Solidariedade a Klara Castanho: 'jornalistas agem como abutres' – ViDA & Ação

A decisão da atriz Klara Castanho, de 21 anos, de entregar para adoção, de forma leal, a criança gerada após um estupro virou tema de muita polêmica nas redes sociais no final de semana. O caso foi divulgado pelo colunista do site Metrópoles, Leo Dias, e replicado posteriormente por outros veículos, de forma agressiva e desrespeitosa, gerando uma série de ataques à atriz nas redes sociais. No domingo, o programa Fantástico, da Rede Globo, publicou uma reportagem com declarações de apoio a Klara.

Ainda no fim de semana, a Confederação Nacional de Enfermagem e o Conselho Regional de Enfermagem declararam que vão apurar responsabilidades no vazamento de informações para o colunista, ocorrido dentro do hospital onde a atriz foi atendida e fez o parto, com o devido procedimento da adoção logo após o nascimento da criança. Nesta segunda-feira (27), entidades que atuam com ética profissional de veículos de comunicação se manifestaram, como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj). 

“Mais um estupro. Mais um crime contra a mulher a impulsionar a audiência de blogs e portais. A Comissão de Ética dos Meios de Comunicação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) vem a público manifestar sua indignação diante do comportamento antiético de jornalistas e diretores de portais e demais veículos de comunicação que exploram casos de vítimas de violência sexual para ampliar o número de seguidores virtuais.

O jornalismo não pode compactuar nem com o crime, nem com sua exploração midiática. A ABI adverte em específico o jornalista Leo Dias: mesmo o tipo de jornalismo que ele faz deve respeitar certos limites éticos.

A ABI também manifesta sua solidariedade à atriz Klara Castanho e familiares. Esperamos que os meios de comunicação compreendam, de uma vez por todas, que o respeito humano vale mais que a busca de audiência.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por meio da sua Comissão Nacional de Mulheres, vem a público solidarizar-se com a atriz Klara Castanho, que teve uma situação pessoal exposta pela mídia, resultando em ataques pessoais aos quais teve de se defender com uma carta aberta em seu perfil no Instagram.

A atriz engravidou após um estupro e encaminhou a criança para adoção, cumprindo os trâmites legais. A situação, de caráter absolutamente particular e sigilosa, foi exposta pelo colunista do site Metrópoles, Leo Dias, no fim de semana.

Após a repercussão negativa, o link foi retirado do site. Mas a divulgação já havia desencadeado uma onda de ódio nas redes sociais, com novos ataques à honra da atriz, causando sua revitimização num já doloroso momento pessoal.

São fortes as evidências de que o colunista feriu o Código de Ética do Jornalista Brasileiro. Pela gravidade do caso, a Diretoria Executiva e a Comissão de Mulheres da Fenaj vão encaminhar denúncia contra o jornalista à Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, que deverá apurar o caso, dando amplo direito de defesa ao profissional.

O caso serve para reafirmar a luta encabeçada pela FENAJ e Sindicatos de Jornalistas filiados pela criação do Conselho Federal de Jornalistas (CFJ), uma forma de garantir uma profissão digna, com um contrato público e ético com a sociedade. Temos lutado pelo Conselho Federal dos Jornalistas para que as próprias entidades sindicais possam controlar a emissão de registros profissionais e promover a cultura do respeito ao Código de Ética, por meio da fiscalização.

“No momento em que comentários sobre a vida íntima de uma atriz que foi estuprada e optou por entregar o bebê fruto dessa violência para adoção ganham enorme repercussão nas redes, com pessoas opinando, julgando e até ofendendo, devemos nos perguntar se tais pessoas têm esse direito. E obviamente é resposta é negativa”, diz Francisco Gomes Júnior, sócio da OGF Advogados e presidente da Associação de Defesa de Dados Pessoais e do Consumidor (ADDP).

Autor do livro ‘Justiça Sem Limites’,  o advogado diz que “não se deve adentrar na privacidade e intimidade da atriz não somente porque a Constituição Federal proíbe, ao colocar o direito à privacidade e intimidade como um princípio que não pode ser violado, mas também por humanidade, empatia, ética e respeito”.

“Não há justificativa ou consentimento para violar a imagem, os dados pessoais e a intimidade de uma pessoa. Ainda mais após a pessoa ter sofrido extrema violência e enfrentar momentos de muita dificuldade, decorrentes da dor a que foi submetida. Foram utilizados fatos sigilosos, íntimos e mesmo dados sobre a saúde da atriz e da criança recém-nascida, que também teve sua intimidade violada. Uma crueldade sem limites e que literalmente jogou a atriz ao impiedoso julgamento das redes sociais”.

Todos temos vida privada, ou seja, nossa vida que diz respeito apenas a nós mesmo. E dentro dessa vida privada, a intimidade é a parcela mais sensível e que merece maior preservação.

No momento em que “lacradores” invadem a privacidade de uma mulher e violam sua intimidade para dar uma “informação chocante”, divulgando fato que a própria pessoa resolveu manter consigo, tamanha a dor que lhe provoca, eles violam a lei e atropelam conceitos básicos de civilidade como empatia e respeito a outro ser humano.

Resolvem expor a intimidade e fazem juízo de valor sem nenhum conhecimento. Para que se tenha uma ideia da crueldade, além de expor a dor e trauma de um estupro, houve que de forma irresponsável condenasse a atriz vítima, pelo fato dela ter entregue a criança fruto desse abuso para adoção.

Pessoas reincidentes em ofender e aparecer por isso afirmaram uma infinidade de coisas, até mesmo que se tratava de abandono de incapaz o fato de entregar a criança para adoção, o que é de um absurdo e falta de conhecimento básico jurídico espantoso. O que se espera de alguém em um veículo de comunicação público é que tudo seja checado e que conceitos não sejam lançados se não estiverem corretos.

Agindo irresponsavelmente equiparam-se a abutres, talvez criminosos, ao atentarem contra a honra da vítima de um ato de violência.

A vítima, portanto, sofreu a violência sexual, a gravidez indesejada e não interrompeu a gestação por conta de suas convicções. Mas após o nascimento, optou por entregar a criança para adoção. Se é um trauma de difícil e demorada superação, a divulgação de tudo que ocorreu além de trazer à tona tudo pelo que passou ainda a obriga a submeter-se ao julgamento das redes sociais. Simplesmente desumano.

Repita-se, falta de ética, de empatia, de humanidade, falta de bondade. E no absurdo dos absurdos utilização política da tragédia, com direita e esquerda trocando acusações e manifestando seu posicionamento.

Em condições normais poderia a vítima representar contra as pessoas que atingiram sua honra de forma tão violenta, mas pode ser que ela prefira superar e afastar fato tão traumático de sua vida.

Quem busca uma relevância meteórica lacrando, pode durar algum tempo, mas ao final se não tiver conteúdo voltará ao lugar de partida. Do pó vieram e ao pó voltarão.

Com Assessoria

 

Fonte: www.vidaeacao.com.br/solidariedade-a-klara-castanho-jornalistas-agem-como-abutres