Gordofobia atinge quatro entre 10 adultos obesos e não perdoa nem crianças – ViDA & Ação

Além de causar uma série de problemas para a saúde, como diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares, hepáticas e renais, a obesidade pode condenar o paciente ao estigma social do excesso de peso – a chamada gordofobia. Entre os adultos obesos, cerca de 19% a 42% sofrem com a discriminação. A taxa é maior principalmente entre as mulheres e naqueles em que o Índice de Massa Corporal (IMC) são maiores.

É o que revela um periódico científico publicado neste ano pela Nature Medicine, assinado por mais de 100 instituições de todo o mundo, incluindo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). O estudo constatou que o preconceito contra a obesidade compromete a saúde, dificulta o acesso de pessoas acima do peso ao mercado de trabalho e a tratamentos adequados, afeta suas relações sociais e a saúde mental.

A gordofobia é um neologismo criado para indicar o preconceito de pessoas que julgam o excesso de peso e a obesidade como um fator que mereça seu desprezo. A SBCBM defende que o estigma contra essa população deve ser combatido com informação.

Evidências científicas mostram que o aumento de peso não ocorre apenas por falta de disciplina ou de responsabilidade pessoal mas sim por efeitos biológicos, metabólicos e genéticos”, explica o vice-presidente da SBCBM, Fábio Viegas. “A obesidade é uma doença crônica e incurável e essa população merece respeito e acolhimento. O estigma e a discriminação pelo peso não podem ser tolerados em sociedades modernas”, afirma o especialista.

No Brasil, uma em cada cinco pessoas está com sobrepeso ou obesidade segundo dados do Ministério da Saúde. A projeção da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que cerca de 2,3 bilhões de pessoas estejam acima do peso, sendo 700 milhões obesas, até 2025.

O presidente da SBCBM, Marcos Leão Vilas Bôas, lembra que a Sociedade atua em campanhas voltadas ao estigma da obesidade e visando informar a população sobre medidas de acolhimento das famílias e pacientes com obesidade.

Entre as crianças, os efeitos do estigma social também é preocupante. Estudos apontam que crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesidade vítimas de bullying são significativamente mais propensos a sofrer com ansiedade, baixa autoestima, estresse, isolamento, compulsão alimentar e depressão se comparado com adolescentes magros.

Recentemente, a gordofobia foi utilizada para desqualificar o trabalho de parlamentares no Brasil, afastando pessoas gordas dos espaços de participação política. Deputados Joice Hasselmann, Rodrigo Maia e Sâmia Bonfim foram alvos.

Segundo a psicóloga Michele Pereira, coordenadora do Núcleo de Saúde Mental da SBCBM, a gordofobia reforça preconceitos e sofrimento daqueles que não atendem ao padrão estético

O aspecto físico não interfere nas outras capacidades. Não há conexão direta sobre a doença obesidade e as capacidades cognitivas. Já o sofrimento emocional e a marginalização por conta da obesidade, sim, podem levar a prejuízo em outras áreas da vida. Precisamos encontrar meios de combater todas as formas de discriminação”, explica a especialista.

Para o psiquiatra Hélio Tonelli, que também integra o Núcleo de Saúde Mental da SBCBM, a sociedade ainda não se atentou que a gordofobia pode até ser comparado a crimes relacionados com preconceitos por raça, sexualidade e gênero e origem, o que equivale ao assédio moral.

“Grande parte das pessoas que atendo dizem que na infância, ou até na fase adulta, sofreram algum tipo de restrição social por conta da gordofobia e isso traz efeitos sobre comportamentos e até na saúde mental. Existem evidências que o preconceito e o estigma que o obeso sofre no dia a dia acabam ocasionando problemas emocionais que estimulam comportamentos alimentares disfuncionais como o comer emocional e a adição à comida, o que perpetua o ciclo da obesidade”, reforça Tonelli.

EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS x SENSO COMUM

Embora a ideia de comer demais aliado a falta de atividades físicas possa parecer a principal causa da obesidade, evidências mostram que há uma linha mais tênue sobre a doença.

Um estudo canadense utilizou acelerômetros para medir a atividade física de crianças e adolescentes de 6 a 19 anos entre 2007 a 2009. A pesquisa concluiu que as meninas com obesidade deram mais passos diários do que as que estão na faixa de peso ideal. Achados semelhantes também já foram observados em adultos.

As evidências científicas também indicam outras causas para a obesidade, incluindo a genética, fatores epigenéticos, fatores de origem alimentar, privação de sono, disritmia circadiana, estresse psicológico, desreguladores endócrinos, medicamentos e efeitos intra-uterinos e intergeracionais, entre outros.

Para as mulheres, essa situação pode ser ainda mais desafiadora .Segundo a professora dra. Luciana El-Kadre, coordenadora do Centro Metabólico da Gávea, unidade do Hospital São Lucas Copacabana, a gordofobia é um ciclo vicioso que, muitas vezes, começa ainda na infância.

Por causa das questões hormonais, genéticas ou como resultado de um estilo de vida pouco saudável, a menina obesa tem grandes chances de sofrer exclusão social tanto no ambiente escolar quanto na própria família. E, com o passar dos anos, a situação tende a piorar.

Quanto maiores a exclusão e o preconceito, seja no trabalho, seja entre os amigos ou em público, maior pode ser a chance de ela desenvolver sintomas depressivos e ter menos vontade de se expor, praticar exercícios físicos ou participar ativamente da vida social. Nesse momento, a procura por alimentos que estimulem o sistema de recompensa cerebral pode aumentar, determinando piora na condição, com mais ganho de peso. O estigma relacionado com a obesidade não escolhe classe social ou idade”, explica a médica.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Forsa, na Alemanha, evidenciou que mais da metade da população acredita que uma pessoa obesa é antiestética e cerca de 15% delas evitam contato com quem tem sobrepeso ou obesidade. Para as mulheres, a questão pode chegar a um nível ainda mais pessoal: grande parte delas terá dificuldade de engravidar por causa do excesso de peso.

É sabido que o acúmulo de gordura influencia na fertilidade, diminuindo as chances de a paciente ser mãe. E quando ela consegue engravidar, ainda há a realidade da gravidez de risco, já que uma paciente obesa tem grandes chances de receber o diagnóstico de hipertensão e diabetes”, explica a dra. Luciana.

Mas não se trata de uma situação que não possa ser resolvida. Se a paciente obesa estiver obstinada em reverter a situação, existem opções de tratamento que reduzem a gordura – como a mudança no estilo de vida com exercícios físicos e/ou a cirurgia bariátrica.

Independentemente do método para perder peso, é essencial que a paciente mude seu comportamento e passe a ter uma nova relação com a comida, preferindo as opções mais saudáveis e nutritivas”, afirma a médica.

Segundo a dra. Luciana, a rede de apoio formada pela família, por amigos, colegas de trabalho e outras pessoas que convivam com a paciente também é muito importante para mantê-la sempre motivada e no caminho certo.

A cirurgia bariátrica é uma opção de tratamento para pacientes que não conseguiram controlar a doença apenas com o tratamento clínico convencional. É considerado o tempo de doença diagnosticada e considera-se o Índice de Massa Corpórea (IMC) entre 35 kg/m² e 39,9 kg/m², com comorbidades, ou pacientes com IMC igual ou maior do que 40 kg/m², com ou sem comorbidades, como requisitos para indicação do procedimento.

Além da perda de peso, a cirurgia traz benefícios como a remissão das doenças associadas à obesidade, incluindo diabetes tipo 2 e hipertensão, diminuição do risco de mortalidade, aumento da longevidade e melhora na qualidade de vida.

Com Assessorias

Fonte: www.vidaeacao.com.br/gordofobia-discriminacao-atinge-ate-42-dos-adultos-obesos

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