quartos. Opções mais custo/benefício estão na Praia Beau Vallon, como o Ocean View Villa e o Diver’s Lodge. Em Praslin, a maioria das hospedagens fica na praia de Grand Anse, onde está o hotel-butique Dhevatara Beach. Na praia de Anse Volbert fica o pé-na-areia Paradise Sun. Mais em conta, na praia de Anse Possession, está o Sea View Lodge. Em La Digue, os melhores hotéis são o La Domaine L’Orangeraie e o Pension Hibiscus. Busque outras opções de hospedagem em Seychelles.

Em Beau Vallon está o restaurante de comida fusion La Plage, do chef belga Christelle Verheyden. Em La Digue, o Le Repaire serve porções generosas de pratos clássicos da Itália. 

Em Victoria, vale dar uma volta no centrinho para ver a Clock Tower, o Mercado Central e o colorido templo hindu Arul Mihu Navasakthi Vinyagar. Perto está o Jardim Botânico e suas tartarugas gigantes. Em Praslin, imperdível é o Vallée de Mei, reserva com várias espécies de palmeira. A equipe do White Tip Dive Centre, que fica no hotel Paradise Sun, organiza viagens e dá cursos para iniciantes. Agências locais, como a Creole Travel, oferecem passeios guiados e ajudam na compra de passagens para circular entre as ilhas.

Não existem voos diretos do Brasil para Seychelles. Por isso, a melhor alternativa é realizar uma conexão em capitais como Dubai, pela companhia aérea Emirates, ou Doha, pela Qatar.

Por ser perto do Equador, o clima é quente e úmido o ano inteiro, com temperaturas entre 24°C e 32°C. Os melhores meses são março e setembro.

A moeda é a Rúpia de Seychelles.

São três idiomas oficiais: creole (dialeto baseado na língua francesa), inglês e francês.

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Fonte: viagemeturismo.abril.com.br/mundo/seychelles-o-modo-de-usar-das-ilhas-mahe-praslin-e-la-digue