Quem tem medo do feminismo negro? Entrecultura entrevista Djamila Ribeiro

A filósofa e feminista negra Djamila Ribeiro esteve em Teresina neste fim de semana, como uma das convidadas do 16º Salão do Livro do Piauí (Salipi). Ao lado da também feminista negra e escritora Joice Berth, Djamila participou do Seminário Língua Viva, interagindo com o público sobre o projeto editorial que coordena,  a coleção Feminismos Plurais, de livros sobre pautas como feminismo, negritude e outras questões sociais (Joice Berth escreveu pelo selo o livro O que pé empoderamento?).

imagem17-06-2019-13-06-07Djamila Ribeiro (Foto: Salipi)

Autora de O que é Lugar de Fala (2017) e Quem tem medo do Feminismo Negro (2018), Djamila é filósofa graduada pela Unifesp e mestra em Filosofia Política pela mesma instituição. A pesquisadora, que tem percorrido diversos lugares, dentro e fora do Brasil, concedeu uma entrevista ao Entrecultura, falando sobre feminismo, negritude e sobre sua participação no Salipi. Confere!

Entrecultura: Como você recebeu o convite para participar do Salão do Livro do Piauí?

Djamila Ribeiro: Fiquei muito feliz quando recebi o convite, porque desde que comecei com a coleção Feminismos Plurais o objetivo é circular pelo Brasil, mas como somos um projeto independente, sempre dependemos de parceiros que nos levem a outros lugares. Ano passado nós fomos para 53 cidades, passando pelo Norte e Nordeste do país. O Salipi foi um convite que aceitei de pronto.

imagem17-06-2019-13-06-07Djamila Ribeiro e Joice Berth, em debate mediado pela professora Jasmine Malta (Foto: Salipi)

Entrecultura: A que você acha que se deve o fato de o debate sobre feminismo, nesse caso o feminismo negro, estar conseguindo se inserir em espaços tão amplos como esse, o Salipi?

D.R: Acho que se deve muito as transformações dos últimos anos. As feministas foram muito felizes em colocar esse tema no debate público, e por mais que ainda gere muita crítica, muito desentendimento, hoje a gente fala mais desse assunto, claro que isso é consequência de trabalhos históricos que foram feitos, muitas mulheres que nos antecederam, mas nos últimos anos, por conta das redes sociais, acho que a gente entendeu sobre como nós, mulheres negras — até saiu uma pesquisa na revista Gênero Número e Grau, mostrando o quanto as feministas negras foram as que mais entenderam que o espaço virtual era um espaço importante de disputa de narrativa, já que a mídia hegemônica nos ignorava — entendemos que ali era um espaço que conseguiríamos disputar, e hoje nós conseguimos não só disputar, mas muitas vezes até pautar a mídia hegemônica.  Eu digo que se não tivessem as redes sociais, por exemplo, a Feminismos Plurais não teria esse alcance.

Entrecultura: Como é conseguir ocupar e se firmar em um espaço intelectual ainda elitizado e majoritariamente branco?

D.R: É muito complicado, mas requer estratégias. Não me furto de estar em espaços elitizados, porque a gente acha que aquele espaço não é para nós, mas não entende que na verdade aquele espaço foi retirado de nós. Nós fomos retiradas do espaço acadêmico, fomos expulsas de vários espaços e tivemos que brigar para estar nesses espaços, por isso o movimento negro lutou tanto por cotas. Precisamos entender que é fundamental disputar esses espaços porque estamos disputando poder, e ao mesmo tempo forçar esses lugares a entender que a gente tem produção, que a gente fala, que a gente escreve. Óbvio que temos que fazer nossas coisas entre nós, nos fortalecermos, mas temos que ir para a disputa do mundo, porque nós também estamos elaborando o mundo, e poder estar hoje no Salipi falando sobre isso só comprova que essa luta histórica foi alargando esses espaços, porque alargar esses espaços é inclusive alargar o conceito de humanidade ao qual nós sequer fomos submetidos. É difícil? É. Mas também penso em todas as que me antecederam, se não fossem mulheres como Lélia Gonzales, Toni Morrison, talvez eu não estivesse aqui.

imagem17-06-2019-13-06-08Djamila Ribeiro participou do último dia de atividades do 17º Salipi (Foto: Salipi)

Entrecultura: Como andam seus escritos, vem coisa nova?

D.R: Estou escrevendo, continuo coordenando a coleção Feminismos Plurais — agora em junho sai outro título, o sétimo — e estou terminando um livro pela Companhia das Letras, que sai no segundo semestre. Estou nesse lugar tanto de escritora, como de coordenadora, lançando novas autoras, e isso é o que tem me dado mais prazer.

Fonte: entrecultura.com.br/2019/06/17/quem-tem-medo-do-feminismo-negro-entrecultura-entrevista-djamila-ribeiro