Da Vera: descaso com formação de policiais

O Ministério da Justiça reduziu em cerca de 80% a quantidade de cursos de formação e aperfeiçoamento de policiais militares que promove desde 2005, na modalidade de ensino à distância. A informação vem de importante reportagem feita por Felipe Frazão no Estadão desta terça-feira, e revela mais do que apenas um aparentemente desconectado corte de verbas.

Jair Bolsonaro foi eleito com o discurso da ênfase na segurança pública como um dos pilares. Desde que chegou ao poder, reforça os laços políticos com as polícias militares, a ponto de monitorar, no mesmo Ministério da Justiça, os focos de dissidência dentro da tendência à “bolsonarização” das corporações.

A redução no investimento em cursos de formação, que têm entre as disciplinas oferecidas aquelas relativas a ética e direitos humanos, faz parte de uma deliberada disposição a não ser o governo federal um promotor desse tipo de conteúdo. Quanto menos policiais tiverem acesso a esse tipo de formação e aperfeiçoamento, melhor para um projeto político de cooptação meramente ideológica dos policiais, que vem sendo feito sistematicamente sob as barbas de governadores que, quando perceberem, terão cada vez menos ascendência sobre suas polícias.

A reportagem mostra que, no final do governo Temer, eram 72 os cursos disponíveis na plataforma do governo federal, com 292 mil policiais matriculados. Agora, são apenas 47 cursos e 44 mil matrículas. Esses dados foram obtidos graças a um pedido da ONG Sou da Paz pela Lei de Acesso à Informação.

Um dos alvos do dossiê produzido pela pasta de André Mendonça é um dos idealizadores desses cursos à distância, o professor Ricardo Balestreri, que foi secretário nacional de Segurança no governo Lula.

A “revisão de conteúdos” justificada pela pasta para a retirada de cursos da plataforma aponta para a tendência a mitigar a presença de conteúdos ligados à defesa dos direitos humanos na grade, uma das preocupações iniciais de ofertar tais cursos, com o objetivo de melhorar e humanizar a prática da atividade policial.

Tem método na confluência de todas essas políticas: a vigilância em relação aos descontentes e o desmonte de uma estrutura voltada aos direitos humanos, ambas condizentes com a intenção de aparelhar politicamente as polícias militares.

A saída de Sérgio Moro do governo escancarou a intenção de Jair Bolsonaro de implementar sua própria política na segurança pública, no “combate” à corrupção, na inteligência e na gestão da Polícia Federal. Os poucos meses de André Mendonça à frente da pasta mostram um auxiliar extremamente diligente em entregar o que o chefe quer, de olho no pote do ouro ao final do arco-íris: a vaga de Celso de Mello no STF em novembro.

Fonte: brpolitico.com.br/noticias/da-vera-descaso-com-formacao-de-policiais

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