Bilionários americanos mandam a fraternidade para o espaço

Não é novidade que detentores de poder – sobretudo econômico-, tornem-se indiferentes aos que sofrem, ignorando horrores da ausência de posses materiais
José Osmando de Araújo
Jornalista

A fraternidade -que seria o caminho do amor, o olhar de compaixão para o próximo, o acolhimento ao que mais carece, enfim, a essência do espírito cristão-, tem sido historicamente jogada na sarjeta, no mínimo posta sob o tapete, ignorada pelos que mais mais têm, em relação aos infinitos despossuídos, em um mundo repleto de contradições e injustiças.

Não é novidade que detentores de poder – sobretudo econômico-, tornem-se indiferentes aos que sofrem, ignorando horrores da ausência de posses materiais- que eles consideram herança dos incapazes, marcados pelo destino-, portanto, privados das possibilidades de elevação enquanto seres humanos.

São imensas parcelas da população do mundo mergulhadas na extrema pobreza, na fome, na rigorosa ausência de possibilidades, enquanto uma ínfima minoria privilegiada acumula, cada vez mais, de maneira progressiva, gigantesca riqueza. Seus beneficiários se fecham no ciclo dos extremamente ricos, em contraposição aos extremamente miseráveis, indiferentes ao que se passa no mundo, lá fora.

Recente relatório da Oxfam (um organismo internacional dedicado ao estudo das desigualdades no mundo) estimava que 11 pessoas morram de fome a cada minuto no planeta e que algumas centenas de milhões de indivíduos vivem atualmente sob níveis extremos de insegurança alimentar, ou seja, passam fome. No Brasil, o percentual da população que vive em extrema pobreza quase triplicou desde o início da pandemia, passando de 4,5% para 12,8%, aponta a Oxfam. No final de 2020, mais da metade da população – 116 milhões de pessoas – enfrentava algum nível de insegurança alimentar, das quais quase 20 milhões passavam fome, diz o relatório.

Aeronave da empresa de  Richard Branson (Foto: Reprodução)

Aeronave da empresa de  Richard Branson (Foto: Reprodução)

E eis, o mais cruel do enfrentamento e da insensatez : enquanto organismos internacionais atestam o aprofundamento da tragédia humana, dois bilionários norte-americanos, Jeff Bezos e Richard Branson, lançaram-se ao espaço, no intervalo de dois dias, numa disputa pessoal de superioridade, para instaurar a era das viagens turísticas à fronteira do espaço. Bezos, é tido como o homem mais rico do mundo, acumulando uma fortuna de 210 bilhões de dólares, ou cerca de 1 trilhão e 100 milhões de reais.

Espantosamente coincidentes no cronograma de desenvolvimento e um reflexo da acirrada competição entre os dois empresários, seus respectivos voos também marcam um ponto de inflexão para a nascente indústria do turismo espacial.

Porque os dois chefes têm o mesmo objetivo: fazer com que centenas de viajantes ricos possam admirar com os próprios olhos, por alguns minutos, a curvatura da Terra.

E, pior de tudo, não faltam pessoas interessadas nessa aventura obscena. Uma empresa criada por Richard Branson, um desses dois bilionários americanos, de nome Virgin Galacti, informa que mais de 600 clientes já fizeram reserva para este ano, ao preço estimado de US$ 250 mil, o que equivale a algo em torno de 1.3 milhão de reais, para um tour de 90 minutos.

Quem quiser se aventurar por incursões mais profundas, estima-se que o custo por pessoa deve ser em torno de 10 milhões de dólares.

Em julho deste ano de 2021 a riqueza dos 2.189 bilionários do mundo atingiu o valor recorde de US$ 10,2 trilhões. Em abril de 2020 era de US$ 8 trilhões, significando que em plena pandemia do coronavírus, cresceu mais de 2 trilhões de dólares. Ou seja, os bilionários pouco estão se lixando para a tragédia humana e para o sofrimento de milhões e milhões de pessoas que, no planeta terra, não têm a mínima chance de sobreviver.

Face a essas constatações, é inevitável não recorrer a José Saramago, com sua profunda reflexão em O Ensaio da Cegueira, quando nos alerta ao fato de que egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas covardias do cotidiano, tudo isso contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for suscetível de servir os nossos interesses.”

Na mesma linha de sentimento, o Papa Francisco nos traz uma reflexão mais recente, dos tempos do Coronavírus, ao nos dizer que, agora, quando pensamos em uma lenta e árdua recuperação da pandemia, esse perigo é sugerido: esqueça o que foi deixado para trás. O risco é que um vírus nos atinja ainda pior, o do egoísmo indiferente.

Sabe o Papa Francisco que esse vírus já contaminou enorme contingente da humanidade há muito tempo, mas fiquemos com ele nesse desejo: Partimos dessa ideia e continuamos até segregar as pessoas, descartar os pobres e imolar no altar do progresso aqueles que são deixados para trás. Mas essa pandemia nos recorda que não há diferenças, nem fronteiras entre os que sofrem.

Parece cada dia mais flagrante que ninguém escuta, fala, responde, dialoga, se liga no outro. Indiferença e egoísmo são as regras desse jogo louco que o mundo nos impõe. Sem freios e sem conserto.