Orçamento secreto, pragmatismo e ‘palavra’: o que faz o poder de Lira

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), aglutinou um arco de alianças em torno de sua candidatura à reeleição ao comando da Casa que inclui, até agora, 15 partidos, com mais de 400 deputados. A construção, que vai do PT do presidente eleito Lula ao PL do presidente Jair Bolsonaro, faz dele um candidato quase imbatível na disputa, como mostra reportagem de capa de VEJA desta semana.

Principal operador do chamado orçamento secreto, posição que ocupou durante o governo Jair Bolsonaro, diante da debilidade política do governo, Lira tem na distribuição de recursos a aliados um atrativo a deputados da esquerda à direita – e, especialmente, os colegas do Centrão. O grupo de partidos, que além do seu PP inclui PL, Republicanos e União Brasil, já estava propenso a apoiá-lo antes mesmo do resultado da eleição presidencial, em função de compromissos articulados previamente a partir das “emendas de relator”. O PSD ainda não se declarou formalmente, mas também vai apoiá-lo, assim como pelo menos uma parte da bancada do MDB, partido do senador Renan Calheiros (AL), rival figadal de Lira em Alagoas.

Apesar da vitória de Lula contra Bolsonaro, aliado de Lira, a ascendência do presidente da Câmara sobre o Centrão faria dele candidato fortíssimo à reeleição, motivo que catalisou uma aproximação entre Arthur Lira e o presidente eleito – PT, PCdoB, PV e PSB declararam apoio à recondução do cacique do PP na última terça, 29. Lula, afinal, não está disposto a cometer os mesmos erros do passado, quando interferências malsucedidas nas eleições da Câmara tiveram desdobramentos políticos trágicos aos governos petistas. O petista, além do mais, tem como prioridade absoluta, antes mesmo de tomar posse, a PEC da Transição, texto que deve garantir recursos ao Bolsa Família fora do teto de gastos, a tramitar ainda nesta legislatura – sob Lira, portanto.

Além dos recursos do orçamento secreto, dos acertos com o Centrão e do absoluto pragmatismo na relação de Lira com Lula, o arco de alianças do presidente da Câmara foi montado com base em outras negociações. Partidos aliados ao progressista buscam espaços na Mesa Diretora e nas comissões temáticas da Câmara. O PL, por exemplo, espera indicar o vice na chapa de Lira e o nome que desponta para ocupar a vaga é o do deputado federal Sóstenes Cavalcante (RJ), presidente da Frente Parlamentar Evangélica e nome muito próximo do pastor bolsonarista Silas Malafaia. “Arthur tem uma habilidade muito grande de conversar com os diferentes interesses da Casa e, à medida das possibilidades, atender às demandas de todos os lados”, diz Cavalcante.

A CCJ, que avalia a constitucionalidade dos textos propostos pelos parlamentares, colegiado central no funcionamento da Câmara e no encaminhamento de interesses do Palácio do Planalto, tem como pretendentes tanto PL quanto PT, que articula a formação de um bloco para reunir mais deputados e alijar da posição o rival, dono da maior bancada eleita. O União Brasil, uma das siglas com as quais o PT negocia a formação do bloco, está de olho em manter a Primeira Secretaria da Câmara, posto atualmente ocupado pelo presidente do partido, deputado Luciano Bivar (PE), e a presidência da Comissão Mista de Orçamento, estratégica ao orçamento secreto.

Motivos relacionados ao trato de Arthur Lira com os deputados também são citados como motivos a facilitar adesões a ele. Aliados e desafetos de Lira costumam chegar a um consenso quando falam do presidente da Câmara: antes de predicados como “trabalhador” e “articulado”, para uns, e “trator” e “passador de pano”, para outros, é comum ouvir que o alagoano é um “cumpridor de acordos”, qualidades muito valorizadas na selva de Brasília. “Ele tem palavra e conhece todos os deputados pelo nome, sabe a história e a origem de cada um. Não lembro de outro presidente assim”, diz o ministro da Casa Civil Ciro Nogueira, presidente licenciado do PP. “Arthur dá oportunidade a todos os partidos e lideranças, age como um magistrado, sem criar ruídos com as várias correntes da Câmara”, completa o deputado Cláudio Cajado, que exerce a presidência do PP na ausência de Nogueira.

Por outro lado, não é raro ouvir de deputados oposicionistas, inclusive de partidos que agora apoiam a recondução de Arthur Lira, que ele age com “truculência” ao conduzir a pauta de votações. Enquanto o número de projetos aprovados no plenário aumentou sob sua gestão, uma das reclamações mais comuns sobre Lira recaem sobre a intensificação das votações remotas, por reduzirem a margem de atuação da oposição e abreviarem debates. Em razão destas resistências e de outros fatores, como a relação prévia com Jair Bolsonaro e o protagonismo no orçamento secreto, siglas aliadas a Lula, a exemplo do PSOL, articulam o lançamento de uma candidatura alternativa, mesmo que apenas para “marcar posição”.

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Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/orcamento-secreto-pragmatismo-e-palavra-o-que-faz-o-poder-de-lira/