Piora da Covid faz zona do euro mergulhar em recessão novamente

Foto: Yves Herman/Reuters União Europeia 30 de abril de 2021 | 18:49 economia

A zona do euro deslizou para uma recessão de duplo mergulho nos três primeiros meses do ano, em meio a uma queda de produção causada por medidas de lockdown adotadas para conter uma retomada do contágio pelo coronavírus, o que deixou o bloco econômico para trás das outras grandes economias.

O declínio de 0,6% no PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre se segue a uma contração de 0,7% no trimestre final de 2020, o que tecnicamente coloca a zona do euro em recessão que é definida como dois trimestres consecutivos de crescimento negativo.

Na outra ponta, na quinta-feira (29) os Estados Unidos anunciaram crescimento de 1,6% no primeiro trimestre, ante os três meses precedentes, e duas semanas atrás a China anunciou uma expansão de 0,6% no seu PIB.

Boa parte da Europa esteve sujeita a níveis variáveis de lockdown nos primeiros três meses do ano, o que resultou no fechamento das lojas e limitação de viagens, a fim de conter uma terceira onda de contágio pelo coronavírus.

A Alemanha foi a grande economia europeia mais atingida, registrando uma contração trimestral de 1,7%, com uma queda no consumo domiciliar que mais do que compensou o avanço nas exportações de produtos industrializados. O PIB da Espanha se contraiu em 0,5% devido ao declínio no consumo domiciliar e na indústria, e na Itália a queda de produção foi de 0,4%, puxada por atividade menor no setor de serviços. Portugal sofreu uma contração econômica de 3,3%, depois de um surto violento de Covid-19.

Mas a economia da França superou as expectativas dos economistas ao crescer em 0,4%, estimulada pelo forte crescimento do setor de construção e por uma ligeira recuperação no consumo domiciliar.

A agência de estatísticas da União Europeia, Eurostat, calculou que o PIB do bloco econômico como um todo tenha caído em 0,4%. A maioria dos economistas antecipa uma contração para a produção do Reino Unido no primeiro trimestre, quando os números do país forem divulgados no mês que vem.

Carsten Brzeski, diretor de pesquisa macroeconômica no banco ING, disse que o “grande revés” sofrido pela Alemanha no primeiro trimestre havia transformado o país de “um propulsor de crescimento” em “fator de arrasto”. Mas ele acrescentou que “deve acontecer uma recuperação forte”.

Países como a Alemanha e a França recentemente adotaram medidas mais rigorosas de contenção de contágios, diante da alta no número de infecções e internações relacionadas ao coronavírus, mas o ritmo acelerado de vacinação e os sinais de que o contágio pode ter chegado ao seu pico alimentam as esperanças dos economistas de que o crescimento retorne no segundo trimestre.

Os consumidores devem deflagrar uma onda de gastos represados assim que os países relaxarem as medidas de contenção. Os economistas da seguradora Allianz preveem que os consumidores do bloco econômico usarão parte de sua poupança excedente para consumir € 170 bilhões adicionais esse ano, o equivalente a 1,5% do PIB da região.

“A economia se provou menos elástica diante das restrições adotadas no primeiro trimestre, ante o que se viu no segundo trimestre do ano passado, e pôde operar em níveis quase normais”, disse Maddalena Martini, economista da consultoria Oxford Economics. “Vemos uma recuperação firme da atividade ao longo do ano, em paralelo com uma forte aceleração no ritmo de vacinação e com o relaxamento gradual das restrições”.

A forte queda da produção alemã se deveu a fatores extraordinários como “o vencimento de um corte temporário no imposto sobre valor adicionado, clima inclemente, e uma redução de estoques posterior ao Brexit”, disse Frank Gill, da agência de classificação de crédito S&P Global Ratings.

“Qualquer preocupação remanescente deve ser dirigida ao setor europeu de serviços –especialmente o turismo-, em economias como a Espanha. Elas até o momento demoraram mais a dar a largada na recuperação do que as economias industriais”, ele disse.

O BCE (Banco Central Europeu) prevê que a economia da zona do euro cresça em 4% ao longo do ano e retorne ao nível que mantinha antes da pandemia em 2022, com crescimento adicional de 4,1%.

“Vemos uma boa recuperação ao longo do restante do ano e, portanto, o que temos é claramente uma história com dois lados”, disse Philip Lane, economista chefe do BCE, à Dagens Industri TV, na quinta-feira.

“Em retrospecto, as semanas iniciais foram muito duras para diversas empresas. E o fato de que estejamos retornando depois de passar pelo pior não significa que exista uma recuperação plena”.

Números separados também divulgados nesta sexta-feira demonstram que a inflação na zona do euro continuou a subir, de 1,3% em março para1,6% em abril.

A retomada do crescimento de preços, depois da deflação nos meses finais do ano passado, aproximou a inflação da meta do BCE, de pouco menos de 2% ao ano, ainda que a maioria dos economistas antecipe que o aumento seja apenas temporário. A inflação base, com a exclusão dos preços mais voláteis de alimentos e energia, caiu de 0,9% para 0,8%.

O desemprego no bloco econômico caiu a 8,1% em março, ante 8,2% no mês anterior e pouco mais de 7% antes da pandemia. Mas os números do desemprego excluem milhões de pessoas adicionais que ou deixaram de procurar emprego ou são parte de esquemas de licença remunerada bancados por governos.

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Fonte: politicalivre.com.br/2021/04/piora-da-covid-faz-zona-do-euro-mergulhar-em-recessao-novamente