Filme ‘Bohemian Rhapsody’ tropeça na verdade em prol do drama

Em julho de 1985, o mundo assistiu, bestializado, ao show do Queen no Live-Aid, um concerto de rock na Inglaterra que arrecadou recursos para combater a fome na Etiópia. O grupo compilou, em 20 minutos, seus sucessos da última década e meia anterior, tocados com extrema sincronia entre a banda e o público, regidos por Freddie Mercury.

O show delimita a trama do filme Bohemian Rhapsody, biografia do Queen em cartaz no Brasil. O roteiro dramatiza a história contada em documentários e livros sobre a banda, como o Queen in 3D, assinado pelo guitarrista Brian May, destacando, especialmente, a trajetória de Mercury, o vocalista morto em 1991 vítima de complicações da Aids.

O cantor, interpretado no longa por Rami Malek (Mr. Robot) nasceu Farrokh Bulsara, em 1945 no Zanzibar, antigo protetorado inglês na África. Na escola, era chamado de “Freddie” pelos amigos, apelido que adotou como nome artístico anos mais tarde. Durante as décadas de 1970 e 1980, o cantor escreveu uma enorme quantidade de hits, entre eles a indefectível Bohemian Rhapsody, que dá nome ao filme.

Apesar de inspirada em uma história real, a trama do longa transforma fatos em drama à la Hollywood. Confira o que é verdade e o que é ficção na biografia:

 

Quatro dentes a mais

Teeth

Os dentes protuberantes de Freddie Mercury eram parte importante de seu icônico visual. O filme explica que o cantor teria quatro molares a mais que o normal, que empurraram os incisivos para frente. Segundo o documentário Freddie Mercury – The Great Pretender, o cantor não arrancou dentes sobressalentes com medo de que a cirurgia afetasse sua voz. Anos após sua morte, no entanto, a revista científica Logopedics Phoniatrics Vocology publicou um estudo sobre a voz de Mercury, indicando que a potência vocal do cantor vinha das cordas vocais, que vibravam de forma diferente, e não da boca.

 

O encontro de Freddie, Brian May e Roger Taylor 

Mercury May e Taylor

No filme, o jovem Freddie Bulsara conhece Brian May e Roger Taylor, então membros da banda Smile, na noite mesma noite em que o vocalista, Tim Staffell, deixa o grupo. Na vida real, Mercury fez amizade com os músicos anos antes. O cantor estudava com Staffell na Ealing Art College, em Londres, e foi apresentado pelo cantor aos demais colegas. Freddie, May e Taylor chegaram, inclusive, a morar juntos antes da fundação do Queen, em 1970. Na época, May estudava astrofísica, e Taylor odontologia.

 

O pessimista Ray Foster

Ray

O caricato empresário Ray Foster (Mike Myers), que critica Bohemian Rhapsody e diz que ninguém ouviria a música, não existiu. O personagem é baseado no presidente da gravadora EMI, Roy Featherstone, um grande fã e apoiador da banda. Ele, no entanto, acreditava que a música, de 5 minutos e 54 segundos, era longa demais para ser um single.

 

Mary Austin, o grande amor de Mercury

Mary Austin

Mary Austin foi o grande amor de Freddie Mercury. Nos anos 1970, ela era uma vendedora da Biba, uma famosa butique da Swinging London, e Freddie, um cliente habitual. Como no filme, o casal logo engatou um romance e foi morar junto. Mary chegou, inclusive, a sustentar o músico durante um período. Eles ficaram noivos, mas o vocalista do Queen frequentemente traia a companheira com homens nos longos períodos que passava fora de casa em turnê. Embora o relacionamento tenha chegado ao fim em 1976, quando Freddie fez as pazes com sua sexualidade, Freddie e Mary continuaram amigos até a morte do músico. Em entrevista em 1985, ele contou: “Todos os meus amantes perguntam porque eles não podem substituir a Mary, mas é impossível. A Mary é minha única amiga, eu não quero mais ninguém. Para mim, ela era minha esposa, vivíamos um casamento. Nós acreditamos um no outro, é suficiente”. Mercury deixou para a ex-namorada metade de sua fortuna, os direitos autorais de toda sua obra e sua mansão em Kensington (avaliada atualmente em 94,5 milhões de reais), onde ela vive até hoje.

 

 

Queen no Rock in Rio

rock in rio

O Queen foi uma das atrações principais da primeira edição do Rock in Rio, em 1985. Durante a apresentação, os presentes cantaram em coro o refrão da música Love Of My Life, que se tornou o hino do festival. Embora Bohemian Rhapsody recrie a cena, o show acontece antes do fim do relacionamento de Freddie Mercury e Mary Austin, em 1976, quando na verdade, a apresentação foi quase uma década mais tarde, próximo ao Live-Aid.

 

A difícil relação com Paul Prenter

Paul Prenter

No longa, Paul Prenter (Allen Leech) desempenha o papel de vilão. Manipulador, o assistente pessoal de Freddie Mercury nutre uma paixão pelo cantor, e trabalha para afastá-lo dos colegas de banda e seguir carreira solo. Eventualmente, o vocalista descobre as armações e demite Prenter, que, em retaliação, expõe detalhes da intimidade de Freddie à imprensa. Ainda que o filme tenha tomado algumas liberdades, o caráter manipulador de Prenter foi confirmado pelos membros remanescentes do Queen anos mais tarde. No livro Queen in 3-D, Brian May escreveu: “Ele foi certamente responsável por levar o Freddie para um caminho diferente”. Já Roger Taylor afirmou, no documentário Days of Our Lives, que o assistente: “era uma péssima influência para Freddie e para a banda”. Embora o Prenter da vida real tenha sido demitido cerca de um ano depois do Live-Aid, e não antes do show como no filme, o assistente vazou sim informações sobre a vida pessoal de Mercury para a mídia, e foi muito bem recompensado por isso. Prenter morreu em agosto de 1991 devido a complicações da Aids.

 

O fim do Queen

fim do queen

Apesar da má influência de Paul Prenter, Freddie Mercury nunca rompeu com o Queen, como mostra Bohemian Rhapsody. No filme, o cantor age pelas costas da banda e assina um contrato de 4 milhões de dólares para seguir carreira solo, levando ao fim temporário do grupo. A verdade, contudo, é bem menos dramática. Depois de anos na estrada, May, Taylor, Deacon e Freddie decidiram, em 1983, diminuir o ritmo de trabalho do Queen por um tempo, para que todos pudessem se dedicar a carreiras solos. Segundo a revista Rolling Stone, os músicos mantiveram contato durante o período, e, naquele ano mesmo, começaram a trabalhar no álbum The Works.

 

Freddie conhece Tim Hutton

Jim Hutton

No filme, Freddie Mercury conhece Tim Hutton — seu namorado no fim da vida — durante uma festa em sua casa. O garçom se recusa a ir para a cama com o músico, mas conversa com ele até o amanhecer. Anos mais tarde, Freddie procura seu nome na lista telefônica e eles começam a namorar. Embora Hutton tenha, sim, rejeitado Freddie de primeira, a cena aconteceu na boate gay Heaven. Como conta na biografia Mercury and Me, Hutton não reconheceu o superastro. Um ano e meio mais tarde, no entanto, eles se esbarraram de novo na boate e, dessa vez, o irlandês, que trabalhava como cabeleireiro e não garçom — aceitou que Freddie lhe pagasse uma bebida. O casal ficou junto até a morte de Freddie. Hutton morreu mais de vinte anos depois, em 2010, também devido a complicações da Aids.

 

“Saindo do armário”

armário

Freddie Mercury nunca assumiu publicamente sua orientação sexual. O cantor evitava o assunto até mesmo com as pessoas próximas a ele, como Mary Austin e os membros da banda. Em entrevista ao jornal britânico Sunday Times, Brian May contou que Freddie só disse que era gay “anos depois de que já era óbvio”. Não era como se ele escondesse sua sexualidade. “Os visitantes do camarim de Freddie mudaram de garotas bonitas para homens bonitos”, lembra o guitarrista. O filme explora pouco a sexualidade de Freddie, mas mostra o cantor se relacionando com rapazes — especialmente Jim Hutton, seu namorado no fim da vida. O cantor leva o rapaz para conhecer sua família, como um “amigo”. “Ele nunca falou sobre sua homossexualidade, mas nós sabíamos, e não nos importávamos” disse Kashmira Cooke, irmã de Freddie Mercury, a uma rede de TV britânica.