Como perceber sinais de abuso sexual sofrido por uma criança?

*Andréa Ladislau

O mês de maio traz o dia 18 como sendo o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Mas, apesar da lembrança da data, ainda vivemos em tempos em que podemos perceber as fragilidades sociais no quesito proteção à infância e adolescência contra a violência sexual no mundo. Neste contexto, é preciso estar atento aos sinais de abuso evidenciados pela violência contra crianças e jovens que, consequentemente, perdem o direito a uma vivência infantil saudável e equilibrada.

É muito importante apurarmos as atenções para a escuta, o cuidado e o acolhimento dessas crianças e jovens, no sentido de evitar que possam ser marcados por traços de crueldade e perversidade que, certamente, provocam mudanças severas em sua percepção de valores e na forma como possam lidar com suas dores e com o mundo a sua volta, possibilitando ainda, o transporte do trauma sofrido para a vida adulta.

A violência sexual acarreta vivências traumáticas irreparáveis em suas vítimas. A começar pela grande dificuldade em manifestar verbalmente todo o sofrimento. Nestes casos, a melhor maneira de reconhecimento dos sinais do abuso, é buscar estar atento aos vestígios apresentados. Pois, diferentemente do que se pensa, as crianças dão pistas de que algo está fora da normalidade. Podem passar a apresentar distúrbios do sono (terrores noturnos), episódios de anorexia ou bulimia, baixa autoestima, queda no rendimento escolar ou dificuldade de aprendizado e concentração, isolamento social, fobias, agressividade, crises de choro constantes e inesperadas, episódios de enurese (xixi na cama) mesmo que após superado anteriormente, inquietação fora do normal, comportamentos hiper sexualizados precocemente e até déficit de linguagem.

Crianças e adolescentes expostos a situações de violência sexual podem exteriorizar desordens psíquicas, como: depressão, pensamentos suicidas, ansiedade generalizada, bloqueio sexual e o uso abusivo de drogas. Acarretando inclusive, prejuízos evidentes na maturidade de suas relações interpessoais e afetivas. Além disso, a percepção da realidade e a sua capacidade de confiança em adultos, poderá apresentar sinais de fragilidade. Os reflexos do abuso sexual no desenvolvimento biopsicossocial da criança e do adolescente devem ser levados em conta por toda a sociedade, a fim de promover intervenções psicológicas urgentes ao favorecimento da superação dos traumas sofridos.

A identificação dos abusos nem sempre é uma tarefa fácil, mas esteja atento a todos os indícios. As mudanças comportamentais acendem o botão vermelho e apontam a irritação, as dores de cabeça constantes, rebeldias, raivas, depressão, problemas escolares introspecções, dentre outras alterações, como alertas evidentes de que algo está errado. Pode ser um pedido de socorro inconsciente, expondo uma infância marcada por traços de crueldade.

Portanto, toda forma de maus tratos possuí uma dinâmica de perversões ilimitadas, que se manifesta como um horror contínuo para suas vítimas. O abuso sexual praticado contra crianças e adolescentes é, sem dúvida, um fenômeno que envolve muitas variáveis e complexidades, onde o dano psíquico está relacionado a fatores, como: idade do início do abuso; duração do abuso; diferença de idade entre abusado e abusador; o grau de violência; grau de parentesco entre eles e o grau de segredo intrínseco no ato violento.

Mas independente de tudo isso, uma coisa é certa: o impacto emocional e social será devastador na vida da vítima de abuso sexual na infância e/ou adolescência.

A mistura de sentimentos e dúvidas marcará as funções intelectuais, criativas e mentais dessa criança para sempre. Um composto de culpa, dor e desamparo fortalecido por uma infância roubada e destruída.

Por todo o exposto, o acompanhamento e amparo psicológico, médico e social se faz extremamente necessário, na tentativa de resgatar a autoestima, a confiança e a capacidade de sonhar de uma criança ceifada pela crueldade sórdida de um adulto perverso e desumano.

*Dra. Andréa Ladislau é Psicanalista