Negro, periférico e cheio de suingue: você precisa conhecer Allan Abbadia

Você precisa conhecer Allan Abbadia. Talvez já tenha ouvido a música dele, aliás. Trata-se de um dos grandes talentos brasileiros do trombone. Segundo ele próprio, são para lá de 400 gravações de pelo menos 200 artistas e grupos em pouco mais de uma década.
O nome do seu primeiro trabalho solo, recém-lançado, é Malungos, todo instrumental, embora as três composições do disco feitas em parceria tenham também letras.

São nove faixas de muita brasilidade do mais alto nível. Sem dúvida, o disco entra na lista dos grandes do gênero lançado esse ano.
“O trabalho surgiu de uma necessidade de falar das minhas referências, como músico brasileiro, negro e periférico. O disco é um olhar para minha construção musical, minha ótica, meu questionamento”, diz, citando que com o álbum ele vai além do acompanhamento do “discurso” dos artistas com quem trabalha.

Referências com a história
As músicas dialogam com a sua história. O trabalho é aberto com Choro pro Moura, uma homenagem ao clarinetista e saxofonista Paulo Moura, que o influenciou.

A segunda faixa é Madrugada, em parceria com o brilhante compositor Douglas Germano.

“É um dos grandes instrumentistas da música brasileira. Irrequieto, arranjador criativo, além de compor com fluidez e originalidade. Profundo conhecedor da música. Confirma o legado dos grandes instrumentistas e orquestras que já tivemos”, afirma Germano.

A seguinte, Deixa, é com Moacyr Luz, um dos artistas que ele acompanha há algum tempo e um dos seus maiores incentivadores.

“Primeira vez que ouvi me encantei. Incorporei ele aos meus shows. Trombone é um instrumento carioquíssimo, por causa da gafieira, do choro. Allan tem um dom de improvisar com delicadeza, sem ser mecânico”, define Moacyr Luz.

A quarta música “fala do meu cotidiano como morador da periferia”: De Itaquera a Madalena nasceu dentro do trem e retrata essa migração diária da cidade para bairros mais nobres, como a Vila Madalena, na capital paulista.

A faixa seguinte é uma gafieira e chama-se Bico de Sinuca. “Trago as referências da Orquestra Tabajara, Raul de Barros, Silvério Pontes e Zé da Velha”. Já Baião aos Malês leva à tona a Revolta dos Malês.
O disco encerra com Pretos Novos, Cais do Valongo e Lamentos no Valongo (esta última em parceria com Allan da Rosa). “São a alma do disco”, afirma Abbadia, pela clara relação com a história do negro no Brasil.

O trombonista é resultado de política pública
“O trombone está presente na música brasileira desde sua formação. No Rio de Janeiro tivemos grandes nomes no século 19, como Candinho do Trombone, autor de mais de 600 choros; Irineu de Almeida que foi professor de Pixinguinha”, conta.

Allan Abbadia relaciona a participação do trombone em vários gêneros musicais no país, do frevo ao samba.

“Lançar Malungos tem sido libertador e desafiante, num momento em que a linguagem do instrumento caminha mais em direção ao jazz, à música americana. Um disco de trombone, mas também de batucada, que tenta propor uma reflexão e uma contrapartida também à forçada americanização da linguagem do instrumento”.

O trombonista reconhece o desafio da música instrumental, mas vê também como elemento provocador, embora com caminhos menos previsíveis.

“Uns vão querer saber onde é o Valongo, outros sobre os Malês. Um amigo me falou que De Itaquera a Madalena tem cara de trem lotado. Ele faz esse percurso todo dia. O disco é uma folha em branco com temas sugeridos”.

Abbadia ressalta que é fruto das políticas públicas. Estudou música no Projeto Guri e em duas escolas estaduais: a Universidade Livre de Música e o Conservatório de Tatuí.
Fonte e foto: Carta Capital