Com David Uip na mira, cloroquina vira arma ideológica do bolsonarismo | Maquiavel

Desde o início da crise causada pelo novo coronavírus no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro e alguns de seus apoiadores têm colocado em xeque recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do próprio Ministério da Saúde. A divergência de opiniões dentro do governo é, aliás, um dos motivos pelos quais o chefe do Executivo entrou em rota de colisão com o ministro Luiz Henrique Mandetta. Além de sugerir flexibilização das medidas de isolamento social, Bolsonaro, agora, encampa uma cruzada para defender o uso da hidroxicloroquina, que ainda não tem sua efetividade clinicamente comprovada, como forma de combater a epidemia no país.

A insistência do presidente no tema acabou fazendo da cloroquina uma espécie de “droga ideológica”, transformando o que deveria ser um debate científico em uma ferramenta do jogo político travado pelo bolsonarismo nas redes sociais.

ASSINE VEJA

Até quando? As previsões dos cientistas para o fim do isolamento Até quando? As previsões dos cientistas para o fim do isolamento A imensa ansiedade para a volta à normalidade possível, os dramas das vítimas brasileiras e a postura equivocada de Bolsonaro diante da crise do coronavírus Clique e Assine

No início da manhã desta terça-feira, 7, Bolsonaro divulgou, em seu perfil oficial no Twitter, um trecho da entrevista concedida pelo infectologista David Uip, que coordena o Centro de Contingência de Coronavírus em São Paulo, ao jornalista José Luiz Datena, no programa Brasil Urgente, da Band. O apresentador questiona se o médico, infectado pelo coronavírus – e já curado -, utilizou a hidroxicloroquina em seu tratamento. “Eu segui regiamente o que me foi prescrito e orientado. Cabe ao meus médicos falar sobre terapêutica, eu não vou falar”, disse Uip. Na publicação, Bolsonaro questiona: “O médico David Uip tomou, ou não, hidroxicloroquina para se curar?”

– O médico David Uip tomou, ou não, HIDROXICLOROQUINA para se curar? pic.twitter.com/RsfNKAv6qM

Continua após a publicidade

— Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) April 7, 2020

Desde então, David Uip tem sido citado em diversas publicações de aliados do presidente. No início da tarde desta terça-feira, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, afirmou que gostaria que o infectologista “viesse a público informar se utilizou ou não hidroxicloroquina e azitromicina no seu tratamento, durante os estágios iniciais da doença”. “Diante da sua rápida recuperação, fica claro que essa atitude pode contribuir para salvar milhares de vidas”, complementou o ministro.

Os deputados federais Marcel van Hattem (Novo-RS) e Guilherme Derrite (PP-SP) também endossaram o questionamento de Bolsonaro. “Por que David Uip não respondeu sim ou não à pergunta do Datena?”, disse Van Hattem. “E aí, David Uip? Tomou ou não tomou a cloroquina?”, publicou Derrite.

Saiba logo no início da manhã as notícias mais importantes sobre a pandemia do coronavirus e seus desdobramentos. Inscreva-se aqui para receber a nossa newsletter

Um pouco antes, na madrugada desta terça-feira, o deputado estadual Gil Diniz (PSL-SP), conhecido como “Carteiro Reaça”, próximo ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), afirmou, sem apresentar provas, que Uip, assim como o prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando (PSDB), e o cardiologista Roberto Kalil, foram tratados com hidroxicloroquina – apenas o prefeito, em entrevista a VEJA, confirmou ter usado o medicamento.

Continua após a publicidade

– Orlando Morando, ex-líder do PSDB e atual Prefeito de São Bernardo do Campo,

– Roberto Kalil, cardiologista do Sírio-Libanês, médico de Lula e DILMA e Temer,

– David Uip, infectologista e membro do governo Doria,

Todos salvos do Covid19 e tratados com Hidroxicloriquina.

Continua após a publicidade

— Gil Diniz (@carteiroreaca) April 7, 2020

Além de Diniz, os deputados federais Éder Mauro (PSD-PA) e Carla Zambelli (PSL-SP), dois conhecidos bolsonaristas na Câmara dos Deputados, compartilharam o trecho da entrevista de David Uip a Datena para questionar por quais motivos o infectologista se negou a responder à pergunta. “Se o David Uip tomou hidroxicloroquina para se tratar do coronavírus, qual seria o problema de dizer que tomou?”, escreveu Zambelli.

Se o David Uip tomou hidroxicloroquina para se tratar do Coronavírus, qual seria o problema de dizer que tomou? 🤔pic.twitter.com/VxTQIcWjEb

— Carla Zambelli (@CarlaZambelli38) April 7, 2020

Continua após a publicidade

Resistência de Mandetta

A aplicação da hidroxicloroquina motivou uma espécie de cabo de guerra entre o ministro Luiz Henrique Mandetta e o presidente Jair Bolsonaro. Enquanto o comandante da pasta da Saúde defende a conclusão de testes e estudos que atestem a eficácia do medicamento no combate ao coronavírus, Bolsonaro afirmou, diversas vezes, que a alternativa é eficaz.

Nesta segunda-feira 6, pouco depois da incerteza sobre a sua permanência no cargo, Mandetta afirmou, em coletiva de imprensa no Ministério da Saúde, que foi pressionado por dois médicos a assinar um decreto para liberar a hidroxicloroquina.

“Me levaram, depois da reunião lá, para uma sala com dois médicos que queriam fazer protocolo de hidroxicloquina por decreto. Eu disse a eles que é super bem-vindo, os estudos são ótimos. É um anestesiologista e uma imunologista que lá estavam”, disse o ministro. – [Eu disse] Que eles devem se reportar a você [referindo ao secretário Denizar Vianna, de Ciência e Tecnologia da pasta] e que eles devem, nas sociedades brasileiras de imunologia e anestesia, fazerem o debate entre os seus pares. Chegando a um consenso entre seu pares, o Conselho Federal de Medicina e nós aqui do Ministério da Saúde, a gente entra. A gente tem feito isso constantemente”, acrescentou.

 

Fonte: veja.abril.com.br/blog/maquiavel/com-david-uip-na-mira-cloroquina-vira-arma-ideologica-do-bolsonarismo