Trópico de Câncer: a relação afetiva de Jader Damasceno com o Brasil

Chego na Casa da Cultura por volta das 9h e me dirijo diretamente a Galeria de Arte Lucílio de Albuquerque, na parte superior do casarão histórico. Lá, está montada (até o dia 31 de julho) a exposição Trópico de Câncer, de Jader Damasceno. Circulo pelo espaço, sinto e percebo o artista nas 14 telas, carregadas de sol. Minutos depois, Jader liga avisando que vai chegar um pouco atrasado, a justificativa é das mais aceitáveis: estava se despedindo do pai e da mãe, que na ocasião se encontravam em Teresina, mas vivem em Oeiras. Quando o entrevistado chega, refaço o passeio ao seu lado, ele me guiando por cada tela, com cada história que ela traz.

imagem27-07-2019-15-07-08Jader Damasceno

Sempre foi fácil conversar com Jader. Eu, a repórter, o conheci na graduação de Comunicação Social da Universidade Federal do Piauí. Sempre desenvolto e solar, as palavras de Jader surgem sem esforço. Na universidade, ele já pensava e executava formas outras de comunicação, sempre me aparecia com desenhos, bordados, agendas e outras artes que criava, e sempre as cores quentes o acompanhavam. É por isso que é impossível não reconhecer Jader nas telas instaladas na Casa da Cultura. Ali, o artista, sob um clima tropical, expões suas narrativas sobre o Brasil de ontem e hoje.

“Estou em um momento talvez muito mais brasileiro do que o necessário. A exposição veio pela necessidade de contar uma nova narrativa, não só na comunicação, mas nas artes. Trópico de Câncer nasce da minha relação com esse Brasil, da necessidade de se contar novas narrativas, porque estou cansado de ver muita gente falar por mim, falar a história do meu povo, a história de Oeiras, e muitas dessas narrativas não são verídicas, eu sei ou porque as vivenciei, ou porque o mundo vai provando que essas histórias são construídas de um ponto de vista muito hegemônico, muito elitista e branco. Então, fui pintando minha relação afetiva com esse Brasil e quando vi, já tinha essa exposição”, afirma Jader.

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As obras foram criadas sob técnicas artísticas variadas, talvez por isso, Jader não gosta de se enquadrar em um estilo. “São técnicas mistas, nanquim, aquarela, uso o acrílico, textura, óleo, telas em 3D, com inspirações do cubismo, dadaísmo, surrealismo… não gosto de me enquadrar em nenhuma escola, mas se fosse me encaixar em uma, seria naïf [conceito que designa artistas autodidatas que desenvolvem uma identidade artística pessoal e original]”, explica.

Na exposição, todas as pinturas saltam aos olhos. A mim, me chamou uma atenção especial a Ama de Leite, que traz uma mulher negra amamentando uma criança branca, enquanto deixa sua filha para trás. Em seus quadros, Jader evita deixar traços que personalizem a pessoa retratada. “Ultimamente tenho tirado o rosto e a genital dos personagens que crio, porque quero que sejam fluidos, inclusive tiro os traços de ilustrações”, coloca.

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O artista revela que, após Trópico de Câncer, deve priorizar um pouco menos as artes visuais, se dedicando a outros projetos, como o programa de televisão que já apresenta na TV Assembleia, e um canal no Youtube, que pretende inaugurar em breve. “Nunca quis ir para a frente das câmeras no jornalismo, não me enxergava, porque minha voz é aguda e tenho milhões de trejeitos. Eu dizia: isso não dá para mim, não quero sofrer a língua, então vou ficar criando. Mas quando me vi em uma cama, eu disse: não tem jeito, agora a língua vai ficar falando de mim, porque agora eu quero ir para a frente das câmeras, porque sei da importância que terá se eu estiver lá dentro. E não porque eu sou melhor do que os outros, mas porque o meu rosto vai agredir tanta gente acostumada com estética, vai incomodar tanto, que essa gente vai passar a olhar diferente. Por isso hoje apresento um programa, por isso hoje estou montando meu canal no Youtube, é para ocupar os espaços e dar outras funções ao meu corpo”, declara.

Todas as telas expostas estão à venda, contudo, o próprio autor das obras admite que elas não seriam bem aceitas em grande parte dos lares tradicionais brasileiros. “Uma pessoa racista, machista, compraria uma Ama de Leite para botar na sala? Difícil”, finaliza.

A exposição Trópico de Câncer ficará montada na Casa da Cultura até o dia 31 de julho, aberta para visitação de segunda a sexta, das 08h às 17h30, e aos sábados, de 09h às 12h.

 

Fonte: entrecultura.com.br/2019/07/27/tropico-de-cancer-a-relacao-afetiva-de-jader-damasceno-com-o-brasil