Em 1969, VEJA dedicou sua reportagem de capa ao Rei do futebol

1/5 Pelé busca a bola no fundo das redes após converter o pênalti de gol de número 1.000 (Arquivo/Agência O Globo)

  • 2/5 Carregado nos braços, a partida foi paralizada para Pelé comemorar em campo seu feito memorável (Arquivo/Agência O Globo)

  • 3/5 O pênalti convertido por Pelé sobre o goleiro argentino Andrada, ajudou a equipe santista a vencer o Vasco por 2 a 1 (Arquivo//Agência O Globo)

  • 4/5 Pelé ganhou de presente uma camisa comemorativa do Vasco, com o número 1.000 nas costas (Arquivo/Agência O Globo)

  • 5/5 A bola de couro original de 1969, com a qual Pelé marcou seu milésimo gol (Leo Feltran/VEJA)

  • Pelé anotou seu gol de número 1 000 há exatos 50 anos. O feito aconteceu no dia 19 de novembro de 1969 e foi retratado por VEJA com a devida importância que o tema tinha: um momento que transcendeu as quatro linhas do gramado do Maracanã. A edição 64 da revista foi às bancas com a reportagem de capa assinada por Sílvio Lancellotti, Emílio Matsumoto e Antônio Euclides Teixeira.

    Lancellotti conta que a ideia da fotografia que ilustra a capa partiu de uma conversa entre os repórteres e os editores. Lew Parrella, diretor de fotografia da época, produziu a fotografia do homem no estúdio da Editora Abril. A edição final da imagem foi feita pelo chefe de arte George B. J. Duque Estrada.

    Com o título da reportagem “Alegrias de um futebol-festa”, VEJA descreveu o que representava o gol marcado por Pelé para o futebol brasileiro e mostrou a repercussão mundial que o feito atingiu. O marcante discurso em defesa das crianças foi definido pela reportagem como uma prova da humildade do Rei. O aumento da audiência e da relevância do esporte a partir das atuações de Pelé eram uma mostra de como o futebol crescia como espetáculo e como mercado – e era o prenúncio do que acabou acontecendo com a modalidade no Brasil e no mundo meio século mais tarde.

    O primeiro jogador a oficialmente alcançar o milésimo gol no futebol profissional também foi o personagem das Páginas Amarelas daquela edição. Pelé foi ouvido horas antes da histórica cobrança de pênalti contra o Vasco, no Maracanã, e por mais 10 minutos depois de marcar pela milésima vez.

    Confira a reportagem de capa da edição 64 de VEJA, do dia 26/11/1969:

    Alegrias de um futebol-festa

    O milésimo gol de Pelé revela o que o público quer num campo de futebol: as emoções de um grande show

    O pênalti foi o melhor prólogo para a grande festa. A torcida que viu o jogo no Maracanã, quem assistiu a partida pela televisão, quem ouviu pelo rádio, jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas, dirigentes, jogadores, todos puderam preparar-se diante da inevitabilidade do gol número 1 000.

    Edgard Andrada, goleiro do Vasco da Gama, foi quem ganhou a chance de sofrê-lo num lance quase indefensável. E o próprio Pelé teve tempo de ensaiar cuidadosamente os seus últimos gestos. Enquanto ajeitava a bola para o chute, enquanto media a distância até as traves, enquanto sentia dentro de si todos os aplausos de 70 000 pessoas que gritavam seu nome, ele teve tempo de pensar uma última vez no seu maior momento. Pelé já sabia que um enorme delírio brotaria na plateia entusiasmada com o gol número 1 000. Pelé já sabia que a bola branca se deitaria só e descansada junto às redes – esperando por suas mãos, por seu beijo carinhoso. Pelé já sabia que os seus companheiros do Santos não correriam para abraçá-lo, como sempre aconteceu 999 vezes antes – desde 7 de setembro de 1956, naquele modesto estádio do Corinthians de Santo André (SP). Pelé já sabia que os repórteres e fotógrafos não permitiriam que ele saboreasse, sozinho e tranquilo, as alegrias de sua grande festa. Mesmo assim Pelé chorou. Diante de homens e mulheres, muitas crianças, muitos estrangeiros, muita gente que nunca assistira a um jogo num estádio, diante dos microfones de quase todas as emissoras brasileiras de rádio, diante das câmeras de quase todas as cadeias de TV do país, diante de uma centena de cinegrafistas, Pelé chorou, e foi humilde: “não quero festas para mim. Acreditem que eu acho muito mais importante ajudar as crianças pobres, os necessitados. Vamos pensar no Natal dessa gente toda”. Durante dez minutos, enquanto mais de cem pessoas o cercavam para roubar suas primeiras palavras e suas primeiras fotografias, enquanto ele deslizava sobre o gramado, consagrado nos ombros de alguns jogadores, enquanto ele corria diante da plateia eufórica vestindo uma camisa do Vasco da Gama – o único time pelo qual jogou profissionalmente, além do Santos – marcada com o número 1 000 em vermelho, Pelé chorou. E continuou chorando por muito tempo ainda, num banco do vestiário que ganhou seu nome: “Eu nunca mais vou me esquecer deste dia. E agradeço a todo mundo por isso”.

    No exato momento do milésimo gol, às 23 horas e 23 minutos do dia 19 de novembro de 1969, quarta-feira, o futebol brasileiro trocava seu uniforme de esporte pela fantasia de um grande espetáculo nacional. Jornais do mundo inteiro comemoraram o acontecimento como se ele fizesse parte de suas próprias vidas. Na Espanha, a festa de Pelé foi mais cantada do que um jogo do Real Madrid. A rádio governamental italiana afirmou que “o rei do futebol havia ultrapassado todas as lendas”. O “Evening Standard” inglês gastou quase uma página inteira com o gol. No “Washington Post”, dos Estados Unidos, Pelé recebeu mais espaço do que a posse do presidente Garrastazu Medici. O “Times” de Londres e “Le Monde” de Paris, muito discretos na cobertura esportiva, publicaram longos textos sobre o jogo. E o “Juventud”, de Havana, pôs Pelé na primeira página.

    A longa perseguição – A mobilização da imprensa internacional foi uma manifestação extemporânea. Na verdade, Pelé fora perseguido pela opinião pública mundial desde que nasceu, efetivamente, a possibilidade do recorde. Principalmente nas cidades onde o Santos jogos nas suas últimas partidas, quando o cerco foi maior ainda. Na semana retrasada, Pelé chegou ao Recife para um jogo contra o campeão estadual – o Santa Cruz – pela Taça de Prata. Estava com 996 gols e os pernambucanos queriam que ele fechasse a lista contra o seu próprio time. Muita gente apanhou da polícia na porta do estádio – embora as duas TVs da cidade tivessem permissão para a transmissão direta, todos desejavam ver o jogo dentro do campo. Pelé fez dois gols. Apenas 48 horas depois, contrariando uma determinação do Conselho Nacional de Desportos (que proíbe a realização de partidas de um mesmo clube antes de um intervalo de 72 horas), o Santos encontrou um meio prático de ganhar algum dinheiro para compensar sua receita deficitária: uma partida em João Pessoa, Paraíba, na inauguração do Estádio José Américo de Almeida. Foi a maior mobilização popular acontecida no Estado, desde as agitações provocadas pelo assassínio de João Pessoa, em 1930. O jogo começou duas horas atrasado – seu começo estava marcado para as 20 horas, mas o governador João Agripino só deu o pontapé inicial às 22h. O motivo: a reunião de entrega do título de cidadão pessoense a Pelé demorou demais e os jogadores perderam o jantar. Ainda assim, Pelé não fez o seu gol 1 000 na Paraíba. Converteu um pênalti (o 999), chutou uma bola no travessão, e depois foi jogar no gol. “Eu não queria aborrecer os baianos que me esperavam para um jogo oficial. Então parei de chutar em gol. Tinha medo que os jogadores do Botafogo (o campeão da Paraíba) saíssem da frente da bola e a deixassem entrar.” Mas a Bahia também não viu o milésimo gol, embora um jornalista de Salvador faça tudo para provar que ele existiu. França Teixeira, o locutor esportivo mais popular do Estado (90% de audiência), defende sua tese: “A verdade histórica é uma só. Meu repórter de campo, o Álvaro, disse que o chute do Pelé na trave entrou dentro do gol. E eu acredito mais nele do que no juiz”. (Depois do tiro de Pelé, Jair Bala pegou a rebatida e marcou o gol do empate – 1 a 1.) Na tribuna de honra do Estádio da Fonte Nova, o governador Luís Viana Filho estava frustrado. Ele carregava consigo uma placa de ouro, celebrando o milésimo gol dentro de seu Estado — e Pelé recebeu a homenagem mesmo sem fazê-lo. De qualquer modo, o Maracanã seria mesmo o palco ideal para o maior desempenho do grande artista. Naquele estádio, o Santos conseguiu seus dois títulos mundiais interclubes (1962 e 1963). Naquele estádio, Pele viveu grandes exibições. Lá em Três Corações, onde ele nascera 29 anos atrás, um velho de oitenta anos, seu avô, pai de Dona Celeste, colava seus ouvidos num velho rádio: “Vai ser hoje, eu sonhei com o Maracanã inteirinho aplaudindo o Dico”. Três Corações, porém, parecia mais preocupada com um jogo inexpressivo do time local. ”Muita gente por aqui tem despeito do Pelé”, comentou o dono de um bar da cidade. Mas nem a indiferença dos seus conterrâneos tiraria a grande alegria de Edson Arantes do Nascimento. Mais do que o Maracanã. Toda a Guanabara e todo o Brasil viveram com ele a euforia do milésimo gol.

    Uma febre, sempre alta – Essa transformação do futebol em festa, em espetáculo, seria apenas momentânea, refletindo a alegria nacional pelo recorde de Pelé? Ou seria uma tendência nova do nosso maior esporte? Há uma verdade inegável: o futebol ganha cada vez mais adeptos. Em 1940, o campeonato paulista teve uma média de 7 762 pessoas por jogo, numa cidade com 1,3 milhão de pessoas. Em 1969, a média subiu para 13 335, enquanto que a cidade cresceu mais de cinco vezes. Embora o crescimento proporcional seja desfavorável para o futebol, muitos dados demonstram o aumento de interesse, direto ou indireto. Um deles: a pesquisa feita por VEJA, na página 57.

    A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) não conseguiu até hoje fazer um levantamento de campos de futebol no Brasil. Nem dos jogadores. Calcula-se que devem existir uns 6 000 campos oficiais, que, somados aos não-oficiais, devem dar perto de 18 000. O que leva a crer que há cerca de 1 milhão de brasileiros jogando futebol num fim de semana qualquer e, pelo menos, 30 milhões interessados nos resultados dos jogos. Um público considerável. E cada vez mais exigente. Tanto em matéria de conforto quanto na qualidade dos espetáculos. É por isso que, depois do Mineirão (belo e confortável estádio construído em Belo Horizonte), estão surgindo vários outros estádios pelo Brasil, quase todos designados também pelo aumentativo: Curitiba faz o seu Pinheirão (180 000 lugares), Natal terá o Agnelão (45 000), Maceió constrói o Trapichão (50 000), Aracaju já tem o Batistão (40 000) e Manaus se orgulha de estar levantando o Tartarugão (50 000). Há exageros: Erechim (RS) faz um estádio para 45 000 pessoas e só tem 40 000 habitantes. Mas tudo isso serve para provar a força do futebol e mostrar sua face mais recente: vestir-se pelo figurino do grande espetáculo.

    Um show em todo campo – A imprensa percebeu logo que o futebol está perdendo o caráter exclusivo de disputa, para adquirir todos os contornos pictóricos de um show. A Rádio Bandeirantes de São Paulo (primeiro lugar, segundo o IBOPE) inaugurou um novo estilo de transmissões esportivas, chamado de “futebol a cores”. O locutor titular, Fiore Gigliotti, 41 anos, mais de oitocentos jogos irradiados, diz que não adianta mais simplesmente correr atrás da bola: “Ê preciso inovar, fazer com que todas as emoções do campo acompanhem os lances da bola, A transmissão é tanto mais perfeita, quanto mais perto do campo se sentir o ouvinte”. É por isso que ele sempre abre as suas transmissões num tom bastante coloquial, dizendo, por exemplo, “que a natureza está vestida de azul”. Essa necessidade de dar uma nova dimensão ao futebol levou Joseval Peixoto, 28 anos, advogado, locutor da Jovem Pan de São Paulo (primeiro lugar junto à classe A), a criar também um novo estilo de transmissão: ele procura inventar gírias ou expressões novas a cada lance, mas raramente as repete, para não cansar o ouvinte. No momento em que ia transmitir o milésimo gol, Joseval descobriu esta frase: “Diante dos pés de Pelé, a bola está preparada para a sua consagração final”.

    A preocupação pela qualidade das transmissões e pelos índices de audiência determinou uma supervalorização do profissional de rádio. Um exemplo: Pedro Luís, 52 anos, locutor da Rádio Nacional de São Paulo (primeiro lugar junto à classe C), contratado a mais de 10 000 cruzeiros novos por mês. O fechamento de alguns jornais esportivos nos últimos tempos não demonstra que a área esteja minada. Esse fato pode ser visto apenas como consequência das dificuldades enfrentadas por todas as empresas jornalísticas, ainda que se tenha descoberto qual a preferência do leitor: um jornal que o informe sobre tudo e não apenas sobre esporte (para não ser obrigado a comprar dois jornais). Isso está provado pelos próprios jornais de noticiário geral: em Brasília, o “Correio Brasiliense” passou, a partir da última semana, a dedicar sua última página ao esporte (quase exclusivamente com noticiário de São Paulo e Rio). Em Belo Horizonte, os dois maiores jornais da cidade (“Diário de Minas” e “Estado de Minas”) triplicaram o número de suas páginas de esporte a partir de 1965. E a televisão não precisou ter muita inspiração para descobrir também no futebol um meio de elevar seus índices de audiência: as transmissões diretas (via Embratel) dos jogos do Robertão realizados no Rio, São Paulo ou Minas conseguem índices de audiência entre 75% e 80% em Brasília. Como para lá só existe um canal de transmissão, as três emissoras (TV Brasília, TV Nacional e TV Alvorada) estão em permanente disputa, ainda que a vitória signifique prejuízo certo, pois a Embratel cobra uma taxa de 6 000 cruzeiros novos, importância que nunca é coberta pelos anunciantes. A força de penetração do futebol também pode ser medida através de fatos isolados, como este: a TV Record (SP), que há tempos não transmite futebol, recontratou seu antigo locutor Raul Tabajara apenas para transmitir o jogo Santos e Coríntians, pelo Robertão, quando foi autorizado o televisionamento direto. Outro fato: 80% das emissoras que transmitiram os jogos do Brasil pelas eliminatórias da Copa do Mundo sabiam que teriam prejuízo. Porém, um prejuízo calculado: as emissoras sabem também que esse tipo de transmissão é imprescindível, não só como um meio para conservar os ouvintes como também para manter os próprios patrocinadores.

    O poder da comunicação – Se o futebol é um bom veículo de vendas, não se sabe. Mas os publicitários garantem que ele tem um grande poder de comunicação. Por isso, atualmente, há mesmo uma tendência em se valer do assunto não propriamente para vender um produto, mas, antes, torná-lo conhecido. Lançado em fins de agosto, o adesivo da Shell — com a figura de um jogador executando uma “bicicleta” — faz parte de uma campanha para ajudar financeiramente a preparação do selecionado brasileiro para a Copa do Mundo. A promoção, no caso, é mais uma questão de prestígio, segundo um alto funcionário da empresa.

    Dois novos modelos de automóveis foram anunciados através do futebol: o Opala, da General Motors, e o Dodge Dart, da Chrysler. A imagem do jogador Rivelino, do Corinthians e da seleção de Saldanha, dirigindo um Opala — que ainda não estava à venda — fazia parte de um pré-lançamento. “Nós queríamos que todos falassem do carro, e Rivelino podia forçar essa situação”, explica o publicitário Werner R. Sablowski, da McCann Erickson Publicidade, “pois ele é um jogador em evidência do Corinthians, o clube de maior torcida do Brasil.” Também em campanha de pré-lançamento do Dodge Dart, a Denison Propaganda pensou em futebol, sem usar, porém, a figura de um ídolo. Apenas uma frase: “Atenção, torcida brasileira, goooollll”. Os idealizadores do anúncio justificam: “Todos os carros haviam sido objetivados como ‘o carro’, ‘o carro de verdade’. Para ser diferente, era preciso não definir. Por isso, apresentamos o Dart como um gol, como o objetivo dos esforços de uma partida de futebol”. A Chrysler já atingiu a marca de mil Dodge Dart. Assim, seu mais recente anúncio se refere ao milésimo gol, que vale por uma homenagem também a Pele. Mas Pelé, velho figurante dos mais variados anúncios, além de autor do milésimo gol, já tem registrada em seu nome essa expressão, além da frase “mil gols”. E é bem provável que seu empresário, Mário Ramondini, já pense em cobrar os direitos pelo uso da frase. E o mesmo Pelé, segundo consta, fará em breve o maior contrato publicitário de sua vida, promovendo com exclusividade a Coca-Cola, em todo o mundo, por dois anos.

    Um meio para a política – No entanto, o futebol não promove só no mundo dos negócios. A ligação efetiva ou afetiva a clubes de futebol tem sido explorada com relativo êxito por aqueles com ambições políticas. No Recife, Alcides Teixeira, presidente da Associação Atlética de Santo Amaro (conhecido também como o “Vovózinhas”, um dos pequenos clubes da cidade), conseguiu eleger-se deputado estadual pelo PTB durante dezesseis anos. Nas últimas eleições para vereador, foi o candidato mais votado pelo MDB. Dos grandes clubes, o Santa Cruz tem fama de grande eleitor. José do Rego Maciel, seu ex-presidente, já foi prefeito do Recife. Odívio Duarte, no tempo que foi presidente do clube (de 1956 a 1959), foi eleito deputado estadual. Seu atual presidente, Aristophanes de Andrade, sempre trabalhou no clube e ganhou votos dos sócios durante as quatro legislaturas em que se mantém na Câmara de Vereadores do Recife. Em Belo Horizonte, as eleições em 1966 revelaram para a política mineira o então artilheiro do Atlético, Roberto Mauro. Foi o candidato a vereador mais votado na história da cidade, os 20 000 votos conquistados por ele dariam até para elegê-lo deputado federal. Nas próximas eleições, Roberto Mauro pretende candidatar-se a deputado estadual. Mas o mesmo futebol que o elegeu poderá ser uma pedra de tropeço: já não é mais o ídolo do Atlético, joga atualmente, por empréstimo, no Vila Nova. “Se Dario for candidato a qualquer cargo”, disse um torcedor atleticano, “nós garantimos a eleição dele, mas o Roberto Mauro está superado e já não nos dá as alegrias de antes.” Antes de Roberto Mauro, a torcida do Atlético elegeu três outros de seus ídolos para a Câmara Municipal de Belo Horizonte: Kafunga (hoje, comentarista de rádio e televisão), Afonso e Zé do Monte. Não é, porém, em qualquer lugar que a política tem o bom amparo do futebol. Em Curitiba, o vereador Maurício Fruit, do MDB, que formou sua base eleitoral entre torcedores do Coritiba FC promovendo sorteio de prêmios, é uma exceção. Outros não têm a mesma sorte, como o dentista José Milani, presidente da Federação Paranaense de Futebol há dez anos, que já disputou duas eleições (para vereador e deputado estadual) sem sucesso. O carioca, por sua vez, é o que mais resiste a esse tipo de propaganda. Lá ninguém conseguiu se eleger pelo futebol. Muitos tentaram, alguns ficaram famosos, como o técnico Flávio Costa e o jogador Danilo, do Vasco, em 1950. E a política ajuda o futebol?

    Futebol de artista – Todo o país conhece o interesse do Presidente Garrastazu Medici pelo futebol. Ele acompanhou a transmissão direta de Santos e Vasco na televisão do Palácio da Alvorada, e logo depois do milésimo gol enviou um telegrama a Pelé cumprimentando-o pelo feito. Antes mesmo da partida, a presidência já havia convidado o jogador para um jantar na próxima quinta-feira. João Leitão de Abreu, chefe da Casa Civil, presidente do Conselho Deliberativo do Grêmio, é o principal consultor de Garrastazu Medici nos assuntos do futebol. A criação de um Ministério dos Esportes tornou-se um dos seus sonhos maiores, assim que chegou ao governo. Antes disso, porém, João Leitão acredita que os nossos dirigentes deveriam organizar seus clubes e suas federações dentro dos moldes empresariais mais modernos: “Todos ganharão, pois o futebol é, comprovadamente, uma de nossas mais poderosas indústrias”. Principalmente se o jogo for tratado como um verdadeiro espetáculo, um show. Para confirmar essa nova tendência, existem as próprias homenagens oficiais que serão prestadas a Pelé: o artilheiro dos mil gols será tratado como um verdadeiro artista. Quando viajar para Brasília, Pelé provavelmente será recebido solenemente no Congresso. O Senador Mem de Sá (Arena-RS) sugeriu que Pelé fosse condecorado — como o ponta-direita inglês Stanley Matthews, cavaleiro do Império Britânico. E a própria Academia Brasileira de Letras quer homenagear o jogador, “um imortal na arte de jogar futebol”. Todas essas coisas não são uma novidade na vida de Edson Arantes do Nascimento: ele possui a Legião de Honra do governo francês, recebida na época do general De Gaulle, e o Papa Paulo VI deu-lhe audiência na biblioteca do Vaticano, honraria concedida apenas a estadistas. Sem falar nos inúmeros títulos de cidadão honorário, nos diplomas, nos monumentos — na semana passada, 77 deputados estaduais de Minas Gerais (são 78) aprovaram um projeto prevendo a construção de uma estátua a Pelé diante do Mineirão. Apesar de tudo isso, apesar de todo o dinheiro que ganhou, direta ou indiretamente, com o seu futebol de artista, Pele continuará sendo o mesmo Dico que vendia amendoins em Bauru, vinte anos atrás; o mesmo Edson que considera o pai Dondinho como o melhor homem que já conheceu; o mesmo Pelé que marcou seu primeiro gol oficial há treze anos. Quem conta a história desse gol é o ex-goleiro Zaluar Torres Rodrigues, 43 anos, quatro filhas, hoje fiscal de rendas da Prefeitura de Santo André, SP — o primeiro a ter levado um gol de Pelé: “Eu percebi que ele corria contra os beques e gritei — ‘Chuta, negrinho, chuta! Você não é de nada!’ Ele não chutou, mas passou pelos zagueiros, partiu para cima de mim e ainda me enfiou a bola por baixo das pernas”. Com esse gol nascia o astro principal de um espetáculo a que qualquer brasileiro pode assistir, em qualquer domingo, em qualquer campo. Um espetáculo com milhares de artistas onde cada um cultiva o sonho fantástico de ser um dia como Pelé.

    Um espetáculo de poucas estrelas – Um dos primeiros telegramas recebidos por Pelé depois do seu gol número 1 000 estava assinado por Tostão: “Seu milésimo gol foi o melhor colírio para mim”. Descansando em Araxá, onde foi recuperar-se da operação na vista, Tostão teria muitas razões para saudar o gol com tanto entusiasmo. Pelé considera-o um dos jogadores brasileiros de maior talento e coloca-o entre os cinco maiores do mundo. A carreira de ambos tem muitos pontos em comum: chegaram rapidamente à Seleção, tornaram-se ídolos nacionais, e ganharam, também rapidamente, muito dinheiro com o futebol. Tostão, 23 anos, sete de futebol profissional (aproximadamente trezentos gols), é também uma das poucas esperanças de que o futebol brasileiro possa ter uma outra festa de mil gols. Mas a grande maioria dos jogadores de futebol do Brasil não é sequer convidada para festas desse tipo. E poucos são os que participam, mesmo indiretamente, da mesa farta do sucesso. Quando diz que está muito rico, que em nenhuma outra profissão teria ganho tanto dinheiro em tão pouco tempo, Tostão admite que poucos têm a mesma sorte: “Em Minas, por exemplo, só Cruzeiro e Atlético pagam bem. Jogador de time pequeno vive mal. Eu, Pelé e Gerson somos mais exceção do que regra”. Quando tinha dezesseis anos, Tostão trocou o América, de Minas, pelo Cruzeiro. A proposta do Cruzeiro era de 350 000 cruzeiros velhos de luvas (as maiores luvas do futebol mineiro eram de 500 000) mas assim mesmo Tostão recusou. “Se não fosse por conselhos de minha família, eu teria aceito a primeira oferta do Cruzeiro e feito um péssimo negócio. Quando finalmente acertei meu contrato, com luvas de 1 milhão e meio, a imprensa achou um absurdo.” Contratos como esse, conseguidos pelos jogadores de maior nome, como Pelé, Gerson e Tostão, ajudaram a valorizar a profissão de jogador?

    Embora considere Pelé “o maior veículo publicitário do futebol brasileiro”, Gilmar dos Santos Neves, ex-goleiro da seleção e atual presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo, acha que Pelé não teve influência decisiva nessa valorização: “De qualquer forma, ele melhorou os salários no seu time; uma prova disso: as cotas muito maiores que o Santos recebe para jogar no exterior apenas por apresentar Pelé”. Flávio, centroavante do Fluminense, de talento discutível e muitos gols (calcula entre 650 e 670 e acha que só chegará aos mil se tiver bastante sorte), concorda. Diz que a fase dos grandes contratos coincide com a conquista das Copas de 58 e 62. A derrota em Londres, diz Flávio, desvalorizou o jogador brasileiro: “Para um profissional de nível médio, é difícil hoje surgir um bom contrato. Evidentemente isso não preocupa os grandes craques, mas para a grande maioria o mercado de trabalho está restrito”. No Rio, os clubes pequenos vivem apenas alguns meses, disputando a fase de classificação para o campeonato. Passam a maior parte do ano entre uma sonolenta falta de jogos e o angustiante problema — como pagar salários dos jogadores sem obter rendas. “Em clube pequeno”, diz o ex-goleiro Humberto, presidente da FUGAP, entidade de amparo aos jogadores no Rio, “não existe sequer assistência médica. No São Cristóvão várias vezes fui obrigado a jogar com um pedaço de jornal forrando a chuteira jurada porque o clube não tinha dinheiro para comprar uma nova.” Como presidente da FUGAP, Humberto tem acompanhado os pequenos e grandes dramas de seus companheiros: “A culpa total é dos dirigentes que não se adaptaram ainda a um futebol que deixou de lado o espírito amadorista para se transformar em futebol-empresa. Os dirigentes não cuidam da administração do clube e não se interessam pelo seu patrimônio mais importante, o jogador de futebol”. Desde que assumiu a FUGAP. Humberto afirma que nunca recebeu a visita de um dirigente para sentir o que ela representa: “Para se ter uma ideia do nosso trabalho basta dizer que só com Veludo, ex-goleiro da seleção, já gastamos mais de 60 000 cruzeiros novos, em hospital e auxílio à família. E são inúmeros os casos parecidos com o de Veludo”.

    Por que, no espetáculo do futebol, os protagonistas são tratados de forma tão diferente? A resposta, nas palavras de Tostão, um exemplo de sucesso: “Quase todos os jogadores saem de um ambiente humilde, fazem contratos de boa fé, iludidos pelos maus dirigentes, desconhecendo que no futebol há muita malandragem”. Para ele, se os clubes ainda não se adaptaram à organização empresarial (afirmam viver permanentemente em situação deficitária), a maioria dos jogadores ainda não percebeu que as relações clube-jogador são as mesmas que entre empregado e patrão: “O dirigente quer tirar o maior lucro possível em cima do jogador. Mas depois de 1958 alguns jogadores já perceberam isso”. Dá como exemplo a preocupação demonstrada por colegas seus em aplicar bem o dinheiro ganho com o futebol: “Esses não terão problemas no futuro”.

    Na casa de Mané Garrincha, o melhor exemplo dos que não aproveitaram a fama, o gol de Pelé é acompanhado pelo rádio. Pelé bate, faz o gol, Garrincha aparentemente não reage: “Ele fez, que bom”. Elza Soares comenta: “Você poderia estar lá”. Garrincha responde: “Deixa disso, o ‘crioulo’ é genial”. Na resposta de Elza Soares uma tentativa de explicação do que aconteceu com o futebol na “era Pelé”: “Mané, você tem de perder essa mania de ser o bonzinho. Se tivesse montado uma máquina publicitária, se o Botafogo tivesse a visão do Santos, era você que estava lá em cima, usando a coroa”.

     

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    Publicado em VEJA de 20 de novembro de 2019, edição nº 2661

    Fonte: veja.abril.com.br/esporte/em-1969-veja-dedicou-sua-reportagem-de-capa-ao-rei-do-futebol