O peso da idade

Durante as derradeiras semanas das eleições que levaram Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, um quarto da população em idade votante no país visitou sites disseminadores de notícias falsas — tanto a favor do republicano como de sua rival democrata, Hillary Clinton. Com as redes sociais, sobretudo o Facebook, servindo então como o principal veículo de acesso aos portais de mentiras e invenções, surgiu a questão: quais seriam as faixas etárias campeãs no compartilhamento desse tipo nocivo de conteúdo? Um estudo realizado em conjunto pelas universidades de Princeton e de Nova York (NYU), publicado no início deste mês na revista Science Advances, trouxe uma conclusão algo curiosa: indivíduos com mais de 65 anos têm maior tendência a compartilhar notícias fabricadas por terceiros quando comparados aos mais jovens.

O grupo de pesquisadores, formado por cientistas políticos, analisou 1  200 perfis no Facebook para descobrir o que eles compartilharam ao longo daquela fase do pleito americano. Revelou-se que os mais velhos espalharam sete vezes mais fake news, em comparação com a faixa de 18 a 29 anos. Além disso, 11% dos idosos distribuíram lorotas, ante 3% dos jovens. A boa notícia é que 90% dos pesquisados não fizeram nada disso.

11% dos usuários de redes sociais com mais de 65 anos compartilharam fake news





3% é o índice daqueles com idade entre 18 e 29 anos que revelaram o mesmo hábito





7 vezes mais textos com mentiras foram enviados, no total, pelos mais velhos, em comparação com os mais jovens





“São muitos os motivos para que os mais velhos sejam suscetíveis às notícias falsas”, declarou a VEJA o cientista político Andrew Guess, da Universidade Princeton e um dos autores do trabalho. “Já é certo, porém, dizermos que os nativos digitais, que nasceram e cresceram com as novas tecnologias, apresentam maior habilidade de peneirar o que veem nas redes.” Segundo Guess, é preciso considerar também que “os idosos vieram de uma época em que estavam acostumados a confiar no que liam”. A aderência às novidades digitais parece estar atrelada à capacidade de distinguir o que é crível. O próprio estudo afirmou que, quanto mais se visitam mídias sociais e quanto mais se compartilham links por meio delas, menor é a tendência a cair no conto das invencionices.

Seja lá o que pese mais para a disseminação de mentiras na web, ninguém duvida que sua contenção é urgente. Assim como nos EUA de Trump, o Brasil de Bolsonaro teve as eleições marcadas pela proliferação de notícias falsas. Segundo relatório da empresa de cibersegurança PSafe, entre julho e setembro de 2018, 4,8 milhões de fake news circularam pelo país. Dessas, 46% eram de cunho político. Diante desse cenário, as redes sociais tentam criar medidas coibidoras. Na semana passada, o WhatsApp, que pertence ao Facebook, reduziu a quantidade de destinatários de mensagens a ser compartilhadas de vinte para cinco pessoas. No entanto, para o psicólogo Cristiano Nabuco, do Grupo de Dependência Tecnológica da USP, o que poderia conter as fake news não seriam os sites, e sim os usuários: “Está com eles a responsabilidade de refletir sobre os posts antes de fazer qualquer ação”.

 

Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2019, edição nº 2619

imagem15-02-2019-11-02-35
Envie sua mensagem para a seção de cartas de VEJA Qual a sua opinião sobre o tema desta reportagem? Se deseja ter seu comentário publicado na edição semanal de VEJA, escreva para [email protected]