Filme piauiense “ O Pranto do Artista “, de Weslley Oliveira, leva prêmio de Melhor Filme no Festival Visões periféricas

O filme piauiense “O Pranto do Artista”, dirigido por Weslley Oliveira, ganhou o prêmio de Melhor Filme na  Mostra Panorâmica do Festival Visões Periféricas, que aconteceu entre os dias 11 e 16 de setembro no Rio de Janeiro (RJ). O documentário, produzido pelo Laboratório de produção audiovisual LabCine, conta a história do Circo Young, da família Feitosa, que vive na periferia de Timon (MA).

Circo Young (Foto: LabCine)

No filme, pesquisador e sujeitos objetos da pesquisa interagem e se envolvem de uma forma encantadora, dando um tom híbrido ao documentário, de forma que, o público não acompanha os dramas e reviravoltas somente da família circense, mas da própria equipe que produz o longa.

A produção é fruto do Trabalho de Conclusão de Curso de Weslley, que é  formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e um dos idealizadores do coletivo LabCine. Esse não é o primeiro prêmio do jovem cineasta: o documentário Reação do Gueto (2017), de sua direção, foi premiado pelo Festival de Cinema dos Sertões, na cidade de Floriano.

Weslley atualmente está viajando o Brasil em uma Kombi. De algum lugar do país, ele concedeu uma entrevista ao Entrecultura, onde falou sobre o prêmio, o coletivo Labcine e os desafios de produzir cinema. Confere!

imagem22-09-2018-13-09-26Weslley Oliveira (Foto: LabCine)

Entrecultura: Como foi a idealização do filme “O Pranto do artista”?

Weslley Oliveira: O Pranto do Artista vem de uma necessidade que eu tinha, carregava comigo essa vontade de adentrar esse universo do circo, o que se conciliou com o TCC. Eu sempre tive vontade de fazer um documentário, descobri que tinha esse potencial, e comecei a pesquisar circo, porque queria documentar a vida de três circos de periferia, acabou que encontrei o circo da Dona Iracema, cuja história já fala por si, a gente precisava só observar.

Entrecultura: Nessa produção você trabalhou o conceito de filme híbrido. Como funcionou?

W.O: Quando eu comecei a estudar documentários me interessei por uma forma estética neutra, que é onde você tem todo um estudo, processo de imersão e relação com os sujeitos que vão ser retratados. Você adquire um olhar neutro sobre aquilo e depois da captação constrói uma narrativa de uma percepção sua, é meio que uma ficcionalização da realidade, isso define um pouco o híbrido. Tivemos vários imprevistos, tive que mudar algumas coisas para poder dialogar com o material que eu tinha e a narrativa que queria apresentar. Tinha um material enorme e optei por relacionar tudo, mostrar todo o processo de imersão, os imprevistos, nossa relação com as pessoas, isso virou um ponto forte no filme.

Entrecultura: Como foi receber esse prêmio no Festival Visões Periféricas?

W.O: Receber esse prêmio foi surreal, ainda estou processando, porque não esperava, a gente estava concorrendo com produções do Eduardo Coutinho, o cara que eu mais estudei para fazer o filme, minha referência, e a gente conseguiu ser premiado. Para mim foi um choque, na hora não entendi bem o que estava acontecendo. Fiquei muito feliz, foi um empurrão motivacional, acho que não só para mim, mas para a galera, porque mostrou que a gente pode conseguir e que nem sempre a técnica é o diferencial para ser premiado: a forma como a gente produz diz muito sobre nossa identidade audiovisual. Eu tentei assumir isso no filme, esse processo de identidade, a sinceridade com a qual apresentamos a história.  Pude ouvir dos jurados da premiação que isso foi o que marcou, foi o diferencial para que a gente conseguisse o prêmio. Eu já fiquei super motivado ao ser selecionado, e ganhar foi uma coisa bem louca. Conheci muita gente, troquei muita ideia, e quando voltar para Teresina já vou com uma carga a mais de experiência na cena. Uma premiação como essa é o que  gente precisa para fazer com que as pessoas acreditem no que a gente faz, que não encarem apenas como um hobby, uma coisa de status, estamos aí para fazer porque quer modificar o meio em que vivemos, queremos sair do lugar comum, queremos fazer a produção do cinema crescer.

imagem22-09-2018-13-09-28Cena do filme O Pranto do Artista (Foto: LabCine)

Entrecultura: O longa é uma produção do Coletivo LabCine. Como surgiu e como atua esse grupo? Quantas produções já assinam?

W.O: O Pranto do Artista surgiu no contexto do LabCine. Se não fosse o coletivo, o núcleo que se colocou para fazer, não teria conseguido, principalmente após um imprevisto, que mostramos no filme. O coletivo atualmente é um selo para o fomento à produção audiovisual no Piauí. Surgimos em 2015, eu, trocando ideia com o Marcos Vinícius, que fez comigo um curso com o Monteiro Jr., de introdução ao cinema. Quando isso se alinhou a universidade, no curso de Jornalismo, comecei a estudar mais, e foi se fortalecendo essa ideia, de produzir documentários e pensar uma forma que as pessoas se sentissem a vontade para construir. Chegamos nessa organização, que se divide entre comunidade e os núcleos de produção. A comunidade funciona através de fóruns online, onde trocamos informações, textos, fazemos encontros, e, dessa comunidade,  se formamos núcleos de produção. Você apresenta a ideia na comunidade e cria um grupo para produzir essa ideia, levando em consideração nosso contexto, a forma horizontal de organização. O LabCine se apresenta dessa forma, estamos em constante transformação, vai se adaptando. A comunidade hoje agrega umas quarenta pessoas, temos alguns projetos em curso e sete filmes já produzidos.

Entrecultura: Grandes produções estão sendo feitas por pessoas oriundas do curso de Jornalismo da UFPI. Muitas delas ingressam nessa graduação por esta ser a mais próxima do Cinema. Como foi essa experiência para você? Acha que escolas e cursos de cinema impulsionariam a produção no Piauí?

W.O: Essa questão foi uma coisa que conversamos muito no Rio de Janeiro, eu troquei ideia com alguns realizadores que se surpreenderam com o fato de no Piauí ainda não haver uma escola de cinema, eles viram o material que produzimos e não entenderam. Eu falei que Teresina tem matéria bruta para produção, o que falta é incentivo, e um curso de cinema seria a forma mais rápida de impulsionar essa cultura do audiovisual. Também falta mercado, porque não adianta as pessoas se formarem em cinema e não terem onde trabalhar e acabarem tendo que sair. Acho que o pontapé inicial já foi dado pela galera independente, que está fazendo, não está mais esperando está procurando se formar com o que aparece. Tem, o curso do Monteiro Jr, sem ele, acho que 50% das pessoas que se metem nessa loucura de fazer cinema, não estariam fazendo. Se conseguíssemos um curso de cinema em uma universidade pública ia modificar todo o contexto. Eu entrei no curso de Jornalismo querendo fazer Publicidade, mas, descobri o cinema e comecei a estudar na biblioteca, que, por sinal, tem muitos livros voltados para o audiovisual, e foi de lá  que eu tirei grande parte do conteúdo para o TCC, pesquisei fora também. O curso de Jornalismo tem algumas disciplinas que ajudam, por exemplo, essa relação com as fontes você carrega muito para o documentário, esse olhar para o social. O Jornalismo preenche certas lacunas que eu precisava e me encorajou, muitos cineastas só têm o curso de Jornalismo e passaram pelo que estou passando.

imagem22-09-2018-13-09-28

Entrecultura: O que tem a dizer para pessoas que desejam produzir cinema, mas, não sabem por onde começar?

W.O: Para quem quer produzir cinema no Piauí, primeiro, é preciso olhar o contexto, para o que a gente é, um olhar crítico. A partir desse olhar, estudar, na biblioteca da UFPI tem uma série de conteúdos, tem a internet, o LabCine também está aí… Acho que é não desistir, acreditar que temos potencial sim para fazer. É sair do lugar, do comum, parar  de olhar o cinema como aquele espaço onde você vai para esquecer da vida lá fora e depois pronto, sai da sala, vai pra casa. Parar de olhar o cinema assim e enxergá-lo como modificador da sociedade, como um espaço de diálogo, de construção crítica da realidade. O que falta mesmo é olhar para nosso contexto, nossas raízes e estudar, estudar, estudar, e hoje a gente não precisa tanto de universidade, só precisa das pessoas e das coisas que já estão aí.

 

Ficha Técnica  “O pranto do Artista”

Direção

Weslley Oliveira

Assistente de direção

Milena Rocha

Produção

Milena Rocha

Victor Santos

Weslley Oliveira

Câmerafotografia

Milena Rocha

Germano Portela

Weslley Oliveira

Marcos Vinicius

Victor Santos

Renata Fortes

Som direto

Fabrício Campos

Milena Rocha

Weslley Oliveira

Mixagem de som

Germano Portela

Maguim do Pife

Trilha sonora original

Isaar – Palhaço do circo sem futuro

Montagem

Weslley Oliveira

Legendas

Weslley Oliveira

Finalização/ Edição

Germano Portela

Weslley Oliveira