‘Os novos populistas usam a União Europeia para minar a democracia’

A Europa enfrenta o momento mais preocupante desde a Queda do Muro de Berlim e o fim das ditaduras comunistas, em 1989.

A afirmação é feita pelo historiador de Oxford Timothy Garton Ash, autor de “Nós, o povo” e “A Lanterna Mágica“, sobre as revoluções que, 30 anos atrás, levaram ao colapso do sistema socialista.

Em entrevista a VEJA de Berlim, onde participa das comemorações pelos 30 anos da Queda do Muro, Ash afirma que os novos autocratas estão utilizando o dinheiro da União Europeia para minar a democracia.

Você cobriu os acontecimentos que levaram à Queda do Muro de Berlim e hoje volta à cidade. O que mudou?

Berlim transformou-se completamente. Já não existem mais vestígios de todo o aparato de vigilância montado pela Alemanha Oriental, que chegou a ser o maior do mundo. Também já não se vê mais a profusão de canteiros que dominaram a paisagem durante a reconstrução. Berlim hoje é moderna, limpa e multicultural. O que noto, no entanto, é que a mudança mais complexa ainda não foi concluída: a cabeça das pessoas. Ainda não se superou as consequências psicológicas daquele estado totalitário.

O que deu errado na integração dos países que abandonaram o socialismo?

Naquela época, prevíamos que as décadas seguintes seriam muito difíceis, por que não só na Alemanha, como em todos os países do leste já não existiam mais entidades da sociedade civil, ou um judiciário independente, por exemplo. Tudo foi reconstruído praticamente do zero, e houve boa taxa de sucesso. Mas subestimou-se o choque no cotidiano do cidadão comum. De uma hora para outra, toda a rede de proteção conhecida, como o estado e a família, implodiram. Há uma frustração enorme.

É esse ressentimento que explica a ascensão da extrema-direita na região?

Sim, totalmente. Hoje você vê partidos como o Alternativa para a Alemanha (AfD) cada vez mais populares. É aterrorizante. Voltaram a circular em cidades como Dresden, Leipzig e Chemnitz discursos idênticos aos dos anos 1930, o auge nazista. É uma rebelião contra os valores ocidentais, como o multiculturalismo, o liberalismo e a globalização.

Os cidadãos que hoje se insurgem são mais pobres que seus pares da Europa Ocidental?

Não vejo a atual onda populista como resposta ao capitalismo ou à crise. Muito pelo contrário. Veja bem, 75% dos moradores da Saxônia se dizem satisfeitos com sua situação econômica. Esse estado foi parte da Alemanha Oriental e hoje dá amplo suporte aos partidos nacionalistas. O que acontece, então? A rebelião é contra os valores. Essas sociedades foram forçadas a absolver os princípios do Ocidente, o que incluiu a revolução digital, os direitos LGBT, o casamento gay, o feminismo, a liberdade religiosa, os muçulmanos. É contra isso que se rebelam.

Por que a xenofobia é tão disseminada em todo o centro-leste europeu?

Esse talvez seja o resquício mais grave do totalitarismo dos tempos comunistas. Os moradores da Polônia, República Checa, Hungria foram mantidos por décadas isolados dentro Cortina de Ferro. Não só não viajam para o exterior, como não conviviam com cidadãos de outros países. Era uma sociedade extremamente homogênea, algo impossível de se reproduzir num país liberal. Logo, ainda hoje a diferença assusta muito.

Você diz que a presidência de Viktor Orbán, na Hungria, é o caso político mais grave na Europa atual. Por quê?

Viktor Orbán é uma desgraça e a Europa precisa urgentemente enfrentar essa questão. Orbán amordaçou a oposição, controla os meios de comunicação e destruiu a independência do judiciário. O problema maior é que ele fez tudo isso sob o silêncio da União Europeia. Orbán utiliza os recursos de financiamento do bloco para fortalecer seu corrupto governo. E os governos da UE nada fizeram para impedi-lo. Hoje, a Hungria sequer é um país democrático. Mas a Europa terá de enfrentar essa desgraça do populismo. É a maior ameça que o continente enfrenta desde o fim das ditaduras comunistas.

Fonte: veja.abril.com.br/mundo/os-novos-populistas-usam-a-uniao-europeia-para-minar-a-democracia