Rose Gomez conta sobre os segredos por trás da sua poesia – Geleia Total

Rose Gomez (2)Foto: José Ailson Nascimento

Rose Gomez nasceu em 9 de setembro de 1993, em Teresina-PI. É estudante de Filosofia na Universidade Federal do Piauí, mas Rose sonha mesmo em estudar e trilhar o caminho da Moda. Não é à toa que Rose tem um estilo único e arrebatador, que transforma um simples passeio em um acontecimento. Mulher forte, empoderada e com uma voz suave e encantadora, às vezes ainda se arrisca pelo universo do canto e da música. Além disso, Rose é redatora na Geleia Total e organiza o conteúdo referente à programação cultural no Piauí.

Rose Gomez (4)Foto: José Ailson Nascimento

Entre os dons da Rose Gomez, ela se destaca na poesia e tem obras suas publicadas na Antologia Poética, além de publicar de maneira avulsa nas redes sociais e em sites de literatura ou áreas afins. Resolvemos conversar com essa poeta que é pura intensidade. Confira:

  • Quando você começou a escrever poesias?

Sobre quando comecei a escrever… ja nem lembro mais, no começo da minha adolescência mais ou menos, escrever era uma forma de desabafo, eu não era uma garota de muitas amizades, logo eu socializava com a escrita, sobre a paixão que não deu certo, sobre a falta de companhia… claro que com o passar do tempo as coisas mudaram. Mas ainda escrevo sobre o amor, amor sempre será o motivo dos meus versos, seja erótico, recíproco, preto, de libertação. O amor me move, principalmente o próprio.

  • Quais as suas Inspirações?

Sobre algumas das minhas inspirações, tenho a Elisa Lucinda, Hilda Hilst, Rupi Kaur, Ana Cristina César, Carolina de Jesus, mas sei que ainda tenho muito o que conhecer, aprender e desfrutar da literatura brasileira.

Rose Gomez (3)Foto: José Ailson Nascimento

  • Fale um pouco sobre a Antologia e o concurso literário.

A antologia foi o resultado final do Premio Absutos de Poesia, que foi um concurso literário promovido pela Absurtos Editora. “Poesia libertadora” foi o tema proposto para os inscritos.

O concurso chegou ao meu conhecimento através de um amigo também escritor, ele me mandou o edital e pediu que eu participasse, até então eu nunca havia participado de um concurso, nem regional nem nacional que foi o caso desse.  E me fiz a pergunta “por que não?”, fiz a inscrição e aguardei o resultado.

  • Como foi receber a notícia de que foi selecionada para compor a obra?

Foram selecionados 100 poemas para compor a Antologia e o meu estava entre eles. Eu soube da notícia depois que fui verificar no site da editora o resultado final, além disso também recebi um e-mail da mesma, fiquei sem acreditar, fiquei muito feliz, nunca imaginei que logo o meu poema dentre tantos outros de todo o Brasil seria escolhido. Não sei bem como dizer o que senti naquele momento, lembro-me de ficar parada com o celular na mão olhando o e-mail, foi uma notícia maravilhosa e muito importante, comecei a acreditar em mim como escritora.

  • Do que se trata o seu poema?

O tema proposto pelo concurso foi ” Poesia libertadora” que também é o título do livro, da antologia.  Confesso que fiquei um tempo pensando, tentando entender o tema, pois na minha percepção era amplo e com inúmeras possibilidades de falar sobre. Enfim, sempre escrevia sobre amor e desamor, relações fracassadas… e como projetamos no outro a felicidade que só depende da gente, as expectativas criadas e as decepções como consequência. E o meu poema selecionado não fugiu disso, “Aborto” fala de alguém foi tanto pro outro, que foi tudo para outra pessoa que acabou esquecendo de si mesma, e quando ela se viu nesse lugar tentando suprir as vontades desse outro sem reciprocidade, ela sentiu a necessidade de interromper, abordar esse outro da sua vida, apesar da dor, que apesar da falta era o melhor a ser feita, era necessário livrar-se deste amor que passou a ser o seu mal. Logo vi neste poema a liberdade de voltar a ser, ou liberdade de se reencontrar, ele para mim foi então uma poesia libertadora.

 

Rose Gomez (1)Foto: José Ailson Nascimento

  • Qual a importância de ser uma das únicas representantes do Piauí em uma antologia com escritores de todo o Brasil?

Fico pensando sobre a necessidade de outras mulheres negras da periferia saberem que podem, que devem, que aqui também é lugar delas, que sua existência já é uma poesia, que somos o poder, somos mais que capazes.  Carolina de Jesus é um grande exemplo disso… Entre outras mulheres negras que ainda não conhecemos, mas, que ainda vamos conhecer.

Poesias

 

Já caí em ilusões de palavras bonitas Na promessa de uma manhã de sol sobre a pele De um café fresco em uma tarde de domingo. Já fui de vários corpos vazios Já fui…já busquei e hoje já não sei quem sou Essa ausência que preencher meu ser, me tortura. Me perco em caminhos certos e abro a porta de uma casa banhada por fel e lá eu me deito, lá eu durmo e me perco mais e mais.

 

Despedida

As palavras já não diziam nada que possam te fazer ficar Seus lábios tinham gosto de despedida e meu corpo que pulsava pela tua pele já fria de desejo, se esmoreceu. Teu olhar já não olhava em meus olhos na hora do “prazer” Já não sentir o calor da tua vontade em mim. Teu fogo se apagou em meus lençóis Foi aí que percebi que aquele aperto demorado na despedida de uma tarde qualquer foi o último abraço de nós dois.

 

Tons de preto

Me derreto na cor da tua pele Eita preto! Esse teu tom de café é um delírio que me leva a lucidez. Teu cheiro homem, da cor da noite mora em meus pulmões E o mistério que tens no olhar me faz querer-te mais. Quero banhar-me com teu suor adormecer com tua risada E depois de uma longa noite misturando nossos tons de preto ter a certeza da tua morada.

 

Quebra NÃO!

Vaso ruim não quebra. Não! Quebra não. Vaso ruim fica escondido no canto da sala porque não combina com a decoração. Vaso ruim não quebra E por isso sofre opressão Nascido do artesão da favela como presente da nação. Seus traços rústicos sem estética, sem aprovação da alta população. Vaso ruim não quer quebrar, ele resiste a difamação. Apontam o dedo, dizem que é feio e que não seguem um padrão, Vaso ruim não quebra Não! Quebra não.

 

SADO

Olho no espelho e digo: Quero beber tua vida Tirar tua pele Rasgar tuas entranhas Quero contar tuas veias Sentir o gosto das tuas lágrimas Quero ouvir o lindo som dos teus gritos Pedindo pra eu parar Quero abrir teu peito E ver teu coração bater Quero ver teu olhar suplicando Piedade, piedade… piedade? Quero comer-te como se fosse meu jantar Quero matar minha sede Vendo a última gota do teu sangue Se perdendo no meu prazer de te ver sofrer E pra te mostrar o quanto eu te amo Segurarei teu coração na mão Como se fosse um troféu que ganhei Por ter vencido esse medo de ti.

 

Aborto

Sim, fui tua! Do sono até a insônia, fui tua. Das pontas do meu cabelo ressecado até a carne morta debaixo da unha, fui tua. Meu suor, minhas lágrimas, meu sossego. Minha febre, que de tanto arder, ferveu. Meus olhos negros. Minha ânsia, meu vômito, minha alegria, desespero e agonia. Até o meu sorriso amarelo, minha euforia. Tudo de concreto e surreal que há em mim, foi teu. E hoje estou abortando você de mim em versos.

 

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Fonte: www.geleiatotal.com.br/2020/01/13/rose-gomez-conta-sobre-os-segredos-por-tras-da-sua-poesia