Ministro de Defesa de Israel renuncia por causa de cessar fogo com Hamas

O ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman, anunciou sua renúncia nesta quarta-feira (14) em protesto contra o cessar-fogo com o Hamas, firmado ontem com a intermediação do Egito. Lieberman descreveu o acordo como uma “capitulação ao terror”.

Sua saída enfraquece a coalizão do governo conservador do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu. O Hamas celebrou a renúncia de Lieberman como uma “vitória” política.

“Se continuasse no cargo, não conseguiria olhar os moradores do sul nos olhos”, disse Lieberman, referindo-se aos israelenses expostos nos últimos dias a ataques de foguetes lançados pelo Hamas e outros grupos aliados da Faixa de Gaza.

Lieberman disse que sua renúncia entrará em vigor 48 horas depois que entregar uma carta formal a Netanyahu e implicará também no seu desligamento do partido de extrema-direita Israel Beitenu da coalizão de apoio ao governo. Com essa decisão, Netanyahu ficará com 61 dos 120 assentos do Parlamento a apenas um ano da próxima eleição.

O partido israelense Lar Judaico ameaçou deixar a coalizão de governo se seu líder e ministro da Educação, Naftali Bennett, não for escolhido para a Defesa. Sem esse apoio, o governo será obrigado a convocar eleições antecipadas.

“Agora é o momento de confiar a Naftali Bennett e ao Lar Judaico a pasta de Defesa”, disse a deputada Shuli Moualem, chefe da facção parlamentar do partido, à televisão estatal Kan.

Um porta-voz de seu partido de direita, o Likud, minimizou essa possibilidade e disse que o próprio Netanyahu assumirá a pasta da Defesa. Comentaristas políticos israelenses especulam que Netanyahu, apesar de seus altos índices de, poderia  poderia antecipar a eleição para contornar o risco de futura derrota.  Seu governo tem sido alvo de diversas investigações de corrupção.

“Não existe necessidade de fazer uma eleição durante este período delicado para a segurança nacional. Este governo pode durar até o fim”, disse o porta-voz do Likud, Jonatan Urich, no Twitter.

Lieberman tem defendido ações militares duras contra o Hamas, movimento islâmico dominante em Gaza. Em seu pronunciamento, informou ter se oposto à permissão de Israel ao ingresso de US$ 15 milhões do Catar na Faixa de Gaza, para o pagamento de salários atrasados de funcionários públicos. Para o ministro, esse dinheiro acaba nas mãos “das famílias dos terroristas que estão tentando atacar Israel o tempo todo”.

“Estamos dando dinheiro aos terroristas em Gaza. Isto não pode continuar”, alegou Lieberman.

A base de eleitores de Lieberman, nascido na antiga União Soviética, é composta por imigrantes de língua russa,  simpatizantes da direita e seculares, que compartilham a hostilidade contra a minoria árabe de Israel e a autoridade religiosa exercida por partidos judeus ultraortodoxos.

Lirberman foi ministro das Relações Exteriores antes de assumir a pasta da Defesa, em maio de 2016.

Terremoto político

O porta-voz do Hamas, Sami Abu Zuhri, considerou a saída de Lieberman como um “terremoto no ambiente político da ocupação” israelense gerado nos territórios ocupados. “A renúncia de Lieberman é um reconhecimento de derrota, fracasso e impotência diante da resistência palestina. É uma vitória política para Gaza, que teve sucesso em sua perseverança”, afirmou.

Sites na internet vinculados ao Hamas comemoraram o fato de que Lieberman queria “assassinar fisicamente” seu líder, Ismail Haniye, mas o agora “acabou sendo assassinando politicamente pela resistência palestina armada”.

Entre segunda e terça-feira, o Hamas e as milícias palestinas da Faixa de Gaza lançaram mais de 460 foguetes contra Israel como resposta a uma incursão militar israelense no território, na noite de domingo. A invasão terrestre foi um fracasso e resultou na morte de sete milicianos palestinos e de um soldado israelense.

O Exército israelense respondeu com ataques contra mais de 160 alvos militares na Faixa de Gaza. Nesta terça-feira, Lieberman defendera a continuidade desse contra-ataque e uma ação militar contundente contra o território palestino.

A tensão entre Israel e os palestinos da Faixa de Gaza aumentou desde o início da Marcha do Retorno, em março passado. Trata-se de manifestações permanentes para reivindicar o regresso de palestinos expulsos depois da criação do estado de Israel, em 1948.

Pelo menos 228 palestinos da Faixa de Gaza morreram desde 30 de março vítimas da artilharia israelense. As mortes ocorreram principalmente durante as manifestações, mas também em ataques israelenses em resposta aos lançamentos de foguetes e de balões incendiários. Do lado israelense, foram contabilizados dois soldados mortos.

Israel, assim como a União Europeia e os Estados Unidos, considera o Hamas uma organização terrorista e mantém em Gaza um bloqueio por terra, mar e ar desde que o grupo assumiu o controle do território, em 2007.

(Com Reuters e EFE)