PM acusado de matar Marielle raramente era visto em condomínio

Reservado e discreto. As palavras são usadas por um morador do condomínio de casas no número 3.100 da Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, para definir o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa.

Lessa foi preso na terça-feira (12), suspeito de assassinar a vereadora Marielle Franco e o motorista dela, Anderson Gomes. Outro denunciado, Elcio Vieira de Queiroz, que teria conduzido o carro na noite do crime, também foi preso, além de Alexandre Mota de Souza, amigo de infância de Ronnie e morador do apartamento onde foram encontrados 117 fuzis desmontados.

Um morador do condomínio de Ronnie, o Vivendas da Barra, onde o presidente Jair Bolsonaro também tem casa, conversou com o G1 sob condição de anonimato. Ele contou ter visto poucas vezes o sargento no local. Em dois anos, diz ele, foram apenas três as oportunidades em que efetivamente notou a presença do policial.

A família do praça aposentado segue a mesma linha. No entanto, a mulher e supostamente os dois filhos de Lessa eram mais facilmente vistos por vizinhos e funcionários. Ainda assim, não era comum vê-los interagindo com outras pessoas do condomínio.

Segundo o morador, Lessa não costumava ir à praia, embora o conjunto de casas fique em frente a um ponto privilegiado da faixa de areia. O sargento, disse a pessoa, também não era chegado a confraternizações.

A última vez que esse morador teve notícia de alguma festa na casa de Lessa foi no início deste ano, quando viu ocorrer um churrasco. A pessoa não soube dizer, porém, se Lessa estava na festa.

Duas características fizeram com que o morador reconhecesse Lessa assim que viu as imagens do policial na televisão, na manhã desta terça-feira: o rosto marcante e a informação de que o sargento não tinha uma perna.

A casa de Lessa é considerada simples, não tão luxuosa quanto outras do condomínio. Inclusive, disse o morador, uma das telas antimosquito da casa caiu durante um vendaval no Rio e assim ficou por um bom tempo, sem ser consertada.

A residência destoa dos luxuosos carros do sargento. Um deles, um Infiniti avaliado em R$ 120 mil, foi apreendido e levado para a Delegacia de Homicídios da Capital, também na Barra da Tijuca.

Finanças investigadas

A polícia investiga movimentações suspeitas nas contas de Lessa. Os investigadores também apuram se o patrimônio de Ronnie é compatível com a renda que ele tinha.

Considerado um exímio atirador, Lessa atuava como atirador de elite da corporação em algumas operações. De acordo com as investigações, depois de deixar a PM, em 2009, após perder a perna em um atentado a bomba, em Bento Ribeiro, o policial reformado teria passado a usar essa habilidade a serviço do crime organizado.

“Lessa é um policial militar reformado. O nome dele não surgiu única e exclusivamente a partir desse homicídio da Marielle e do Anderson. O nome dele já era conhecido em algumas investigações com relação a contravenção”, disse Simone Sibílio, promotora de Justiça e coordenadora do Gaeco.

De acordo com o MP, as investigações em curso buscam saber se Lessa seria um mercenário. “Se investiga também isso. É uma informação nova. A gente pode dizer que o nome dele já surgiu com relação a alguns outros homicídios mercenários, sim”, completou Sibílio.

Carro de Ronnie Lessa foi levado para a DH — Foto: Nicolás Satriano/G1

Carro de Ronnie Lessa foi levado para a DH — Foto: Nicolás Satriano/G1

Ronnie Lessa foi homenageado na Alerj

Então terceiro-sargento da PM, Lessa recebeu uma moção de congratulações, aplausos e de louvor no fim do ano de 1998.

A homenagem foi do ex-deputado Pedro Fernandes Filho, já falecido, que era avô de Pedro Fernandes Neto (PDT), outro ex-parlamentar estadual que atualmente é secretário de Educação do governador Wilson Witzel (PSC). O autor da moção também é pai da vereadora Rosa Fernandes (MDB).

Segundo a família do ex-deputado, na época foram homenageados todos os 18 policiais do batalhão de Irajá (9º BPM) que realizaram uma prisão.

No texto, protocolado em 23 de novembro daquele ano, Fernandes justifica o prêmio pela maneira como Lessa e os outros policiais vinham “pautando sua vida profissional como policial militar do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM)”.

Fonte: G1