Sem investimento na ciência e indústria nacional, estrangeiras lucram com nossa biodiversidade – Hora do Povo

Pesquisa da UnB sobre reagente que mata mosquito da dengue está sob risco – Foto: Reprodução/TV Globo

Com falta de investimento nacional, governo federal permite que indústrias farmacêuticas estrangeiras lucrem com remédios que saem da biodiversidade brasileira e ao promover cortes e mais cortes na Ciência e Tecnologia, Bolsonaro compromete a produção de conhecimento e a possibilidade de desenvolvimento da cura de diversas doenças.

Reportagem do Fantástico, da TV Globo, no último domingo, escancarou a crise da pesquisa e da indústria de fármacos nacional. Logo no início, os espectadores tomam conhecimento que foi da peçonha da jararaca brasileira que saíram dois dos remédios mais vendidos do mundo contra a hipertensão e problemas cardíacos, o Captopril e o Enalapril, mas quem detém as patentes desses remédios são indústrias estrangeiras, que faturam o equivalente a R$ 55 bilhões por ano com a venda somente desses remédio. Esse valor representa nove vezes o orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 2021, que foi de R$ 6 bilhões.

Segundo o pesquisador paraibano, Emerson Queiroz, da Universidade de Genebra, há mercado e matéria prima de sobra o que falta para a biodiversidade brasileira se converter em riqueza que fique no Brasil é ‘estratégia’. “Educação é estratégia, desenvolvimento de tecnologia e capital humano é estratégia. São estratégias para um país se desenvolver”, afirmou em entrevista ao Fantástico.

Emerson Queiroz trabalha na Suíça há dez anos e foi convidado pela renomada revista científica alemã ‘Planta Médica’ para coordenar uma edição especial sobre a biodiversidade brasileira e afirmou: “Os meus amigos alemães ficaram muito surpresos porque não imaginavam que iam encontrar aquele nível de pesquisa sendo realizada no Brasil”, todos em universidades públicas.

Assim como Emerson, a pesquisadora Laila Espíndola, da Universidade Federal de Brasília, também trabalha a partir da biodiversidade brasileira.

Durante 23 anos, Laila Espíndola estudou na UnB as substâncias que plantas do Cerrado produzem para se defender, inclusive contra insetos. Daí veio a ideia de derrotar um grande inimigo da saúde pública no Brasil, o mosquito Aedes.

Números do Ministério da Saúde mostram que este ano, só até o fim de agosto, 465 mil brasileiros caíram de cama com dengue, 79 mil com chikungunia e 4.300 com zika vírus. Mas o número de doentes pode ser muito maior. Num boletim do ano passado o Ministério da Saúde admitia a subnotificação. Ocupadas com covid-19, as equipes não conseguem levantar todos os casos das doenças transmitidas pelo Aedes, para as quais não existem vacinas.

Prefeituras e governos fazem o que podem com o fumacê que é caro e ineficiente, pois só matam o mosquito adulto. “Esses produtos costumam não ser seletivos, serem muito tóxicos não só para o ser humano, mas também para a natureza”, afirmou Laila.

Porém, a força tarefa chefiada pela professora e pesquisadora da UnB com cientistas de várias universidades tirou das plantas do Cerrado o primeiro inseticida do mundo que só mata o aedes aegypti. E mata não só o mosquito adulto, mas também o ovo e a larva. “Vai no alvo, vai para poder matar larva, sem matar o resto que está no local onde aquela larva está, sem matar peixe ou outros seres vivos que estejam ali dentro”, explicou a pesquisadora.

Já em fase final, a pesquisa será entregue ao Ministério da Saúde ainda este ano. Existe a possibilidade concreta do Brasil se ver livre de um problema crucial a partir de uma produção saída do laboratório da UnB.

Mas mesmo tendo a maior biodiversidade do planeta, excelentes pesquisadores, o Brasil fatura muito pouco. As farmacêuticas estrangeiras é que fabricam remédios com moléculas brasileiras. Em toda a história só desenvolvemos dois medicamentos 100%  nacionais: um anti-inflamatório e um remédio contra impotência.

“É muito pouco. Sabe a gente não precisa depender de tudo de fora a gente tem competência instalada para fazer isso. Ciência é o que dá soberania nacional”, afirmou a Doutora em Ciência e professora titular do departamento de Farmacologia dos Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, Letícia Lotufo.

Segundo a pesquisadora, “a universidade não tem condições de pagar a conta do desenvolvimento de um medicamento. Ela precisa do parceiro da indústria e a indústria brasileira precisa ter perna para financiar uma pesquisa de um risco desses, então isso é uma política de Estado”.

Mas o governo nem financia a indústria nacional, nem dá mais dinheiro para as universidades. Pelo contrário, corta o orçamento do CNPq, a principal agência de fomento à pesquisa. O orçamento que era de R$ 2,7 bilhões, em 2014, e já não era grande, foi caindo a menos da metade durante o governo Bolsonaro. O orçamento do CNPq, em 2021, é de R$ 1,2 bilhão.

Parte do dinheiro do CNPQ vinha do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que perdeu 92% de seus recursos este mês de outubro. O corte de 600 milhões de reais foi aprovado pelo Congresso Nacional a pedido do governo federal, pelo Ministério da Economia. Integrante do governo, o ministro da Ciência e Tecnologia Marcos Pontes chegou a protestar numa rede social, mas recuou. O corte foi mantido e com isso, pesquisas que precisam de dez, 15 anos para serem concluídas podem parar.

“Se você tem a quebra do financiamento no meio de um projeto que você tem resultados importantes promissores a pesquisa acaba”, afirmou Adriano Andricopulo, diretor da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP), coordenador de transferência de tecnologia do CIBFar-CEPID/FAPESP e coordenador científico do INCT-BioNat.

“O tempo da política é diferente do tempo da pesquisa. Então a gente precisa de programas estratégicos que durem”, afirmou Emerson Queiroz, pesquisador da Universidade de Genebra.

O caso dos jovens cientistas é dramático. Este ano o governo só pagou uma de cada dez bolsas de doutorado e pós-doutorado aprovadas no CNPq.

Braço direito da professora Letícia, na USP, Bianca não sabe o que fazer. “Meu sonho realmente é poder ser pesquisadora no Brasil e eu tenho muito orgulho daqui também sabe. Seria frustrante ter que ir embora. Com certeza ficaria um pouco ressentida de não poder desenvolver meu trabalho aqui”, afirmou a jovem pesquisadora.

A falta de investimento do governo federal obriga que a corrente de transmissão do conhecimento que é passado de um grande mestre para o seu discípulo seja rompida. “Como se alguém mais velho que você pegasse pela mão com uma tocha numa floresta escura. Quando você interrompe esse elo tudo isso é perdido, tudo desmorona”, disse Emerson.

“Só há uma solução para a humanidade que é entender a natureza se não entender nós estamos fadados ao fracasso absoluto”, disse o pesquisador professor titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto USP, Paulo Cesar Vieira.

Fonte: horadopovo.com.br/sem-investimento-na-ciencia-e-industria-nacional-estrangeiras-lucram-com-biodiversidade-brasileira