O inferno do patriarca Trump na Casa Branca

Acaba de sair O Cerco, Trump Sob Fogo Cruzado, o novo livro de Michael Wolff, autor de Fogo e Fúria – Por Dentro da Casa Branca de Donald Trump. O Cerco apresenta uma Casa Branca ainda mais caótica do que a revelada no best-seller de 2018, que vendeu mais de 4 milhões de exemplares.

No primeiro livro, as portas da Casa Branca foram abertas pelo próprio presidente. Donald Trump, que não desgruda da TV, ficou feliz porque assistiu Wolff na CNN criticando um âncora pela cobertura negativa que ele recebera depois da eleição de 2016.

Wolff respondeu que queria escrever um livro sobre os 100 primeiros dias da presidência, e Trump teria respondido: “fale com a minha equipe.”  O jornalista nova-iorquino passou meses sentado num sofá na Casa Branca, esperando por entrevistas e anotando tudo o que testemunhava, sem ser notado pela equipe pequena e amadora do presidente.

Em O Cerco, além de não ter tentado falar com Donald Trump, Wolff se apoia vastamente em outro personagem que foi banido da Casa Branca. Steve Bannon, o ex-estrategista político de Trump, acabou demitido, em parte, porque soltou o verbo contra o presidente e sua família em Fogo e Fúria e tornou-se a fonte de fofocas e de análises políticas que Wolff publica sem questionar neste novo livro.

O resultado mostra um presidente mais isolado e fora de controle depois de ter demitido inúmeros membros do gabinete e altos funcionários. O Cerco retrata Trump como um homem instável e sabotado pelos próprios assessores, que pouco trabalha e que, apesar de ter escapado da investigação do procurador especial Robert Mueller, teme as múltiplas investigações sobre suas empresas. Wolff chama o presidente de “vil e ridículo” e prevê que ele vai se autodestruir.

A seguir, um trecho do capítulo 4 de O Cerco, Trump Sob Fogo Cruzado, editado no Brasil pela Editora Objetiva:

“Quando a bolha de Trump se abria e algo que não era adulação adentrava, alguém precisava levar a culpa – e, possivelmente, ser despedido.

Mas, de modo geral, a bolha continuava fechada. Uma consequência das dificuldades jurídicas crescentes de Trump era que cada vez mais gente, temerosa de ser exposta àquelas questões, evitava falar com o presidente sobre os problemas dele. Muitos de seus amigos da madrugada que trabalhavam no setor imobiliário – Richard LeFrak, Steven Roth e Tom Barrack compunham a voz de certo grau de realidade e praticidade – tinham medo de ser convocados por Mueller.  A bolha de Trump estava menor e mais impenetrável: ele acabava, de noite, na cama comendo seu chocolate predileto – Three Musketters – enquanto conversava com um subserviente e tranquilizador Sean Hannity.”

Trump só podia fazer parte de uma organização que lhe dedicasse uma devoção genuína; não conseguia imaginar outro tipo. Ele insistia que a Casa Branca funcionasse mais como as Organizações Trump, uma empresa feita para sua satisfação e comprometida em saciar e servir a seus interesses peripatéticos e impulsivos. Os hábitos empresariais de Trump eram inteiramente autocentrados e não voltados para o cumprimento de tarefas ou baseados em sistemas organizacionais. Ter um foco externo, ou qualquer tipo de foco não era sua preocupação ou método. Apesar da mágoa que às vezes o tomava de noite, Trump chegava tarde no gabinete e, na maioria dos dias, fazia uma série de encontros encenados com uma pessoa ou um grupo no Salão Oval ou na Sala Roosevelt, sempre com o objetivo de elogiá-lo, parabenizá-lo e distraí-lo.  Como a equipe já sabia muito bem àquela altura, Trump distraído era Trump feliz. Quando o presidente estava distraído, a Casa Branca e o Poder Executivo, em geral, ficavam felizes também. Nesse ambiente favorável, os políticos e burocratas profissionais conseguiam progredir no trabalho no qual Trump não se interessava – e ele não se interessava pela enorme maioria do trabalho que faziam.”

 

Fonte: veja.abril.com.br/mundo/o-inferno-do-patriarca-trump-na-casa-branca