Precisamos acreditar na esperança ‘improvável’, sonhada por Morin

“Edgar Morin – Meu Caminho”, uma entrevista auto-biográfica que concedeu a Djénane Karej Tager, publicada no Brasil
José Osmando de Araújo
Jornalista

Num dos seus mais recentes, dentre os mais de 70 livros publicados, “Rumo ao Abismo?”, um ensaio sobre o destino da humanidade, Edgar Morin prova que a crise mundial se agravou e que o pensamento político é incapaz de formular uma política de civilização e de humanidade. Para ele, o mundo está no início de um caos, e a única perspectiva é uma metamorfose.

E é justamente sobre essa metamorfose que ele defende, que trago um texto específico sobre a questão, contido em outra obra formidável, “Edgar Morin – Meu Caminho”, uma entrevista auto-biográfica que concedeu a Djénane Karej Tager, publicada no Brasil em 2010.

Mesmo sendo um duro crítico da tragédia em que o mundo se transformou, Morin, do alto de seus 100 anos de vida completados no último 8 de Julho, nunca perde a crença no ser humano. A reflexão a que nos conduz a partir daqui, é memorável:

“Edgar Morin – Meu Caminho”

“Edgar Morin – Meu Caminho”

Estamos inseridos mais e mais profundamente na crise da humanidade. Mas a própria profundidade da crise indica a esperança improvável. Quando um sistema é incapaz de tratar seus problemas vitais, ou ele se desintegra ou suscita nele mesmo um metassistema mais rico, capaz de tratar seus problemas, ou seja, de metamorfosear-se. Ora, o sistema Terra não pode tratar seus problemas fundamentais, os da fome, da miséria, das migrações, da degradação ecológica, da difusão e multiplicação de armas de destruição em massa e da eclosão dos ódios ideológico-religiosos. Ele está condenado a se desintegrar ou a metamorfosear-se.

Não se sabe como se dará essa metamorfose. Como ela será criadora, não se pode conhecê-la antes que ocorra. Ninguém podia imaginar o que seria a Nona Sinfonia de Beethoven antes que ele a tivesse composto. A única coisa que podemos prever é que será uma sociedade-mundo, não com base no modelo ampliado dos Estados-nação, mas segundo uma organização e uma estrutura novas cuja fisionomia ainda é imprevisível. Seria como um novo nascimento. Não nos esqueçamos de que, como nos indicou Serge Moscovici, o mundopassou por diversos nascimentos sucessivos: o nascimento da postura ereta, há mais de sete milhões de anos, o nascimento da linguagem e da cultura no Homo erectus,o nascimento do Homo sapiens e das sociedades arcaicas e, finalmente, o nascimento das sociedades históricas.

Os Estados-nação modernos são sociedades que surgiram na Europa há cinco séculos e sua fórmula foi mundializada. A história desenrolou-se através da edificação de civilizações múltiplas, algumas delas grandiosas, mas, também, de guerras, de servidões, de destruições. Os últimos desenvolvimentos das armas de fogo tornaram terrivelmente mortais as duas guerras mundiais do século XX. Hoje em dia, a potência de destruição das armas nucleares pode aniquilar diversas vezes a humanidade.

Por isso, é preciso acabar com a história. Não certamente com as evoluções e com os acontecimentos, mas com as guerras entre nações. Essa seria uma das características da metamorfose: o fim da história. Mas, de algum modo, não no sentido dessa expressão para Fukuyama(filósofo Yoshihiro Francis Fukuyama), para quem a história esgotou suas faculdades criadoras com a democracia parlamentar e a economia liberal; mas, ao contrário, no sentido de que a metamorfose produzirá novas criações políticas, culturais e sociais.

Essas faculdades criativas às quais me refiro, elas existem, mas estão adormecidas. Farei uma comparação com as células-tronco, aquelas que se ativam no embrião e têm a faculdade de gerar todos os tipos de células diferentes do organismo, as do fígado, da bexiga, do coração, do cérebro, etc. Percebemos recentemente que essas células-troncos, que acreditávamos serem unicamente embrionárias, existem nos organismos adultos, mas estão inativas. Elas dormem. Evidentemente, o problema para a medicina é despertá-las de modo que possam regenerar ou reparar nossos órgãos que entram em falência e, assim, prolongar uma vida, que se encontra no vigor da idade, para além do limite de mortalidade.

Estou convencido de que os indivíduos e as sociedades detém igualmente um potencial gerador, regenerador e criador, mas inibido. Em seu estado normal, as sociedades possuem suas inflexibilidades, constrições e até mesmo escleroses que sufocam as possibilidades criativas do indivíduo. São os artistas, músicos, poetas, escritores, filósofos ou cientistas inovadores que revelam dons efetivamente excepcionais na medida em que seu pensamento não pode ser domesticado. Mas, em cada criança, como dizia Saint-Exupéry, “existe um pequeno Mozart assassinado”. Ora, a crise favorece a expressão de forças criativas, tanto na sociedade como em certos indivíduos. É isso que contribui para a improvável esperança…

Vamos confiar, assim, que esse monumental pensador Edgar Morin nos deixe alimentados de esperança e que nos faça acreditar no que expressou outro grande gênio, o filósofo Immanuel Kant, para quem a finitude geográfica de nossa terra impõe a seus habitantes o princípio de hospitalidade universal, que reconhece ao outro o direito de não ser tratado como inimigo. Ele sonhou que “a partir do século XX, a comunidade de destino terrestre impõe de modo vital a solidariedade”.

Bem, já estamos no século XXI, mas sigamos acreditando na esperança improvável e na solidariedade como destino.