Como Filipe Martins virou um dos conselheiros mais próximos do presidente

A poucos metros do gabinete de Jair Bolsonaro, no 3º andar do Palácio do Planalto, a sala 315 abriga o codinome “Gabinete do Ódio” — oficialmente, Assessoria Especial. Ali opera o chefe adjunto Filipe Martins, de 31 anos, contratado para o aconselhamento do chefe de Estado sobre temas internacionais e hoje um dos mais influentes do grupo que gravita em torno do presidente. Graças à sua teia de relações com blogueiros, youtubers e editores de site prontos para o tiroteio nas redes sociais, ele cumpre a função extra de manter viva a cruzada conservadora entre a militância de extrema direita. Outros ocupantes da sala contribuem para coordenar as avalanches de ataques aos inimigos da causa — trabalho investigado na CPMI das Fake News, para a qual Martins já foi convocado. “É quase uma seita de fanáticos”, diz um observador.

Em dez meses, Martins tocou a agenda internacional na linha do confronto. O polêmico discurso de Bolsonaro na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro, trouxe sua indelével assinatura. A frase de abertura (“Apresento aos senhores um novo Brasil, que ressurge depois de estar à beira do socialismo”) e a do final (“Esta não é a Organização do Interesse Global”) saíram de sua cabeça. Partiu dele também o conselho a Bolsonaro para ir cortar o cabelo e postar um vídeo no Facebook em vez de receber o chanceler da França, Jean-Yves Le Drian, no auge da crise entre Brasília e Paris por causa das críticas às queimadas na Amazônia. A exemplo de seus antecessores, Martins acompanha o presidente no exterior, como na recente jornada por Japão, China, Catar, Emirados Árabes e Arábia Saudita. Na escala em Abu Dhabi, sua influência avessa à moderação foi notada na reação presidencial ao anúncio da vitória do peronista Alberto Fernández na eleição presidencial. “A Argentina escolheu mal”, disse Bolsonaro.

Graças a seu poder no Planalto, Martins desfruta a conivência total — se não obediência — do chanceler Ernesto Araújo. É chamado de “professor” por esse diplomata com 28 anos de carreira, que não teria se sentado na cadeira do Barão do Rio Branco sem o aval do assessor. “Filipe Martins é um homem de fé e dedicação sem par”, elogiou o ministro no Twitter. Diplomado em relações internacionais pela Universidade de Brasília há quatro anos, o “professor” só deu aulas em um curso de preparação para o exame do Itamaraty. “Este aqui é o meu mentor”, resumiu o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) a VEJA no mês passado, durante o CPAC Brasil, conferência de ultraconservadores criada nos Estados Unidos e que alcançou o país, por esforço de ambos.

O Twitter é a principal caixa de reverberação dos ideais de Martins, com 176 500 seguidores. Em sua lógica maniqueísta, de um lado está o establishment, a ser combatido — são todos os que reportam e analisam fatos e os que fazem críticas, se opõem ou não dão a mínima a seus ideais de extrema direita. Nesse pacote estão incluídos o globalismo, o politicamente correto, o marxismo, o aquecimento climático, os direitos humanos, a diversidade de gênero, a legalização do aborto, o feminismo, a agenda LGBT. De outro está o ultraconservadorismo capaz de salvar o mundo ocidental. A visão do assessor agrada a Bolsonaro e a seus filhos. “O establishment quer transformar Jair Bolsonaro em bicho-papão, quer destruir os olavetes jacobinos, os que falam e defendem a população”, disse no CPAC, em São Paulo.

De origem humilde, Martins iniciou-se na seara político-ideológica na adolescência em Votorantim, na Grande Sorocaba (SP), onde nasceu, filho único do operário goiano Carlos Pereira e de Claudilene Garcia Martins. A família havia passado um ano e meio em Porto Elizabeth, na África do Sul, onde ele aprendeu a língua africâner. Martins era ateu, orientação que reverteu anos depois ao engajar-se em um credo pentecostal. Pela internet, descobriu o escritor Nelson Rodrigues, ainda hoje seu favorito pela “abordagem brasileira do pecado”. No falecido Orkut, conectou-se nessa época com a patota contrariada com o pensamento de esquerda e chegou ao escritor Olavo de Carvalho, a quem enviou, em 2006, um e-mail no qual mencionava interesse em estudar pela sua cartilha. Os dois passaram a conversar por telefone. Três anos depois, Martins fez os cursos on-line de Carvalho e tornou-se clone do “bruxo da Virgínia” no Brasil.

O salto para o Planalto se deu pelo contato triangulado com Eduardo Bolsonaro e Olavo. Martins aproximou-se da família do capitão, tornou-se assessor da área externa do PSL e fez previsões de vitória eleitoral ainda no começo de 2018. Depois, conectou-se com o xamã do populismo de direita, Steve Bannon, que agora atua na campanha de reeleição do americano Donald Trump, e arrastou Eduardo Bolsonaro consigo. Com a iniciativa, atrelou a família presidencial ao The Movement, projeto de Bannon que visa a promover a agenda nacionalista e ultraconservadora na Europa e em outros cantos. Para Martins, a glória foi conversar olho no olho com Trump no Salão Oval, sentado relaxadamente, enquanto o próprio Zero Três e o secretário de Estado, Mike Pompeo, o observavam. “Eu admiro muito o presidente Trump”, declarou, também na CPAC.

À medida que ampliou sua sintonia com os Bolsonaro, o solteirão se cacifou como príncipe encantado das donzelas olavetes. Na CPAC, sua cara de bom moço atraiu dezenas de fãs. Pacientemente, não negou nenhuma selfie. Sua ascensão, porém, alonga a lista de inimigos em Brasília. Desafetos o chamam, pelas costas, de “Jacobino do Planalto”, “Robespirralho” — referência a Robespierre, líder da Revolução Francesa que acabou guilhotinado — e “Sorocabannon”, referência a Bannon. O general Santos Cruz, quando ainda era secretário de Governo, foi o primeiro a trombar com Martins, por causa do fanatismo ideológico, do currículo pobre e do topete de opinar sobre tudo. A intromissão do assessor na Secretaria de Comunicação e na Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex), que não lhe diziam respeito, e os tumultos causados pela “gangue digital” foram o estopim. Santos Cruz foi a Bolsonaro e pediu a cabeça do assessor. “O Itamaraty tem 1 500 diplomatas mais experientes e preparados para assessorá-lo”, argumentou. Acabou demitido em junho. A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) foi alvo de ataques pessoais de Martins ao apoiar o colega Delegado Waldir (PSL-GO) para a liderança do partido na Câmara em vez de Eduardo Bolsonaro. O assessor atreveu-se ainda a confrontar e insultar o vice-presidente Hamilton Mourão por sua visão mais pragmática e seu respeito à imprensa. “Não espero a ingenuidade de um general. A mídia é inimiga e, se ele não sabe disso, é melhor ir para o clube militar fazer churrasco”, postou no Twitter em agosto. O general preferiu não pôr lenha na fogueira.

De sua trincheira, Martins mostrou-­se generoso com outros condenados à guilhotina. Bruna Becker, sua ex-namorada, sobreviveu ao expurgo no alto escalão do Ministério da Educação, apesar de ter organizado o motim contra o então ministro Vélez Rodríguez. O assessor também ajudou quanto pôde na preservação de Leticia Catel, amiga de Eduardo Bolsonaro e de Ernesto Araújo, como gerente de negócios da Apex, até que a mudança total da cúpula da agência a impediu também de ingressar no prédio. Outro resgatado por Martins foi o diplomata Henri Carrières, que havia trabalhado na Assessoria Internacional no governo de Michel Temer e acabara na lista de “petistas” do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Genro de Olavo de Carvalho, Carrières ficou na equipe de Martins, em que a regra é: para os amigos, tudo.

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659

Fonte: veja.abril.com.br/mundo/como-filipe-martins-virou-um-dos-conselheiros-mais-proximos-do-presidente