Basilicata: o hotel de Francis Ford Coppola e a cidade de Matera

Francis Ford Coppola não é um cineasta afeito a minimalismos, vide as superproduções que ele dirigiu, como a trilogia O Poderoso Chefão, Apocalipse Now e Drácula. Por isso foi tão intrigante chegar para me hospedar no hotel do diretor na pequena Bernalda, cidadezinha da região da Basilicata, a oeste da Puglia, e não haver uma placa, um sinal, uma pista de onde ficava o Palazzo Margherita. Depois de ir e voltar umas três vezes pelo Corso Umberto I, avistei uma portinha. Estacionei na praça em frente e entrei. Era um bar, o Cinecittà, coberto de fotos de atores italianos. Ao mesmo tempo não vi nenhum indício de que por ali houvesse um hotel de luxo. Fui recebido por Rossella De Filippo, a gerente do Palazzo, mulher de ultraelegância e simpatia. “Vem, a entrada do Palazzo é aqui ao lado”, e me encaminhou para a calçada. Ao lado? Rossella abriu uma porta insuspeita à esquerda do bar, e eu quase caí pra trás: um enorme lustre pendia do teto e, num pátio interno, guarda-sóis com mesinhas nas laterais abriam alas para um imenso jardim. E, como se um diretor gritasse “Ação!”, borboletas amarelas surgiram em revoada, juro por Deus. Não sei que expressão eu tinha naquele momento, mas Rossella captou. “É este o efeito que mister Francis quer causar em quem vem pela primeira vez, uma entrada no paraíso; por isso ele quis manter a fachada discreta.”

Mister Francis é como Rossella se refere ao chefe, com quem ela conversa semanalmente por e-mail para tratar de assuntos do Palazzo. Bernalda não consta em guias de viagem, mas é um lugar para viver a Itália como ela é. O postal ali são os próprios italianos, que nas noites de sexta e sábado lotam o Corso Umberto, riem, bebem, vivem. Os Coppola e Bernalda estão umbilicalmente ligados. O avô do cineasta, Agostino, nasceu na cidade e foi “fazer a América” em 1904. A primeira vez que o ainda anônimo Francis pisou lá foi em 1962, aos 22 anos, e sempre voltou. Em 1994, o já oscarizado diretor foi convidado para assistir a uma procissão da sacada de um palazzo de 1892 e se encantou. Era o Margherita. Foram anos para convencer o antigo dono a vendê-lo, mais outros cinco para uma grande restauração. O cineasta não é um hotelier novato. Com hotéis em Buenos Aires, Guatemala e Belize, ele chamou os filhos para darem seu toque pessoal ao projeto, capitaneado pelo decorador Jacques Grange, o mesmo que fez a casa de Yves Saint Laurent, no Marrocos.

Assim que deixei minhas coisas no quarto, na verdade o de Roman, filho que também é cineasta e que escreveu o roteiro de Moonrise Kingdom com Wes Wenderson, Rosária, a recepcionista, me convidou para um tour. Ao sairmos do quarto, ela deixou a porta aberta. Fecho?, pergunto. “Se quiser”, ela me respondeu. Ali caiu a ficha de que eu não estava em um hotel comum, mas na casa dos Coppola. Tanto que na sequência Rosária me entregou um molho que continha as chaves do quarto, da porta da frente e do quintal. Ao lado do meu quarto estava o de mister Francis, de inspiração tunisiana. Piso turquesa de mosaicos, uma escrivaninha virada para um janelão, lareira, afrescos e azulejos de motivos mouriscos no banheiro. De cair o queixo.

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Na outra ala, o quarto de Sofia Coppola é o oposto: paredes e sofás em tons suaves transparecem a mesma delicadeza e feminilidade de seus filmes. O toque fica por conta da pintura nas paredes, que mimetiza um gazebo. O quarto de Roman tem estilo art déco, mais clean. São nove suítes ao todo, sendo três no térreo, menores e com alguns upgrades, como um maravilhoso jardim com um túnel de plantas em frente (onde Sofia se casou), piscina a poucos metros e diárias a partir de € 1.280, um terço do preço das suítes da família. A despeito de todo o requinte, que talvez combinasse com mordomos de luvas brancas, o clima é informal, ou, como quer o dono da casa, é luxo sem afetação. E, de fato, a formalidade combinaria mais com Taormina do que com a Basilicata.

Quando mister Francis vem de férias o Palazzo fecha para hóspedes?, perguntei a Rossella. “Não muda nada. Mister Francis e a família são pessoas muito simples”, disse. Outro lugar que impressiona é a sala de estar que também é uma sala de cinema. Um clique na parede e um telão desce, outro clique e o lustre de murano sobe. Tanto ali quanto nos quartos, todos com TVs Loewe 3D, você pode assistir via AppleTV a uma seleção de centenas de filmes italianos, mas curiosamente nenhum dos Coppola. Levei a questão para Rossella. “Eu tinha essa mesma dúvida, e a explicação de mister Francis foi que o Palazzo não era um lugar para o ego dele.” Mister Francis sambou muito nessa hora. E a fiel escudeira emendou: “Mas os hóspedes querem ver O Poderoso Chefão e Apocalypse Now na sala de projeção; então, mesmo sem ele saber eu mandei comprar os DVDs e os guardo num cantinho do armário.”

O Palazzo Margherita fica a 113 quilômetros de Bari, que é onde fica o aeroporto mais próximo e que recebe voos de diversas partes da Europa. Reserve aqui sua hospedagem no Palazzo Margherita

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De Bernalda, uma esticada de 39 quilômetros leva a uma das cidades mais fascinantes do sul da Itália, Matera. O lugar é habitado desde o Paleolítico por nômades que construíram seus abrigos em desfiladeiros de rocha calcária, material parecido com o do solo da Capadócia. Por volta do ano 1000, surgiram as casas que se mantêm intactas e que ficaram conhecidas como Città dei Sassi, ou Cidade das Rochas. As moradias estão distribuídas em duas áreas distintas, o Sasso Caveoso e o Sasso Barisano. O indicável é visitar o lugar no fim de tarde, sempre. E não apenas por causa do calor, que nos meses de julho e agosto pode chegar a 40 graus, mas para ver as construções mudarem do branco e cinza para o âmbar quando as luzes se acendem.

Há também as igrejas rupestres escavadas na rocha entre os séculos 8 e 13, muitas cobertas de afrescos bizantinos, como a de Santa Lucia Alle Malve e a de Santa Maria di Idris. Mas o que impressiona em Matera é o fato de serem duas cidades em uma. Existe a Matera dos sassi, misteriosa e silenciosa, um lugar que parece sempre pronto para servir de cenário para um filme bíblico (A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, foi rodado ali), e a cidade nova, no alto, com suas igrejas barrocas e suas piazzas barulhentas que todas as noite são tomadas por moradores que saem para a passeggiata.

Vila medieval com muitas ruínas, Castelmezzano, a 80 quilômetros de Matera, fica aos pés de curiosas formações rochosas. Tem um centrinho, a Piazza Caizzo, com uma linda igreja românica. Caminhos de pedra levam até Pietrapertosa, a cidade mais alta da Basilicata, cheia de casinhas nas rochas. Bom mesmo é ir de uma a outra com o Volo dell”Angelo, tirolesa que voa a 1000 metros de altura

Uma multidão lota as ruas de Matera na Festa della Bruna, celebrada desde 1389 no dia 2 de julho em homenagem à padroeira da cidade. A festança tem fogos, procissões. No auge, um carro alegórico com a santa é destruído pelo povo.

Em Bernalda, o hit é o Palazzo Margherita, do Coppola. Em Matera, o Corte San Pietro fica no Sasso Caveoso.

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Fonte: viagemeturismo.abril.com.br/mundo/basilicata-o-hotel-de-francis-ford-coppola-e-a-cidade-de-matera