Estas sacadas de Bernardinho são verdadeiras aulas de liderança

Bernardo Rocha Rezende, que ficou conhecido em todo o Brasil como Bernardinho, tem várias facetas. Uma delas, claro, é mais famosa: a de treinador de voleibol. Afinal, sob seu comando enérgico no canto da quadra, as seleções masculina e feminina de vôlei trouxeram quatro medalhas olímpicas para o país (duas delas de ouro).

Mas o carioca de 59 anos tem outras atribuições. Economista de formação, ele concilia seu atual trabalho como treinador do time feminino do Sesc Rio de Janeiro com as atividades de palestrante, conselheiro do Instituto Compartilhar (que leva o esporte para crianças de comunidades carentes no Rio de Janeiro) e empresário — é dono da Escola de Vôlei Bernardinho, sócio do portal de educação online Eduk e da rede de academias Bodytech.

Essas tarefas tão diversas fizeram com que ele desenvolvesse um senso apurado de liderança — e é sobre isso que falou nesta entrevista exclusiva a VOCÊ S/A.

O que esportes e negócios têm em comum?

Nos dois mundos você tem de entregar resultados e depende de pessoas. No caso do vôlei, só trabalhamos com gente. Não há produto nem serviço, só pessoas. Mas uma empresa também precisa de time, de gente comprometida — o que eu chamo de atletas corporativos.

Toda companhia tem um time e todo time tem de ter valores. Quais são os valores que os movem? Pelos valores é possível saber quais as prioridades da equipe. Sem ego e vaidades, com preparação, treinamento, dedicação, resiliência.

Mas lidar com o próprio ego nem sempre é fácil.

Essa é a maior armadilha para times e pessoas que conquistam uma posição de liderança. Todos nós temos ego, mas precisamos mantê-lo sob controle, na dimensão correta, para que não atrapalhe nossa caminhada.

Quando você começa a se achar importante demais, deve repensar e lembrar que isso não existe. Em atividades com muita visibilidade, como o esporte, você tem os holofotes — o que é perigoso e sedutor.

Eu costumava brincar dizendo que a imprensa me fazia acreditar que, quando ganhávamos, nós éramos melhores do que realmente somos e, quando perdíamos, éramos piores.

Mas você não é tão bom nem tão ruim assim. Está em algum lugar no meio dos dois.

Como manter o ego sob controle?

É um exercício de entender que todos nós somos apenas uma ferramenta dentro de uma estrutura maior. O ego é o grande inimigo da construção de um verdadeiro time.

O mais importante é ser fiel à sua essência, leal à sua equipe e ao seu propósito. Ninguém é especial, eventualmente fazemos coisas especiais, como conquistar uma medalha de ouro.

Mas isso não nos torna insubstituíveis nem melhores do que ninguém. Somos pessoas como todas as outras. Apenas tivemos atribuições, experiências ou conhecimentos que, naquele momento, trouxeram um grande resultado.

Qual a principal lição sobre liderança que seus papéis de técnico, atleta e empreendedor ensinaram?

A competitividade do mercado brasileiro é difícil. Não é simples empreender: você perde, ganha, perde de novo e tem de seguir em frente. Há uma série de “nãos” no caminho.

Quantos empreendedores falharam antes de ver seu negócio florescer? O esporte ensina isso, que você tem de ser resiliente. Quando perder, tem de levantar a cabeça e continuar com disciplina para alcançar os objetivos.

 

Nesses momentos de dificuldade, o que fazer para engajar a equipe? 

Você só consegue motivar as pessoas­ até certo ponto. Motivação é uma coisa intrínseca. O que posso fazer como líder é dar oxigênio à sua chama.

Posso ajudar a inflamar esse propósito, mas a motivação é um processo que vem de você. Criar disciplina é mais efetivo, pois ajuda as pessoas a se manterem dispostas a fazer o que é necessário.

Como assim?

Todo dia você acorda motivado para fazer o que precisa? Não. Em alguns você está mais cabisbaixo, mas, se for disciplinado, você vai fazer. Então eu digo: até que ponto é motivação ou gerar uma lucidez sobre a disciplina?

Se a pessoa tiver consciência de que aquilo é importante, vai fazer mesmo quando estiver desanimada ou pensando em procrastinar.

Essa disciplina está relacionada ao objetivo de cada um, tem a ver com manter o sonho da medalha de ouro. “Ah, eu não estou querendo treinar hoje…”, mas olha lá o que te espera. Se a gente não fizer, não vai chegar lá.

 

Sendo treinador das seleções masculina e feminina por mais de 20 anos, você trabalhou com diversas gerações de atletas. Qual sua percepção sobre os jovens?

Essa geração mais nova é diferente. Não é melhor nem pior, eles são diferentes. O mundo mudou, as culturas mudaram, as ferramentas mudaram. Os jovens têm a informação na palma da mão. Há uma sensação de imediatismo muito grande.

A gente tem de aprender a lidar com as diferenças de gerações. Mas os valores são os mesmos. Integridade, ética e moral não mudam. O que muda é a forma de se colocar. Algumas pessoas gostam de ser desafiadas, com outras é preciso segurar um pouco.

Como perceber essas diferenças entre os membros do time?

É um exercício, não existe fórmula. Mas algumas coisas facilitam. O primeiro ponto importante é deixar de lado o ego. O segundo é ter consciência de que você não sabe tudo. Mesmo alguém com mais experiência tem de estar disposto ao aprendizado permanente.

Fora isso, precisa conhecer as pessoas, criar empatia. Eu tenho de conhecer você para poder de alguma forma me tornar um líder para você.

Meus valores podem inspirar e criar uma proximidade de interesses, mas eu tenho de conhecer você para que eu possa entender como treiná-lo melhor. Existe um processo de aprendizado, de conhecimento mútuo. Interessar-se por gente é fundamental.

Existe um limite para a proximidade com a equipe?

As pessoas têm um pensamento confuso, que é “ele é meu amigo e não meu líder”. Mas o que é um amigo? É uma pessoa que quer muito bem à outra. Assim como o líder. Liderança é o cuidado, a confiança, o suporte.

Isso é o mais importante. Mais próxima ou menos próxima, se realmente for uma relação calcada nesses princípios, no momento de tomar uma decisão dura em relação a alguém, essa pessoa vai entender que aquilo precisava ser executado.

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Os líderes têm de se relacionar como se fossem pares dos colegas, o que não vai tirá-los do objetivo de fazer o que deve ser feito. Nem sempre é agradável, nem sempre é muito popular, mas, se tem de ser feito, tem de ser feito.

Então, não acho que se deva distanciar por isso. Até porque a proximidade o faz realmente entender o que fazer para que cada pessoa seja a melhor versão dela mesma.

No esporte, costumam ocorrer dois tipos de feedback. Há o que acontece no calor do jogo e o que é feito no dia a dia de treinamento. Como aproveitar cada um deles? 

No jogo, é algo mais técnico, para lembrar a estratégia que foi definida anteriormente e melhorar a execução naquele momento. O posterior pode ter relação com desempenho abaixo ou acima do esperado e é mais geral.

Mas esse retorno é crucial. Ao longo do tempo, tento melhorar o processo para que seja mais permanente. Feed­back não é só falar, é ouvir também.

Algum episódio de feedback marcou sua trajetória?

Em 2015, nos jogos pré-olímpicos, Bruno [filho de Bernardinho] foi ao meu quarto de madrugada e falou que tinha de conversar comigo. Ele me disse: “Se você não mudar a forma de tratar essa nova geração, que é muito diferente, só vamos continuar no quase”.

Isso aconteceu num momento em que tínhamos sido vice-campeões olímpicos e vice-campeões mundiais. Eu já vinha refletindo sobre isso, mas o feed­back dele foi muito importante. Muitas vezes a gente pensa: “Como eu posso mudar a atitude daquela pessoa ou o comportamento daquele jovem?” Mas poucas vezes a gente pensa: “No que eu devo mudar?”

Como eu era um treinador vitorioso, cheio de êxito, passei a imaginar que minha metodologia fosse assertiva o suficiente e não precisasse de mudanças, só que todo mundo precisa se questionar. Esse feedback, que veio do atleta para o treinador, foi decisivo para que eu pudesse avaliar minha performance.

 

Falando sobre o Bruno, houve muita discussão quando você o escalou para a seleção brasileira. Alguns questionaram essa decisão dizendo que teria sido motivada simplesmente por ele ser seu filho.

A mídia criou um grande caso sobre isso e não foi fácil. Mas a questão era: eu não tinha de justificar minha escolha para ninguém além do meu próprio time.

Se minha equipe considerasse minha decisão um caso de favorecimento, que a escolha desse atleta tivesse sido um benefício concedido pelo pai, que é o treinador, eu perderia a condição de liderar aquele time.

A equipe já não confiaria mais em mim. Um time adulto, campeão mundial e olímpico, teria me aceitado como líder se eu tomasse uma decisão tão parcial? Claro que não.

Desde o primeiro momento, eles entenderam como algo justo e continuaram a lutar por mim. Depois, o tempo fez com que as pessoas compreendessem que a escolha foi correta, que o Bruno merecia estar ali.

Fonte: exame.abril.com.br/carreira/estas-sacadas-de-bernardinho-sao-verdadeiras-aulas-de-lideranca