Sem rumo, CPI das Fake News tornou-se palanque para João Doria

A CPI das Fake News termina o ano de forma melancólica para quem imaginava que ela fosse atormentar Jair Bolsonaro e alimentar as ações de cassação dele no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Depois de três meses de trabalho, produziu mais espuma e palavrório do que fez descobertas. Só quem tem algo a comemorar é o governador tucano de São Paulo, João Doria Jr.

A CPI nasceu da comunhão de interesses entre a oposição e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas com o tempo tornou-se palanque para neoaliados de Doria. Dos cinco principais depoimentos já prestados à comissão, três foram de ex-bolsonaristas que ou migraram para o PSDB ou que “namoram” Doria, pré-candidato à vaga de Bolsonaro na eleição de 2022.

No primeiro caso, o de neotucanos, estão o deputado Alexandre Frota (SP), que depôs em 30 de outubro, e Paulo Marinho, suplente do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), que foi à comissão em 10 de dezembro. Ambos eram do PSL, o ex-partido bolsonarista, até decidirem abandonar o barco do ex-capitão. Marinho agora é o chefe do tucanato no Rio de Janeiro.

oice Hasselmann, deputada por São Paulo, segue no PSL, mas é da ala rompida com Bolsonaro, racha que levou o presidente a tentar criar outro partido. Em novembro, Doria lançou Joice para ser vice do prefeito paulistano, Bruno Covas (PSDB), na eleição de 2020. A deputada, que tinha sido líder do governo Bolsonaro no Congresso, foi à CPI em 4 de dezembro.

Uma semana depois, ela virou líder do PSL na Câmara, consequência da suspensão aplicada pela direção nacional da sigla a Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, e trocou quatro pesselistas da CPI. Tirou bolsonaristas de raiz (Eduardo, Bia Kicis, Carolina de Toni e Filipe Barros) e botou uns zangados com o ex-capitão (Delegado Waldir, Julian Lemos, Nereu Crispim e Professora Dayane).

A troca ainda depende da derrubada de uma liminar judicial que anulou a suspensão de Eduardo e outros 13 deputados. Se for confirmada, a CPI terá um pesselista defensor do impeachment de Bolsonaro, Nereu Crispim, presidente do PSL do Rio Grande do Sul.

Em 2 de dezembro, o jornal gaúcho Zero Hora publicou o áudio de um telefonema de Crispim com uma mulher de nome Rose. A conversa é sobre buscas que a Polícia Federal fez em outubro na casa do presidente do PSL, Luciano Bivar, atrás de provas de irregularidades na eleição de 2018.

“É retaliação do Bolsonaro”, dizia Crispim. “Eu conheço o Bivar e se houve alguma coisa lá errado, tem que cassar é o mandato do Bolsonaro, porque o partido estava era com ele e não era com o Bivar.” Mais adiante, o deputado comenta: “Eu vou só te dizer uma coisa pra ti: o Bolsonaro vai tomar um impeachment, escuta o que eu tô te dizendo”.

Fonte: Carta Capital – Foto: Governo do Estado de São Paulo