Grito de Marielle Franco é instante mais catártico de musical de Spike Lee

LOS ANGELES, EUA (FOLHAPRESS) – O terno cinza está lá. O tênis branco foi trocado por pés descalços. O cabelo ainda é moderninho, mas agora está completamente branco.

Trinta e seis anos depois de protagonizar “Stop Making Sense”, clássico filme-concerto de Jonathan Demme (“O Silêncio dos Inocentes”), o músico David Byrne participa de outro longa musical antológico, “American Utopia”, que abriu o Festival de Cinema de Toronto na última quinta-feira. Dirigido por Spike Lee (“Faça a Coisa Certa”), o novo trabalho é um registro do espetáculo homônimo da Broadway, que, por sua vez, é inspirado no disco solo do ex-líder do Talking Heads -e na subsequente turnê.

O show, inaugurado em outubro do ano passado, precisou fechar as portas no Hudson Theatre, em março, e cancelou os planos para uma segunda temporada, que começaria em outubro, por causa do coronavírus.

Batendo recordes de lotação e com um rendimento semanal superior a US$ 1,2 milhão, “American Utopia” foi obrigado a trocar o sucesso nos palcos pelo filme de Lee, previsto para estrear na HBO em 17 de outubro, e um livro com ilustrações da artista Maira Kalman, programado para sair uma semana antes.

A mudança, pelo menos, cai como uma bomba de alívio no meio da pandemia e dos discursos políticos movidos pela eleição presidencial norte-americana.

David Byrne, ao contrário de “Hamilton”, outra peça da Broadway recentemente televisionada, não possui um esqueleto narrativo sequencial. Ele molda cada uma das músicas escolhidas -seja da carreira solo, seja à frente do Talking Heads- em um degrau para explicar os EUA de hoje em dia. E Spike Lee, que já dirigiu outros projetos parecidos, como “Passing Strange”, de 2009, e “Pass Over”, de 2018, e sabe capturar música com a energia de poucos cineastas, potencializa visualmente cada um desses momentos.

Em “I Should Watch TV”, colaboração de Byrne com St. Vincent, ele transforma o cenário minimalista cercado por uma cortina de correntes em uma fantasmagórica projeção ao posicionar a câmera em cima do palco. Lee entende que um espetáculo assim não pode ser traduzido apenas para registrar uma noite de expressão artística. Ficaria insuportável na tela. O diretor recria uma nova forma de enxergar “American Utopia”, assim como Demme fez com o Talking Heads: invasivo, mas invisível.

Acima de tudo, o cineasta aponta as câmeras para Byrne com admiração. Mas existe uma troca em nome de um tema em comum entre os dois artistas, algo que talvez não tenha existido nem quando Lee dirigiu Michael Jackson. A dupla procura uma conexão humanitária nos EUA e deseja entender, dialogar, investigar e criticar um país esquizofrênico. A coreografia de Annie-B Parson prega a dissociação entre os 11 músicos e dançarinos que acompanham Byrne. O rumo vai sendo encontrado aos poucos. Byrne fala sobre como uma mudança no ponto de vista é essencial em “Everybody’s Coming to My House”. Apresenta a banda ressaltando suas origens em “Born Under Punches (The Heat Goes On)”, algo possivelmente sugerido por Lee para dramatizar a mensagem -no espetáculo, a apresentação era mais tradicional. Neste momento, o cantor e anfitrião chama os brasileiros Gustavo di Dalva e Mauro Refosco, percussionistas fixos do grupo. A união se forma pela imigração e aceitação.

O Brasil é citado de novo no instante mais poderoso do musical: ensanduichada entre dois hits do Talking Heads (“Burning Down the House” e “Once in a Lifetime”), “Hell You Talmbout”, canção de protesto de Janelle Monáe, faz o público participar e gritar os nomes de vítimas negras recentes, inclusive Marielle Franco, vereadora carioca assassinada em 2018. “Digam seu nome!”.

O ato capturado por Lee no meio da plateia é catártico. Byrne fez algo semelhante na sua turnê pelo Brasil, há dois anos, mas agora amplia o recado para uma plateia global. Apesar de todas as nuances e até de autocrítica -o cantor foi questionado sobre ter feito blackface em um vídeo promocional nos anos 1980-, “American Utopia” não é um show panfletário para poucos. Suas músicas são a energia que move aquele palco monocromático. Elas ganham mais vida nas câmeras de Lee e, por quase duas horas, o espectador submerge numa realidade desengonçada, mas feliz.

Quando David Byrne sai do teatro, depois da exaustiva apresentação, ele sobe na sua bicicleta e vai para casa. Nós estamos em casa, mas respiramos junto com ele aquela liberdade que só a conexão humana providencia.

AMERICAN UTOPIAQuando: Exibido no Festival de Toronto, ainda sem previsão no BrasilDireção: Spike Lee

Fonte: www.noticiasaominuto.com.br/ultima-hora/1650399/grito-de-marielle-franco-e-instante-mais-catartico-de-musical-de-spike-lee

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